
Terras raras do Brasil, Flávio, Trump e a “Internacional Neocolonialista”
Enquanto a gente se preocupava em cuidar do milho, a extrema direita bolsonarista já estava prometendo fubá para o neocolonialismo trumpista

É o texto mais longo que publiquei neste Metrópoles. Mas tem de ser assim.
Começo resgatando um ditado muito popular lá na minha terra, Dois Córregos (SP), que abriga a Caverna do Unhudo: “Quando você está indo com o milho, estou voltando com o fubá”. A coisa perde força escrita assim. Aos costumes: “Quânu cê tá ino cumi-io, tô vortânu cufubá”. Nas redes e também em algumas antevisões de futuro, a extrema direita produz o fubá da impostura com mais velocidade do que os progressistas operam o bom debate. Por quê? Porque é mais fácil oferecer “soluções simples e erradas para problemas difíceis” (H.L.Mencken) do que as boas respostas para questões complexas. Vamos ver.
Enquanto, de algum modo, todos nos distraíamos com as diatribes “tarifaicas” de Donald Trump, em parceria com os Bolsonaros, estes valentes já estavam negociando o fubá das terras raras com a gringolândia. Está mais claro do que nunca: conquistar o governo do Brasil não é uma finalidade, mas um meio tático. O verdadeiro objetivo estratégico é negociar terras raras e ser, por aqui, a força interventora do neocolonialismo de Trump e desclassificados afins. E destaco de saída um dado que desafia algumas análises preguiçosamente convencionais: foi Renan Santos, candidato do Missão, quem primeiro chamou a atenção para o que não é mera interpretação de indícios. Ele trouxe dados. “Ah, quer dizer que Renan é de esquerda?” Não. Ele é de direita. “Ah, você está querendo que eu curta o Renan”? Quero que você goste dos fatos. Nesse caso, ele também foi mais rápido — só que em jogar o fubá dos Bolsonaros e dos neocolonialistas locais no ventilador.
Como se sabe, os bolsonaristas, em parceria com o trumpismo, mostram-se adversários severos do tal “globalismo” — alvejado por Trump de novo em discurso na ONU, no último dia 22. O papo deles é outro e, como se verá, potencialmente bem mais rentável. Conforme revelou reportagem da Folha, a Rockbridge Network, influente clube de investimentos e articulação política fundado pelo atual vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, resolveu fincar estacas no “auriverde pendão” da nossa terra, “que a brisa do Brasil beija e balança”.
O objetivo? Como é mesmo? “Combater o progressismo” e “salvar a civilização ocidental”. Para tanto, cumpre azeitar a máquina de propaganda de Flávio à Presidência. Eis a fusão exótica da teocracia picareta de WhatsApp com um fundo de “venture capital” que, para todos os efeitos, estaria oferecendo traquitanas ideológicas. De fato, estamos a falar de negócios. Trump tem tanta simpatia por Flávio como tem pela presidente da Venezuela, Delcy Rodriguez. Ele queria o petróleo, como revelou na ONU. Já tem. Do Brasil, quer as terras raras.
Que fabuloso! Os que vivem a apontar o dedo contra ONGs internacionais descobrem as delícias do intervencionismo de um ente estrangeiro e privado, que serve aos propósitos neocolonialistas. A Rockbridge não é um reles ente disposto a fazer a guerra de valores em favor do tal “Ocidente Cristão. Estamos a falar de um ecossistema que reúne bilionários da tecnologia, magnatas do petróleo e ideólogos que entendem que a política contemporânea não se opera mais nos Parlamentos.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesUBER DO REACIONARISMO CULTURAL
É imperioso, sem trocadilho, capturar a infraestrutura daqueles que considera seus “vastos quintais” (by Caetano): meios de comunicação, redes de ensino, plataformas de tecnologia e institutos de pesquisa. O grupo de Vance funciona como uma espécie de “Uber do reacionarismo cultural”: seus capangas locais entram com a pauta ideológica, de costumes — com a “guerra cultural” —, e eles fornecem o motor financeiro e a estratégia algorítmica.
O mais fascinante nisso tudo é notar a velocidade com que os nossos “patriotas” correm para o beija-mão. A candidatura de Flávio encontrou na franquia de J.D. Vance o padrinho ideal. Aliás, a engrenagem já está rodando. Informa a reportagem da Folha:
“Na semana do Brasil em Nova York neste ano [em maio], o outro cofundador da Rockbridge, Chris Buskirk, falou a empresários brasileiros num encontro mediado por Tallis Gomes, fundador da Easy Taxi e da G4 Educação e integrante da rede nos EUA.”
Não pensem que a “salvação do Ocidente” vem de graça. A defesa dos “nossos valores” tem tabela de preços bem definida e não é para qualquer bolso. Espiem o que a reportagem da Folha flagrou nos manuais internos do grupo:
“Um dos documentos que circulou no Brasil explicava como se tornar membro e oferecia duas categorias: Keystone, com contribuição anual de US$ 500 mil, e Visionary, de US$ 1 milhão. Os pagamentos poderiam ser feitos em dólar, criptomoedas, ações de empresas abertas ou fechadas e por meio de estruturas corporativas e trusts. O formulário informava que os pagamentos deveriam ser feitos para a Rockbridge Brazil LLC, criada pelo grupo nos EUA.”
