Reinaldo Azevedo - Colunista

Reacionários armaram país até os dentes; Bolsonaro propôs luta armada

Quanto mais histérico é o discurso na área de segurança, mais comprometido com a violência — e não com a paz — está o seu autor

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A hipocrisia, já pontificou La Rochefoucauld, é o tributo que o vício presta à virtude. Mais do que simples tributo, pode ser mesmo contribuição ativa, parceria, ação conjunta. Quando se trata de violência, o outro nome, então, do fingimento designa, sem qualquer favor, um ato criminoso. E criminosa foi a política de segurança pública de Jair Bolsonaro, parte dela tendo ninguém menos do que Sergio Moro, esse durão de fancaria, à frente do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Foi a era do liberou-geral das armas e da multiplicação dos tais CACs (Caçadores, Atiradores e Colecionadores). É mesmo? Exceção feita ao javaporco, espécie exótica que tem de ser eliminada do país, vão caçar o quê por aqui? Seres humanos? De certo modo, essa é a caçada que a extrema direita promove de vez em quando ao subir morros ou ir às periferias para empilhar corpos de pretos e pobres.

E que se note à margem: a eliminação do javaporco tem de se dar por manejo biológico, não pela caçada — ou logo aparecerá algum… espírito de porco para incentivar a reprodução do bicho só para dar uns tiros e sentir, assim, aquela “vontade de potência”, como não diria o filósofo. Dado que já existem Citrato de Sildenafila e Tadalafila, ninguém precisa de um trabuco na mão como metáfora da ereção. Com o devido acompanhamento médico, certamente os remédios são menos perigosos para todo mundo…

Lula lançou hoje um programa de segurança pública. Vocês encontram os detalhes neste “Metrópoles”. Li um editorial enfezado — como sói acontecer quando o atual presidente é o objeto das perorações rancorosas — acusando o governo de ter demorado a perceber a gravidade do tema. É mesmo? Procurei texto igualmente envenenado quando o dito “Mito” pôs fim ao rastreamento de armas de grosso calibre no país. Não encontrei. Ou mesmo diante da explosão do número de “CACs”, que passaram a comprar armas para revender ao narcotráfico e à milícia. Nada também.

Eis que Lula inicia o terceiro mandato e, num átimo, a segurança assume uma urgência alarmante, embora muito pouco se tenha cobrado e se cobre, por exemplo, dos governadores. Nem mesmo se tem o bom senso de apontar que a Polícia Federal que está aí é a mais operosa da história na repressão aos crimes que estão sob a sua alçada de combate. Agora é preciso integrar os esforços com os Estados. Mas notem a dificuldade. “Ah, o governo acordou tarde para isso…” E a imprensa? Acordou cedo?

FALA HISTÓRICA DE BOLSONARO
Em 2020, veio a público uma reunião ministerial liderada por Bolsonaro no dia 22 de abril daquele ano. Estava numa espécie de surto. Aos berros, escoltado por palavrões de vários calões, afirmou, referindo-se a seus adversários, com elegância habitual:

“O que esses filha de uma égua quer (…) é a nossa liberdade. Olha, eu tô… Como é fácil impor uma ditadura no Brasil. Como é fácil! O povo tá dentro de casa. Por isso que eu quero, ministro da Justiça e ministro da Defesa, que o povo se arme! Que é a garantia que não vai ter um filho da puta aparecer pra impor uma ditadura aqui! Que é fácil impor uma ditadura! Facílimo! Um bosta de um prefeito faz um bosta de um decreto, algema, e deixa todo mundo dentro de casa. Se tivesse armado, ia pra rua. E se eu fosse ditador, né?, eu queria desarmar a população, como todos fizeram no passado quando queriam, antes de impor a sua respectiva ditadura… Aí, que é a demonstração nossa, eu peço ao Fernando [Azevedo e Silva] e ao [Sergio] Moro que, por favor, assine essa portaria hoje que eu quero dar um puta de um recado pra esses bosta! Por que que eu tô armando o povo? Porque eu não quero uma ditadura! E não dá pra segurar mais, não é? Não dá pra segurar mais. Quem não aceitar a minha, as minhas bandeiras, Damares: família, Deus, Brasil, armamento, liberdade de expressão, livre mercado… Quem não aceitar isso, está no governo errado. Esperem pra vinte e dois, né? O seu Álvaro Dias. Espere o Alckmin. Espere o Haddad. Ou talvez o Lula, né? E vai ser feliz com eles, pô! No meu governo tá errado! É escancarar a questão do armamento aqui.”

Bolsonaro foi o único governante da nossa história a propor luta armada — sim, no caso, uma luta de caráter fascista.

Geraldo Alckimin, vice-presidente, lembrou a barbárie bolsonarista das armas nesta terça e notou, ex-governador de São Paulo que é, que os mortos por cem mil habitantes em São Paulo caíram de mais de 13 mil para menos de 3 mil em razão da apreensão de armas de fogo. As mortes violentas, diga-se, despencaram nas suas respectivas gestões. E isso é apenas um fato. O que o “lobby” armamentista esconde de você é que a liberação de armas só atende ao narcotráfico e às milícias.

A extrema direta, no entanto, tem o discurso prontinho, que pretende levar para a campanha eleitoral. Flávio, o filho do Jair, defende maioridade penal aos 14 anos e, claro!, fala em encarceramento em massa, como se o país prendesse pouco. Anote aí: o país dispõe de cinco presídios federais de segurança máxima: Lula construiu quatro, e Dilma entregou 80% do quinto, em Brasília, inaugurado por Michel Temer. A fascistada não produz nada na área além de discurso rancoroso e cadáveres.

MINISTÉRIO DA SEGURANÇA PÚBLICA
Sim, o governo federal tem de participar mais ativamente da área. E o país precisa de um Ministério da Segurança Pública para coordenar os esforços. Até porque são muitas as frentes em que atuam hoje as organizações criminosas. Saibam: o tráfico de armas, o de droga, o de madeira, o de minérios, o de combustíveis etc… Cada um tem seu próprio comando. A história de que dois ou três dominam toda a cadeia é uma fantasia. Mas operam em conjunto, dividindo a infraestrutura necessária para suas práticas delinquentes. Essa gente já invadiu o mercado financeiro e o imobiliário para lavar dinheiro. Querem ver como tudo é ainda mais complexo? Acrescentem a esse cadinho explosivo os bilhões que circulam oriundos das emendas parlamentares e do caixa dois de campanhas eleitorais.

A extrema direita não quer combater o crime organizado, mas produzir alguns corpos dos miseráveis de sempre para dar a impressão de que está fazendo alguma coisa. Não tenho de queimar pestanas para achar um emblema que resume a sua postulação, não é mesmo? O “durão” Flávio Bolsonaro condecorou, quando deputado estadual, o miliciano Adriano da Nóbrega. E seu gabinete empregou a mãe e a mulher do bandido na lambança da rachadinha.

Combate ao crime? Os que são da cidade conhecem o mata-burro? São aquelas passagens em estradas com tabuas de madeira, em intervalos regulares, para que equinos e bovinos não ultrapassam a cerca, sem impedir, no entanto, a passagem de veículos, dispensando a porteira. No que respeita à segurança pública, é uma pena não haver um mata-burro para conter os hipócritas e os mentirosos. Uma dica com 100% de acerto: quanto mais histérico é o discurso nessa área, mais comprometido com a violência — e não com a paz — está o seu autor. Essa gente vive no Velho Oeste da indigência moral.

 

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