Reinaldo Azevedo - Colunista

Valdemar diz a banco: se Flávio vencer, vem crise! E o que quer Kassab

Presidente do PL deixa clara a intenção de livrar a cara dos golpistas, o que é inconstitucional. Crise com o STF seria certa

atualizado

metropoles.com

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Políticos, quando falam ao mercado, têm uma certa compulsão à sinceridade. Formam uma categoria com os radares bastante orientados para o poder de fato, não? Valdemar Costa Neto, presidente do PL, e Gilberto Kassab, que preside o PSD, foram convidados para um evento sobre investimentos do Bradesco BBI, em São Paulo. Costa Neto tem uma alma, sob certo ponto de vista, bastante transparente. Costuma repetir, entre outras frases com dimensão histórica, que “Jair Bolsonaro não é um cara normal”. Depois explica: “É que ele tem um carisma impressionante”. A gente entende. Nesse encontro de ontem, com aquela rapidez de raciocínio, ligeiro mesmo!, afirmou, ao comentar que o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e Eduardo Bolsonaro têm de se entender:

“Dia 19, estou indo para Miami para encontrar com o Eduardo. Conversar com cada um, para que a gente não tenha desentendimento. Para que a gente faça com que tudo corra bem. Porque, se nós não ganharmos a eleição, o Bolsonaro vai ficar mais dez anos preso.”

Fosse eu um dos endinheirados presentes, colocaria a mão no bolso — simbolicamente, claro! — para proteger a grana, tanto a minha como a de eventuais investidores. O que a frase de Valdemar quer dizer?

A PROMESSA DA CRISE PERMANENTE
Qualquer pessoa responsável, especialmente com os recursos alheios, tem de entender que o eventual vitorioso desse grupo vai tentar conceder o indulto ao ex-presidente e aos demais golpistas ou patrocinar a anistia da turma toda.

Bem, haverá crise na certa. Porque uma ou outra coisa — promessas também feitas por Ronaldo Caiado — são inconstitucionais (a concordância no plural está certa…). Para a hipótese de o STF recusar a agressão à Contituição, Flávio ofereceu a saída numa entrevista concedida à Folha no dia 14 de junho do ano passado e até agora não retirada: usar a força contra o tribunal. Isso tem nome: golpe de estado.

Assim, Valdemar foi a um dos templos do dinheiro grosso do país para prometer à plateia que, com eles, “não tem perhaps”, lembrando a gloriosa Elza Soares: se Flávio ganhar, a turbulência está garantida, e ninguém terá o dinheiro de volta. Aliás, não devem ter contado a Valdemar ali, mas muita gente começou a perder bufunfa no dia 5 de dezembro do ano passado, quando Bolsonaro anunciou que o seu escolhido era Flávio. “Uzmercáduz” estavam, como se diz no jargão, “comprados em Tarcísio”. Pois é… Avisei no dia 7 de julho que não havia hipótese de o ungido não ser um Bolsonaro de sangue. Muitos preferiram acreditar na lorota da “alternativa à polarização”. Os bravos operadores perderam grana porque não atentaram para os fatores distintos e combinados: a) Tarcísio estava, ora bolas!, em um dos polos — e, pois, alternativa não era; b) sendo um deles, por que Jair escolheria alguém que não tivesse seu sangue azul — ainda que fossem varizes e não nobreza?… Elementar.

De todo modo, fique o registro: Valdemar promete a crise — porque só Deus sabe (ou o demônio) o que vem depois, e Flávio já anunciou o golpe. E todos juntos prometem um mandato de sacolejos, especialmente se perceberem a possibilidade de impichar ministros do STF.

Lembro: inexiste ato do poder público, de qualquer um, imune à apreciação judicial. Eventuais processos de impeachment de integrantes da Corte teriam a sua juridicidade necessariamente apreciada pela… própria Corte. Se alguém aplaudiu a fala de Valdemar, congratulou-o e congratulou-se com a crise. Se tudo der certo — quer dizer: errado —, ficará como essa personagem da ilustração (iStock): “O que foi que fizemos!?”

VOTO ENVERGONHADO EM LULA
Falo com muita gente. Em 2018, havia nos tais “mercados” muito voto envergonhado em Bolsonaro; em 2022, a turma já estava mais sem vergonha: o patético normalizou-se — e, afinal, temiam-se as supostas irresponsabilidades de Lula, que só existem na cabeça da turma do miolo mole.

Hoje, creiam, o voto envergonhado dessa fatia pequena e poderosa mudou de lado: a maioria põe a mão no bolso e pensa: “Melhor a estabilidade com Lula do que o caos permanente”.  Aquele que Valdemar prometeu.

KASSAB
Kassab também era um dos convidados do evento. Na sua vez de falar, disse que, se Ronaldo Caiado chegar a 15% dos votos no primeiro turno, o resultado será excelente. Não dourou a pílula:
“São 15% com os quais nós vamos chamar alguém e dizer: ‘vamos apoiá-lo porque queremos isso e aquilo'”.

O governador de Goiás tentou fazer de conta que não entendeu e disse ser esse um patamar de arrancada. É mesmo?

O presidente do PSD ainda teorizou para uma turma que não costuma rasgar dinheiro, embora tenha perdido, como categoria (não me refiro aos presentes porque não os conheço), muita grana quando Tarcísio saiu da parada:
“Acho que é muito importante que tenha essa alternativa, nem que fosse para perder. Os brasileiros precisam mostrar que existe outro caminho”.

Eis aí, na frase, a “Loura do Banheiro” do processo político: a polarização. Todos dizem que o fantasma existe, mas sempre foi outro que viu. Em entrevista à Folha/UOL, o “alternativo” Caiado defendeu o massacre no Rio, que chamou de operação muito bem-sucedida; disse que as facções devem, sim, ser consideradas terroristas e afirmou que quer as Forças Armadas no combate ao crime. E já sabemos ser favorável ao indulto a Bolsonaro e a seus discípulos. E ainda citou Juscelino, aquele que enviou ao Congresso o projeto de anistia dos golpistas de Jacareacanga em 1956 para ter de enfrentar uma outra intentona em 1959 (Aragarças), sob a mesma liderança do criminoso anistiado…

Cadê a “alternativa” — a menos que se esteja falando de alguém que, no discurso, parece um tanto à direita do próprio Flávio. Kassab disse o propósito: com 15%, cartas à mesa: “Queremos isso e aquilo…”

Mas mesmo “isso e aquilo” parecem um tanto suspeitos nesse discurso, não? Alguém imagina Caiado a manifestar apoio a Lula? Ora… “Ah, mas o que imposta é o PSD”. O partido já vai fazer o que bem entender no primeiro turno. E não será com Caiado. O governador de Goiás é um nome para arrancar concessões do futuro presidente se Flávio vencer. Afinal, o partido já está hoje no governo Lula.

“Ah, talvez Kassab pudesse segurar a mão dos exaltados se estiver numa eventual gestão Flávio…”

Ninguém segura. Vejam lá. Até Valdemar, o “prudente”, já assinou o contrato de gaveta do golpe em caso de vitória. Assim são as coisas. E tudo está claro. Escolha o seu sonho, como escreveu a poeta.

 

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