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Reinaldo Azevedo

Sempre que a cobertura de polícia toma a de política, fascistoides avançam

O combate à corrupção é um dever dos governos e tem de ser noticiado pela imprensa, mas a política e suas escolhas não podem ser rodapé

15/10/2026 12:03
“Os Pilares da Sociedade” (1926), do artista alemão George Grosz (1893-1959). Com a ascensão do nazismo, emigrou com a família para os Estados Unidos. Só voltou a Berlim pouco antes de morrer. Na obra, um retrato implacável da elite picareta, que se deixada seduzir por autoritário e pilantras
Sempre que a cobertura de polícia toma a de política, fascistoides avançam

Não sei quem vai vencer a eleição. Flávio Bolsonaro é, em tese, favorito porque chegou à frente. Pesquisas apontam empate técnico com o presidente Lula. O precedente de nunca ter havido uma virada na eleição presidencial não é predição acima da dúvida nem um teorema. Há outro, que também não é um teorema como o de Pitágoras (a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa): em 2014, Dilma só virou sobre Aécio nas pesquisas cinco dias antes do segundo turno e acabou vencendo. Nos números da Quaest divulgados nesta quarta, o candidato do PL aparece com 46%, e o petista, com 44%. Acho que há uma novidade nestes dias: a cobertura política começou a falar um pouco de… política! Deixou de ser apenas um rodapé da seção de Polícia.

Os partidários de Lula têm feito atos Brasil afora que realmente impressionam. O de domingo, na Avenida Paulista e adjacências, disputa lugar entre os maiores da história do país. Nem de longe teve na grande imprensa a visibilidade que o fato exigiria em tempos normais. Em dias assim, certo equilibrismo em nome da isenção costuma privilegiar a administração dessa isenção em prejuízo da realidade. Talvez um dia isso seja revisto. E, pois, falemos mais de imprensa.

Nesses quatro anos da gestão Lula, dois movimentos se deram. Num sentido, a cobertura passou a ser implacável com a dita irresponsabilidade fiscal do governo. É muito difícil haver juízos “apenas técnicos” que sejam neutros, reconhecendo virtudes e defeitos ao menos. Não. É pauleira pura. No outro sentido, o bolsonarismo, que jamais abandonou a agenda golpista e reacionária, começou a ser normalizado. Perguntas de caráter até supostamente existencial têm sido feitas pelo isentismo profissional: “Os direitistas não têm o direito de se manifestar?”

Mas quando é que houve um miserável impedimento? Nunca. Convém não confundir a pregação de golpe de Estado com exercício da divergência, não é mesmo? Há coisas que chegam a ser risíveis. No domingo, no dia do grande ato dos eleitores de Lula na Paulista, um grupo de jovens resolveu pichar uma estação do metrô. O ora ultrarreacionário Tarcísio de Freitas, com fama de “moderado” na mídia, gravou um vídeo em que se referiu — sei lá se sabia o que estava dizendo ou se foi pautado por algum assessor com ou sem o concurso da IA — ao “paradoxo da tolerância”, de Karl Popper, na obra em dois volumes “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos”.

Em síntese: os democratas não podem tolerar os que tentam solapar o regime justamente em nome da tolerância porque fazê-lo significa aceitar a premissa da intolerância. E não é que o homem que defende anistia para os golpistas se mostra, então, severíssimo com pichadores — e não penso que devam ser adulados —, mas passa a mão na cabeça dos que tentaram pôr fim à democracia, um plano que contemplava até o assassinato de Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes? 

Já recomendei aqui um livro de 1980: “Friendly Fascism: The New Face of Power in America”. É o fascismo que volta com um “sorriso”, com cara “amigável”. Mas, sabemos todos, se precisar, fuzila, como se viu em São Paulo.

Ora, senhor Tarcísio, os golpistas é que não podiam ser tolerados, não é mesmo?, segundo os fundamentos expostos por Popper. Ah, claro: se não leu, não cite.

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VOLTEMOS AO PONTO
Não sei quem vai vencer no dia 25. Mas é fato que a própria imprensa só começou a cuidar de eleição propriamente depois do primeiro turno — e, ainda assim, antecipando o desastre de Lula. A mobilização da rua petista está obrigando-a a falar do pleito. Desde que André Mendonça quebrou o sigilo da investigação ilegal que mandou fazer contra Alexandre, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, o jornalismo político não cuidou de outra coisa. Melhor para Flávio, não?, que tem um programa oculto.

Até agora, ninguém sabe onde ele vai aplicar o seu “tesouraço” que tanto encanta os mercados. Mendonça e Kássio não querem que os adversários do senador sugiram que os cortes serão feitos na área social, embora isso tenha sido vazado para a imprensa por gente da própria campanha para testar reações. O Flávio que diz que vai pôr fim à era petista só prometeu aumento de gastos. Adolfo Sachsida, um de seus coordenadores econômicos, diz que a revolução dos gastos sairá do enxugamento dos ministérios e do corte de supersalários. É uma piada.

Em suma: bastou a cobertura política falar um pouco de política, e Flávio se complicou porque, ora vejam!, é adversário dos fatos. Daqui a pouco alguém ainda tem uma ideia: “Vamos retomar a agenda de polícia e a caça ao Supremo, ou nosso homem ainda perde a eleição. E lá ficaremos nós sem nosso projeto de fascismo que consideramos ‘amigável e sorridente’.”

O candidato do PL e seu coordenador político, senador Rogério Marinho (PL-RN), querem encarcerar crianças de 14 anos e choram quando pensam em golpistas presos… Lembro-me do poema “Anedota Búlgara”, de Drummond:
Era uma vez um czar naturalista
que caçava homens.
Quando lhe disseram que também se caçam borboletas e andorinhas,
ficou muito espantado
e achou uma barbaridade.

E olhem que os golpistas não são nem borboletas nem andorinhas.

“Os Pilares da Sociedade” (1926), do artista alemão George Grosz (1893-1959). Com a ascensão do nazismo, emigrou com a família para os Estados Unidos. Só voltou a Berlim pouco antes de morrer. Na obra, um retrato implacável da elite picareta, que se deixada seduzir por autoritários e pilantras