Anotaram? Meio milhão ou um milhão de dólares. Aceita-se tudo: de criptomoeda a ações, passando por trusts e engenhocas corporativas no exterior. Assim, ninguém precisa dar explicações chatas ao Fisco. É o patriotismo, mas com conta em paraíso fiscal, já que ninguém é de ferro nem se notabiliza por excesso de caráter.
TERRAS RARAS
A parte, digamos, mais excitante e vultosa da tramoia se dá quando a “salvação do Ocidente” se encontra com o nosso subsolo. O cardápio de ofertas do clã Bolsonaro inclui as nossas riquezas minerais — tudo muito bem embrulhado para presente. No dia 28 de março de 2026, lá no Texas, discursando para a plateia trumpista na conferência do CPAC — aquela reunião de reaças oriundos de todos os cafofos ideológicos do planeta —, o próprio Flávio já prometia rendição da soberania ao declarar, sem margem para interpretação alternativa (vídeo aqui, a partir de 9min47s):
“O Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do Hemisfério será decidido porque o Brasil é a solução dos EUA se livrarem da dependência dos minerais críticos, especialmente elementos de terras raras da China”.
Vejam que mimoso! O sujeito vai a um evento estrangeiro oferecer o subsolo brasileiro como “a solução” para a economia dos EUA…
E vamos às coincidências incríveis. Enquanto o clã Bolsonaro discursa, oferece facilidades aos colonizadores e vende bugigangas ideológicas na campanha eleitoral, a própria dinastia Trump decide faturar por aqui. Outra reportagem da Folha escancara que o negócio já passou da fase das pretensões: uma empresa norte-americana financiada por um fundo que tem ninguém menos do que Donald Trump Jr. como sócio acaba de fechar um acordo que mira terras raras num megaprojeto no sul de Minas.
Entenderam, ou preciso fazer um desenho? A cúpula republicana fornece a rede política e o apoio eleitoral via Rockbridge, os Bolsonaros fazem o bolo do entreguismo, revestindo-o com o glacê da guerra ideológica, e os Vances e Trumps Jr. entram com os fundos. E, por óbvio, é preciso mobilizar a turma de verde-amarelismo que reza para pneu para que os otários alimentem o fundamentalismo de WhatsApp enquanto os espertos fazem negócios.
CASO CHEGA AO SUPREMO
O caso foi parar no Supremo. O PT, por meio de uma petição assinada pelo deputado Lindbergh Farias (RJ), líder do partido na Câmara, protocolou uma notícia de fato exigindo uma investigação profunda sobre esse duto de influência estrangeira. A acusação é grave: financiamento eleitoral por entidade estrangeira, o que a nossa legislação trata com “vedação absoluta”.
Na base do pedido, há uma impressionante cronologia. Descobriu-se uma apresentação de 22 páginas intitulada “Prosperity Partnership” — “Parceria para a Prosperidade”. No cabeçalho, sem nenhum pudor, lê-se: “Flávio Bolsonaro 2026 Campaign”. O autor da proeza é o candidato do Novo ao governo do Rio, André Marinho. Ele próprio explicou a iniciativa como parceria “Brasil-EUA: Aliança Minerais Críticos e Terras Raras”. O documento data de 19 de março de 2026.
Nove dias depois, Flávio subia ao palco, no Texas, para oferecer as terras raras aos norte-americanos como forma de fortalecê-los nos embates com a China, nosso principal parceiro comercial. Ora, se o país será o quintal dos EUA na exploração de terras raras, por que não seria também na política? No dia 13 de abril, noticiou-se que, pouco depois desses eventos, Marinho jantou com o próprio Vance, o chefão da zorra toda.
À CNN, o comensal explicou que tudo não teria passado de um “exercício hipotético de análise de cenários e que a viagem não tinha relação com o estudo”.
Renan Santos, candidato do Missão, como já escrevi, jogou o fubá bolsonarista no ventilador:
“O J.D. Vance trabalha com um grupo chamado Rockbridge, que está na campanha do Flávio Bolsonaro… Esses caras põem dinheiro em eleição”. Segundo Santos, os representantes da turma na campanha do candidato do PL são os empresários Tallis Gomes e Pedro Sang.
Tallis jura de pés juntos que é apenas um “membro” da rede, sem cargo de gestão, e que jamais atuou em arrecadação ou doou para campanhas — prometendo inclusive processar quem disser o contrário. Sang, por sua vez, explicou que conheceu o clube de J.D. Vance por meio de André Marinho, amigo desde a infância. O objetivo nobre seria atrair parte dos trilhões globais para o setor de Inteligência Artificial no Brasil, mas jura que a iniciativa “nunca avançou e está suspensa”.
