Eleição 2026

Persiste sonho do bolsonarismo sem Bolsonaro; Flávio seguirá candidato

Os demais postulantes insistem em abraçar a pauta bolsonarista para, sendo iguais, provar a diferença: tentam a quadratura do círculo

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

caiado-e-a-quadratura-do-circulo
1 de 1 caiado-e-a-quadratura-do-circulo - Foto: null

Ai, ai… A barafunda em que se meteram Flávio e Eduardo reacendeu um velho sonho, de que já tratei em dezenas de textos: o do bolsonarismo sem Bolsonaro. Ontem, Ronaldo Caiado, pré-candidato do PSD à Presidência e ex-governador de Goiás, resolveu, à sua maneira, cobrar uma explicação do senador Flávio Bolsonaro. E o fez nestes termos:

“Ganhar a eleição do Lula, nós ganharemos. Mas o que precisamos saber é quem terá autoridade moral para sentar na cadeira; quem terá independência intelectual para ter metas para o Brasil se desenvolver no mesmo ritmo que hoje os empreendedores conseguem implantar nas suas áreas. É este o desafio do país. Tenho 40 anos de vida pública. Nunca pairou sobre Ronaldo Caiado qualquer dúvida sobre comportamento moral, ético, e nunca me viram envolvido em negociatas ou qualquer tipo de patifaria.”

Sei lá se ainda se faz análise de texto nas escolas. No meu tempo de aluno ou de professor, a primeira pergunta, que nasce na gramática e vai para a história, seria esta: “nós” quem? Suponho que esteja a falar da extrema direita, de que ele faz parte. E parece forçoso concluir que Flávio — aquele que, no caso, seria destituído da tal “autoridade moral”, também a integra. Logo, Caiado está se oferecendo para ser, nos seus próprios termos, o guia moralista dos sem-moral. Faz sentido?

Dispenso-me, porque não é objeto deste texto, de tentar entender quem são esses empreendedores de Caiado, que exerceriam suas atividades no éter e estariam a ser esmagados por esse Estado que lhes arranca a pele. Nessa retórica, inexistem BNDES, Banco do Brasil, CEF e programas de incentivo para determinadas áreas da economia — como o Plano Safra, por exemplo, que ele conhece bem.

A retórica apela à fantasia dos empreendedores contra uma ordem estatal tirânica… Gostaria de ver Caiado engrossando a frente contra as despesas tributárias no país. Haverá Congresso para acabar com elas ou com a esbórnia das emendas, contra a qual ele também não fala? No seu discurso, elimine-se o PT. Prometei me dispensar e não me dispensei… Adiante.

Volto à sua fala. Ele está convicto: “Ganhar a eleição de Lula, nós ganharemos”. Se está a fazer uma predição, sabe que o eleito não será ele. Na mais recente jornada da pesquisa AtlaIntel Bloomberg, Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) até ganharam alguns caraminguás de Flávio, mas ele perdeu. No segundo turno, saiu do empate técnico com Lula em abril para uma derrota agora por 9 pontos (47,5% a 38,5%). Zema também desmilinguiu: antes a uma pequena fração do petista, agora levaria uma traulitada de 47,5% a 36,6% — quase 11 pontos. Ainda que perca por uma diferença de seis, Flávio segue pontuando melhor: 47,8% a 41,8%.

Assim, o “nós” de Caiado compreende necessariamente os candidatos da extrema direita, e o grosso do eleitorado que faria essa vitória — eu achava Lula favorito antes mesmo de o tal Zero Um cair em desgraça — é formado por… bolsonaristas. “Mas e os antipetistas?” São poucos os que não se deixaram, vamos dizer, hegemonizar pelo Capitão e seus rebentos.

Também Zema resolveu ontem tirar de novo uma casquinha de Flávio, o homem que tem muitas explicações e, no fim das contas, não tem nenhuma. Uma pergunta se impõe: “Mas, afinal de contas, o que eles querem?” Respondo: rigorosamente o que queriam os setores reacionários que sonhavam com um bolsonarismo sem um Bolsonaro quando idelizaram a candidatura Tarcísio.

