
Reinaldo AzevedoColunas

Por que penso que crítica de Lula ao STF está errada e é um tiro no pé
Some força à pauta do inimigo, e você nada ganha, mas ele acelera. É “A Arte da Guerra”? Não! Só a 2ª Lei de Newton à luz da política
atualizado
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Discordo da quase totalidade, talvez de tudo, do que disse Lula sobre o Supremo na entrevista concedida ao “ICL Notícias” nesta quarta. Ademais, acho que comete um erro de análise — não sei se sozinho, não sei se acompanhado. Vale dizer: ignoro se a fala foi um arroubo ou fruto de uma estratégia do governo e do PT. A primeira coisa seria menos grave do que a segunda. Vou explicar tudo.
Sim: fiquei ainda mais preocupado, embora considere que o petista ainda é o favorito. Do modo como entendo o jogo, na sua macroestrutura, ou vence a eleição o anúncio de um golpe, por intermédio de Flávio Bolsonaro (PL) — que promete usar a força contra o STF caso este não lhe faça a vontade no caso do indulto —, ou vence a democracia, justamente com Lula. Esse mesmo Flávio disse no tal Cepac que só um resultado é legítimo: a sua vitória. Repete o pai nos dons do pensamento. Espero que não o siga nos transes da ventura em 2018, como escreveu Bocage, sendo, pois, derrotado. Não surpeendo aqui porque o leitor sabe o que penso.
SEM ADIVINHAÇÕES: PESQUISAS
Antes que relembre algumas falas de Lula, cumpre fazer uma outra observação. Eu nunca julgo nem tento adivinhar intenções ou disposições subjetivas. Abstenho-me de me comportar como narrador onisciente de personagens criadas na cabeça do autor. Há as pessoas reais, com seus problemas reais.
Já escrevi e disse muitas vezes que há tempos as pesquisas registram números INJUSTOS com o governo Lula, dada mesmo a etimologia primária da palavra: há um desequilíbrio entre a obra — aquilo que se fez e seus resultados mensuráveis — e a avaliação de parcela considerável do eleitorado. Parte dele não votaria em Lula nem que começasse a distribuir barras de ouro com ambrosia. Mas há, sim, uma grande fatia de beneficiários de escolhas corretas operadas pela gestão que, não obstante, a avalia mal. Isso é objetivo.
Até onde certo inconformismo com os números interfere em eventuais estratégias eleitorais, induzindo ao que penso ser um erro grave? Bem, isso não sei porque não tenho como escrutinar o fundo das consciências. E também não sou do tipo que publica aspas de “interlocutores”…
AS CRÍTICAS
Lula lançou algumas, vamos dizer, divisas sobre os ministros do Supremo que, entendo, devem servir de guia a todos os homens públicos. Vamos ver:
– “Se tem algum membro da Suprema Corte que cometeu um desvio, esse cidadão que pague o preço do desvio. Mas a Suprema Corte não pode pagar o preço”. Os Poderes, nenhum deles, por óbvio deve arcar com os erros de seus integrantes
– “Se o cara quer ficar milionário, não pode ser ministro do Supremo”. Não deve ocupar cargo públicoem lugar nenhum se o objetivo for esse.
– “Quando se vai para a Suprema Corte, tem que fazer um compromisso quase religioso. Ele não está lá para ganhar dinheiro”. Idem.
Até aí, estamos no território do incontestável. Nem a extrema direita fascistoide diria algo diferente: é especialista em exercitar o moralismo como túmulo da moral.
Ao afunilar o seu inconformismo para o Supremo propriamente, as coisas se complicam um tanto, especialmente quando trata da conversa que teria mantido com Alexandre de Moraes. Disse ter aconselhado o ministro a se declarar impedido para julgar o caso Master e acrescentou sobre o contrato do escritório Barci de Moraes com o banco:
“O companheiro Alexandre de Moraes sabe que prejudica a imagem. Você pode ter uma coisa que é legal, mas, nas circunstâncias que acontecem, o povo trata como uma coisa imoral. E, num ano político, em que as pessoas vão dar muito destaque para isso. Vou dizer a vocês o que eu disse para ele: ‘Você construiu uma biografia histórica com o julgamento do 8 de Janeiro; não permita que esse caso do Vorcaro jogue fora sua biografia’”.
Repito aqui o que disse no rádio, na TV e no meu programa neste “Metrópoles”: ainda que Moraes tivesse cometido algum crime — e, digam o que disserem, não há nenhuma evidência a respeito —, não haveria como jogar fora o que fez em favor da democracia brasileira. Lula conhece como poucos — na verdade, dada a sua estatura, como ninguém — o que pode fazer uma urdidura de ilações, vazamentos e evidências construídas pela conveniência. Custaram 580 dias da sua liberdade.
Não é preciso ser um Sherlock para inferir que há uma leitura subjacente a esse comportamento: como a defesa que o STF fez da democracia acabou associada, por força das circunstâncias históricas, a seu governo e porque, afinal, foi o tribunal a desarmar o golpe e a mandar para a cadeia os golpistas que quiseram lhe tomar o mandato — tramando, adicionalmente, o seu assassinato (também o de Moraes e o de Alckmin) —, a proximidade pode parecer incômoda. As atrocidades do Getúlio Vargas do Estado Novo, como prova de sobejo a espetacular biografia escrita por Lira Neto, não mandam para o lixo o seu legado. E não! Não estou a sugerir implicitamente atrocidade nenhuma a Moraes ou a qualquer outro ministro. Não canso de repetir: com um Supremo como o nosso nos EUA, não haveria Trump, e o mundo estaria mais seguro.
A QUESTÃO DO IMPEDIMENTO
Ademais, o ministro a quem aconselhou que se declarasse impedido nem mesmo vai julgar o caso Master porque o dito-cujo se encontra na Segunda Turma, e o magistrado, na Primeira. Ademais, o presidente nem precisa instá-lo a seguir o Inciso I do Artigo 252 do Código de Processo Penal:
“O juiz não poderá exercer jurisdição no processo em que:
I – tiver funcionado seu cônjuge ou parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral até o terceiro grau, inclusive, como defensor ou advogado, órgão do Ministério Público, autoridade policial, auxiliar da justiça ou perito”.
O presidente defendeu ainda:
“Tem que ter na própria Constituição uma definição melhor de quais as exigências que você faz para alguém ser ministro da Suprema Corte. Vai ter mandato? De quanto tempo será esse mandato?”
Eis aí uma pauta que o PT sempre pode abraçar. E o próprio Lula teria colaborado, antes, se tivesse indicado pessoas com mais idade para a Corte. Falo apenas movido pela lógica das suas palavras. Eu, com efeito, acho que isso não tem a menor importância e constitui parte da pauta de retaliação da extrema direita porque, afinal, os golpistas foram mandados para a cadeia.
Lula tem noção, claro!, de qual será — porque já é — a militância dos reacionários nesse caso:
“Todo mundo tem que ter clareza de que a extrema-direita vai utilizar o caso do Banco Master, envolvimento com a Suprema Corte, na campanha. Vão fazer [isso] pedindo voto. ‘Quem quiser cassar a Suprema Corte, vote tal deputado ou tal senador.’ Vai ser assim””
É verdade. Tem razão. Mas já não era a pauta dessa gente antes mesmo de o caso Master engolfar o país? Bolsonaro pediu aos brasileiros que lhe dessem metade da Câmara e metade do Senado, mesmo sem a Presidência, em evento em favor dos golpistas, na Paulista, no dia 25 de junho de 2025. O ódio ao Supremo pré-existe a isso tudo. Ele se deve ao fato de que o “Mito” foi derrotado por um certo Lula na urna e no golpe.
Constitui um erro terrível tentar disputar, de algum modo, com a extrema direita a pauta “enquadrem o Supremo”. Por mais que algumas leituras sugiram que o clima pega-tribunal esbarre, de algum modo, no presidente, o ponto é outro: toda onda de caça à corrupção, real ou suposta, atua contra o “statu quo”. É um dado da equação. Tentar jogar a Corte às cobras não despertará em ninguém algo como: “Olhem aí, Lula não tem nada com isso”. Temo que aconteça até um movimento inverso: “Olhem aí, até ele está falando; agora é tarde”. Não é, pois, apenas injusto. Poder ser também contraproducente.
LULA DEVERIA FICAR LONGE
O governo Lula tem o que mostrar e, entendo, deveria se manter longe de uma pauta que não é a sua. A Polícia Federal segue fazendo o seu trabalho, não? Dada a voragem em curso, em que vazamentos ilegais colocam na mesma cesta pagamentos os mais diversos feitos pelo Master, haja ou não indício de ilegalidade, parece difícil que o presidente obtenha alguma vantagem com a abordagem que fez. É como se Flávio passasse, de repente, a combater a misoginia… Nem o voto da Michelle ele ganhou ainda, não é mesmo?
Avalio que Lula segue sendo o favorito na disputa de 2026. A pancadaria é de tal sorte que estar empatado com Flávio na disputa é sinal mais de resiliência do que de fraqueza, ainda que todos os alertas soem nessas horas e que todos os incômodos conspirem em favor de opções deletérias. Não estou a dar conselhos porque não faço isso com gente mais poderosa ou mais rica do que eu.
Na minha leitura, o caminho virtuoso é outro: é o das obras e o do debate político, inclusive o da soberania. Ainda que houvesse todas as razões do mundo para demonizar o Supremo, e eu não endosso a tese, isso só acrescenta mais uma locomotiva ao trem da extrema direita. É a segunda Lei de Newton aplicada à política. Lembram-se? Bolsonaro fez de tudo para roubar o Bolsa Família do PT. Não conseguiu. Se o partido passasse a defender amanhã a pena de morte, o encarceramento em massa e a maioria penal aos 16 anos, Flávio ficaria inda mais forte. Aplique força à pauta do inimigo, e você nada ganhará, mas ele vai acelerar. Não é “A Arte da Guerra”, de Sun Tzu. É a física.