Que fique claro: a Rockbridge não pratica filantropia mundo afora. Almeja, obviamente, ganhos objetivos. Até aí, bem. Ocorre que o seu instrumento de ação é a desestabilização institucional.
Além desse rolo, há as contas de estrangeiros no X que têm feito impulsionamento de postagens em favor da candidatura de Flávio. Usuários estrangeiros têm divulgado previsões da plataforma de apostas Polymarket que apontam um suposto favoritismo do senador. Trump Jr. é um investidor também nessa empresa… Nesse caso, Santos também recorreu ao TSE.
BRASIL MAIS COMPLICADO DO QUE PARECE
O Brasil sempre foi mais complicado do que parece. A bibliografia a respeito é vastíssima. Nosso projeto de “fascismo”, ou algo assim, por exemplo, quando aconteceu, não foi óbvio. Ao se voltar para as supostas raízes da nação — como seus congêneres europeus — buscou a adesão daqueles que seus inspiradores diziam ser “os fracos”, os miscigenados.
Uma ilustração: o negro João Cândido Felisberto (1880-1969), o líder da “Revolta da Chibata”, filiou-se à Ação Integralista Brasileira, chegando a ser o líder do movimento na Gamboa, no Rio. Concedeu entrevista já perto da morte e defendeu a ditadura militar. Havia aquele de verdade, com esses contrastes, e o da espetacular música de Aldir Blanc e João Bosco, na voz de Elis: “Mestre Sala dos Mares”, uma homenagem justa.
Escreve J. Chasin, na página 223 da primeira edição (1978) de “O Integralismo de Plínio Salgado”, reproduzindo trechos (que seguem entre aspas e com cor, de artigos do líder do Integralismo:
[Dadas as pretensões de Salgado] Gestando-se a nação, caminha-se virtualmente para a afirmação de sua personalidade nacional, razão pela qual “temos que zelar pela grande força que, do ponto de vista étnico, garante uma assimilação perfeita de elementos estranhos e, do ponto de vista social, determina a manutenção intangida do próprio gênio da nacionalidade, condição essencial para que leguemos aos tempos vindouros, não um povo de adventícios, mas um povo caracterizado e unificado numa forte expressão própria”, e [temos de] “consultar nossas raízes históricas, a força das nossas tradições político-religiosas, os imperativos geo-étnicos, nossos costumes, nossas tendências — numa palavra, o gênio da nacionalidade”.
Palavra importante para entender o trecho: “adventício” é o que vem de fora, o estrangeiro. É uma manifestação hostil, sim, ao “outro”, mas advogando uma população, digamos, de “impuros”. A nossa “raça pura” seria gestada aqui dentro..
Segue Chasin, citando:
Nas circunstâncias internacionais de disputa imperialista, a própria salvação brasileira reside nesta afirmação de nacionalidade: “Em tais circunstâncias, só se salvarão do desaparecimento as nações que não interromperem o curso normal de sua formação, quer dizer, aquelas que mais fortemente fizerem valer a sua personalidade”.
O Integralismo, definitivamente, não era “internacionalista”, como eram os comunistas. Hostil ao “imperialismo capitalista”, como pedia a versão original, buscava definir uma nacionalidade a partir de uma “impureza” que era parte da equação que fez a nação. E certamente repudiava a “luta de classes”. Salgado queria buscar um tal “espírito” que nos uniria…
Não estou associando de modo nenhum o Missão ao Integralismo. Chamo atenção para outra coisa: a primeira manifestação de extrema direita do Brasil de fato “internacionalista”, com apoio de amplas camadas e verdadeiramente entreguista é o bolsonarismo. Durante a Guerra Fria, reaças acusavam os movimentos de esquerda de serem financiados pelo “ouro de Moscou”. Até havia algum dinheirinho em certos casos — sempre irrelevante. Com o bolsonarismo-trumpismo, eis que surge o “Ouro de Washington”. Ou melhor: eis que Washington exige o ouro de hoje em dia: as terras raras. E Flávio já deixou claro que o seu negócio é se comportar como a personagem de “Bancarrota Blues”, a espetacular música de Chico e Edu Lobo: “Eu posso vender/ quanto vai pagar?”
CONCLUO
A chegada da Rockbridge ao Brasil escancara mais uma farsa do conservadorismo de fachada. Trata-se de um arranjo de negócios — remontando à casa dos trilhões — que apela a um proselitismo que não guarda nem memória do Integralismo, que foi o que a extrema direita produziu de intelectualmente mais robusto no Brasil, ainda que detestável.
Os integralistas, com efeito, sonhavam governar o Brasil porque Salgado julgava ser a condição para a tal “verdadeira revolução espiritual”. Levava a sério seus sonhos de truculência redentora. Flávio e os que o cercam oferecem aos EUA oportunidades…. Tanto ele como Eduardo já disseram a seus, digamos, eventuais sócios do Império do Norte que tudo poderá ser negociado por aqui. “Eu posso vender/ quanto vai pagar?”. Essa é a divisa dos bate-paus do neocolonialismo. É a turma do fubá da impostura.