Pretendem que a família abra mão do eleitorado que cevou e o entregue a um extremista de direita com, afinal, “autoridade moral”. Não creio que isso vá acontecer. Com a devida vênia, matei essa charada no dia 7 de julho do ano passado, quando ainda colunista no UOL, no texto O ‘Projeto Tarcísio’ traduz a ambição de ter um bolsonarismo sem Bolsonaro”. Escrevi então:

“(…) Renego de maneira absoluta tudo o que o ex-presidente é e pensa, mas nunca escrevi que é burro — não há idiotas ali onde ele chegou. Deve saber o que realmente ameaça o seu “legado”.
Não quero chocar ninguém, mas o fato é que, havendo um Lula eventualmente vitorioso contra um Bolsonaro qualquer, o clã seguirá liderando a oposição. No caso do triunfo de Tarcísio contra o petista, o capitão será apenas o segundo em Roma. Depois de algum tempo, isso valerá muito menos do que ser o primeiro numa vila”.

Em entrevista ao podcast “Market Makers”, no dia 4 de novembro de 2025, não se falava ainda da opção Flávio, e Eduardo especulava sobre a possibilidade de ele próprio se lançar:

“Quem vai ser o candidato da direita, eu não sei. Mas eu também vejo vitória na derrota. Se, por exemplo, eu conseguir uma candidatura (…), ainda que, de maneira arriscada apostássemos, e eu viesse a perder, nós conseguiríamos ter um êxito: o de manter acesa a chama do conservadorismo, o eleitor de direita. (…) De fato, existe um projeto do establishment, que quer enterrar o Bolsonaro e bolsonarismo para colocar adiante um candidato, né?, que seja pintado de direita”.

Eduardo é expressão de tudo aquilo que o Brasil tem de esconjurar, mas não lhe falta razão prática na análise: parte considerável da elite brasileira e do reacionarismo que se quer ilustrado quer liderar a barbárie que o bolsonarismo alimenta com suas “guerras culturas” para impor a sua agenda econômica, mas considera que não pode ser um deles a liderar o projeto porque, afinal, gera resistências demais e, como diria Caiado, não tem “autoridade moral”…

Quando escrevi aquele texto, há quase um ano já, Tarcísio era tratado pelo colunismo conservador como um presidente virtualmente eleito. Pela primeira vez na história, elegeu-se um pré-presidente. E, no entanto, escrevi que não seria o ungido. Lembro mais um trecho:

“Pela primeira vez no Brasil — se alguém tem memória de fato similar pretérito que me aponte —, convivemos com um pré-presidente. (…) A assunção midiática de Fernando Collor como ‘caçador de marajás’ era uma torrente, não esse eflúvio em que vem Tarcísio de Freitas, como uma determinação irresistível, caída da “árvore dos acontecimentos” (Karl Marx). Ele aparece, convenham, em certos nichos, como uma espécie de resposta fatal para o futuro do Brasil. Ocorre que (…) não está em curso apenas a sucessão presidencial, mas também a eventual troca de comando no território da direita”.

Por que os Bolsonaros fariam isso?

Flávio caiu na pesquisa AtlatIntel, e Caiado e Zema despencaram. Por quê? Ambos tiveram a chance de demonstrar que eram outra coisa. Mas eram? A primeira decisão que cada um tomou foi abraçar a aberração da anistia ou do indulto — na expressão do ex-governador de Goiás: “Meu primeiro ato”.

Deixem-me ver se entendi a lógica: “Primeiro preciso provar que sou um deles para depois demonstrar que sou diferente deles porque tenho autoridade moral. Parte da análise política chegou a pensar a mesma coisa. Como é mesmo aquele troço? “Sonho que se sonha junto é realidade…” Não. Às vezes, é só um delírio compartilhado. Flávio seguirá candidato.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações