Eleição 2026

Um espectro ronda a extrema direita: cadê os R$ 61 milhões, Flávio?

Presidenciável do PL admitiu em nota ter recebido dinheiro de Vorcaro “para o filme”; produtora diz não ter visto a cor da grana. Onde está?

atualizado

metropoles.com

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Vejo-me obrigado a parafrasear Marx e Engels em texto célebre de 1848: “Um espectro ronda a extrema direita — o espectro do sumiço de R$ 61 milhões doados por Daniel Vorcaro a Flávio Bolsonaro para o filme ‘Dark Horse’ e que nunca teriam chegado a seu destino…” Pois é: as coisas só pioram.

Já escrevi aqui e já falei no rádio e na TV: em princípio, uma empresa ou um empresário doar dinheiro para a feitura de uma, digamos, “obra de arte” não é crime, desde que tudo seja devidamente declarado. E assim é ainda que Vorcaro venha a admitir coisas cabeludas na sua delação. Eis, no entanto, duas questões relevantes:
1: tudo está devidamente registrado? Isso diz respeito tanto ao ex-banqueiro como ao candidato do PL à Presidência;
2: a bufunfa foi mesmo destinada à hagiografia bolsonariana? Se não foi, onde está a grana? Nesse caso, Flávio ainda deverá satisfações à Justiça, inclusive à Eleitoral, e também a seus parceiros da extrema direita.

PRODUTORA NEGA TER RECEBIDO O DINHEIRO
A GOUP Entertainment, que produz a “obra”, nega o recebimento. Em entrevista à Folha, Karina Ferreira da Gama, sócia-administradora da empresa, afirma que a produtora só conta com investimentos estrangeiros, sem ligação com Vorcaro.

Diz Karina:
“Eu já falei com a equipe dele [Flávio Bolsonaro]. Não tenho absolutamente nenhum recurso oriundo dessa pessoa ou das empresas que ele ou Fabiano Zettel fazem parte”.

Mais ainda:
“Ele [Flávio], como família, como pessoa interessada no projeto, porque a gente está falando da história do pai dele, é evidente que ele tenha prospectado com várias pessoas o apoio, apresentação de novos investidores, novos apoiadores. Mas não existe nenhum documento, contrato ou transferência dessa pessoa [Vorcaro] e também de empresas que ela representa.”

Pois é…

FLÁVIO ADMITE TER RECEBIDO O DINHEIRO
Na primeira vez que foi indagado a respeito, colhido de surpresa, Flávio deu uma gargalhada e desconversou. Na segunda, redigiu uma nota e fez um pronunciamento, conhecendo já o inteiro teor da reportagem do Intercept Brasil, e admitiu o recebimento do dinheiro. Sabia, àquela altura, que a apuração sustentava que aos menos R$ 61 milhões haviam sido repassados. E, como resta evidente, não negou. Em nota, o valentão escreveu, fingindo querer uma CPI:

“Mais do que nunca é fundamental a instalação da CPI do Banco Master. É preciso separar os inocentes, dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho, procurando patrocínio PRIVADO para um filme PRIVADO sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de lei Rouanet.
Conheci Daniel Vorcaro em dezembro de 2024, quando o governo Bolsonaro já havia acabado e quando não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro. O contato é retomado quando há atraso no pagamento das parcelas de patrocínio necessárias para a conclusão do filme. Não ofereci vantagens em troca.
Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem. Isso é muito diferente das relações espúrias do governo Lula e seus representantes com Vorcaro. Por isso, reitero, CPI do MASTER JÁ.”

Como resta escancarado, ele admite a transferência de recursos e também o atraso. Insisto: NÃO CONTESTOU OS VALORES INFORMADOS PELA REPORTAGEM. Mas aí vem Karina e diz não ter visto um tostão.

Voltamos ao espectro que ronda, então, a extrema direita: cadê o dinheiro? Que Vorcaro imaginava estar financiando o filme hagiográfico sobre Bolsonaro, bem, parece haver poucas dúvidas a respeito, certo? Fabiano Zettel trata com o então banqueiro sobre o cronograma de liberação de recursos para o… filme. Vorcaro certamente não ficou bilionário jogando dinheiro fora. Não terá desconfiado em nenhum momento do valor fabuloso para tal empreendimento?

HÁ AINDA MAIS CONFUSÃO
Além da negativa de Karina em conversa com a “Folha,” há uma “nota técnica” emitida pela empresa negando o que Flávio admitiu. Vamos ler:

“NOTA TÉCNICA À IMPRENSA
A GOUP Entertainment esclarece, preliminarmente, que a legislação norte-americana aplicável a operações privadas de captação no setor audiovisual veda a divulgação da identidade de investidores cujos aportes encontrem-se resguardados por acordos de confidencialidade (Non-Disclosure Agreements). Trata-se de prerrogativa contratual e regulatória legítima, assegurada aos financiadores de projetos estruturados sob o regime de investimento privado, e que esta produtora é obrigada a observar.
Sem prejuízo das restrições acima e com o propósito de afastar especulações infundadas, a GOUP Entertainment afirma categoricamente que, dentre os mais de uma dezena de investidores que compõem o quadro de financiadores do longa-metragem Dark Horse, não consta um único centavo proveniente do sr. Daniel Vorcaro, do Banco Master ou de qualquer outra empresa sob o seu controle societário.
A produtora reafirma que o projeto cinematográfico Dark Horse foi estruturado dentro de modelo privado de desenvolvimento audiovisual, por meio de articulações, parcerias e mecanismos legítimos do mercado de entretenimento nacional e internacional, sem utilização de recursos públicos.
Cumpre destacar, ademais, que conversas, apresentações de projeto ou tratativas eventualmente mantidas com potenciais apoiadores e empresários não configuram, por si só, efetivação de investimento, participação societária ou transferência de recursos — sendo improcedente qualquer ilação em sentido contrário.
A GOUP Entertainment repudia, portanto, tentativas de associação indevida entre a produção cinematográfica e fatos externos desprovidos de comprovação documental, financeira ou contratual.
A produtora permanece à disposição das autoridades competentes e da imprensa para os esclarecimentos cabíveis, reafirmando seu compromisso com a transparência, a legalidade e a integridade de suas operações.
GOUP Entertainment”

SURREALISMO
Paulo Figueiredo, o “Leporello” do “Don Giovanni Eduardo”, divulga o texto no X como a prova dos noves de que Vorcaro não fez a doação. O mesmo faz, claro, o seu chefe.

Logo, cumpre indagar: Flávio admitiu, em nota, ter recebido um dinheiro que nunca foi repassado ou, tendo sido repassado, nunca foi destinado ao filme? Convenham: nem o gado, de cuja condução tanto esses caras se orgulham, conseguirá engolir esse capim. Flávio, cadê o dinheiro?

A propósito, ocorre-me um trecho de certo autor:

“O dinheiro surge como esse poder distorcido tanto contra o indivíduo como contra os laços da sociedade etc. que se dizem entidades em si mesmas. Ele transforma fidelidade em infidelidade; amor em ódio; ódio em amor; virtude em vício; vício em virtude; servo em senhor; senhor em servo; idiotice em inteligência e inteligência em idiotice.
Como o dinheiro, enquanto conceito existente e ativo de valor, confunde e perturba todas as coisas, ele é a confusão e a perturbação geral de todas as coisas — o mundo de cabeça para baixo —, a confusão e perturbação de todas as qualidades naturais e humanas.
Aquele que pode comprar coragem é corajoso, ainda que seja covarde. Como o dinheiro não é trocado por uma qualidade específica — por uma coisa específica ou por um poder essencialmente humano em particular —, mas por todo o mundo objetivo do homem e da natureza, ele serve, do ponto de vista de seu possuidor, para trocar qualquer qualidade por outra qualidade qualquer, ainda que contraditória: é a confraternização das impossibilidades. Ele faz com que as contradições se abracem.”

É o jovem Marx, agora sem paródia, nos “Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844”, em texto intitulado “O Poder do Dinheiro”.

Flávio tem de responder onde estão os R$ 61 milhões que ele admitiu ter recebido de Vorcaro, que seriam destinados ao filme e que, assegura a produtora, nunca chegaram. A “Folha” informa ainda que pessoas ligadas ao deputado Mário Frias (PL-SP), coprodutor de tão espetacular obra, assediaram empresários bolsonaristas. A um deles se pediu a bagatela de US$ 10 milhões… Pelo visto, não era um filme, mas uma mina de ouro.

Flávio, você admite ter recebido a bolada. Eduardo, seu irmão, dá fé à nota da produtora, que alega não ter visto a cor da grana. Flávio, conte aí: onde estão os R$ 61 milhões?

 

 

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