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Eleições 2026Reinaldo Azevedo

Para Flávio, acenar com a agenda de Lula é truque para se livrar da Justiça

Se o filho do golpista vencer, investigações contra ele ficam paradas. Urna dirá se abraçará a Beatriz pervertida. E o paradoxo das agendas

24/10/2026 18:28, atualizado 24/10/2026 19:18
Para Flávio, acenar com a agenda de Lula é truque para se livrar da Justiça
Para Flávio, acenar com a agenda de Lula é truque para se livrar da Justiça

Para o senador Flávio Bolsonaro, prometer o céu aos pobres é mais do que mera tática eleitoral: é o que separa o paraíso da impunidade da obrigação de responder por seus atos e por sua vistosa parceria com o advogado Willer Tomaz, que acaba de sofrer um duro revés do Supremo Tribunal Federal. O leitor atento sabe: a urgência das urnas, para certas candidaturas, tem menos a ver com o destino do PIB e dos pobres do que com o destino dos próprios CPFs. Ou a Papuda, ou o Texas. Eduardo Bolsonaro já avisou, num podcast, que, se o irmão perder, foge do Brasil. Vamos ver.

A se levar a sério o que dizem os dois candidatos que disputam este segundo turno da eleição presidencial, o Brasil teria chegado a um consenso progressista, ao menos em parte da agenda. Esqueçam as cartilhas do neoliberalismo ortodoxo e a ladainha do corte de gastos. Tanto o presidente Lula como o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL, prometem, em caso de vitória, manter a política de ganho real para o salário mínimo e a vinculação das aposentadorias ao salário mínimo; preservar, nos termos atuais da Constituição, a vinculação dos pisos de saúde e educação; assegurar a escala de cinco dias de trabalho por dois de descanso; instituir a tarifa zero no transporte público nos fins de semana e não privatizar estatais.

Fosse assim, meus caros, qualquer que seja o vitorioso no domingo, a pauta de Lula sairia vencedora. Um caso raro: Lula ganhará ainda que perca, e Flávio perderá ainda que ganhe. Esses paradoxos podem ter a sua graça na retórica, mas nem sempre na vida. Por que escrevo isso? Porque só um deles, de fato, diz a verdade.

O outro encena uma comédia. Flávio é o Tartufo da hora, o impostor de Molière: a farsa em estado puro, a fanfarronice que veste o manto da virtude — no caso, a virtude social — para enganar os incautos, enquanto suas intenções, na realidade, correm em sentido oposto. É o hipócrita que reza a missa da assistência social, mas pisca para todos os pecados de uma das elites mais concentradoras de renda do mundo, como quem diz: “Acalmem-se! Preciso ganhar a eleição para me livrar da Justiça. Eleito, cuido de vocês em seguida.”

Desfaça-se o paradoxo com a mais clara das congruências: se Lula perder, perdem os pobres; se Flávio ganhar, ganham os ricos. Tem-se um contraste, agora sim, de outra natureza: nessa perspectiva, os ricos ganharão também com os votos dos pobres, e, por óbvio, com os próprios votos.

Como ensinavam os latinos, “verba volant, scripta manent”: as palavras voam, os escritos — e os áudios — permanecem. A verdade costuma escapar pela boca distraída de assessores. Entra em cena Daniella Marques, uma das coordenadoras econômicas da campanha de Flávio.

Em entrevista ao podcast Market Makers, no dia 06 de agosto de 2026, ao lado de Flávio, a ex-presidente da Caixa Econômica Federal e discípula de Paulo Guedes deixou claro que o ajuste fiscal será feito e que vai atingir, sim, os mais vulneráveis. Transcrevo o trecho exato para que não digam que este colunista inventa:
“Você não tem moral como governo para debater ajuste de Previdência, de salário mínimo e tal, se você não for cortar na carne”.

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Ela falou literalmente em debater “ajuste de Previdência, de salário mínimo”. O cardápio dela, de, digamos, malvadezas, prevê passar o bisturi nos direitos dos aposentados, no salário mínimo etc. Vale lembrar que ela falou ali em um mandato de, ao menos, oito anos.

Logo, temos um cenário cristalino: de um lado, Lula, que concorre com o programa genuinamente seu, do qual não tem como, nem quer, fugir; do outro, Flávio, que aderiu de forma oportunista à pauta do adversário no que respeita às questões sociais e às privatizações.

Ocorre que ele não tem como implementá-la, pela simples razão de que os financiadores e apoiadores de sua candidatura — aqueles instalados no topo da pirâmide socioeconômica — pedem exatamente o contrário disso tudo. Exigem a desindexação, o desmonte dos direitos sociais e a entrega das empresas públicas na bacia das almas.

DISCURSO FASCISTIZANTE
Sabendo disso, o senador é sempre muito ligeiro quando fala com o eleitor comum sobre as questões econômicas. O tema lhe queima a língua. Prefere apelar ao discurso inflamado, acionando a engrenagem da agenda fascistizante da segurança pública. É a velha tática de açular os instintos mais primitivos de uma população cansada da violência, para desviar a atenção do que realmente importa.

Chega ao desplante de defender a prisão de crianças de 14 anos, vendendo a ilusão de que a masmorra precoce para os pobres resolverá uma das mazelas da pobreza. Da mesma forma, não se vexa de recorrer à bandeira do embate institucional, deixando claro, em tom de ameaça nada velada, que pretende ter o domínio do STF, com ministros dóceis e subservientes a seus caprichos e aos de sua grei.

O quadro está desenhado: se Lula ganhar, Lula ganha. Na pauta social, se Flávio vencer a eleição, a plataforma do petista também prevalecerá no plano retórico. Acontece que os apoiadores bilionários e milionários do herdeiro do golpista, ora recluso, só estão com ele porque apostam, com a certeza dos iniciados, que o candidato está mentindo para a patuleia. Os ricaços toleram a sua tartufice porque sabem que o impostor, uma vez coroado, entregará as cabeças dos pobres no altar do mercado.

Volto à tese inicial, pois o possível triunfo da farsa nos reconduz inevitavelmente ao rés do chão da crônica policial e jurídica. Prometer o céu aos pobres para se eleger, para Flávio, é a exata diferença entre o paraíso da impunidade e a obrigação de responder por seus atos e por sua parceria com o advogado Willer Tomaz.

FLÁVIO, WILLER E A JUSTIÇA
Na sexta-feira, 23 de outubro, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou o bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens de Tomaz, além da quebra dos sigilos bancário, fiscal e cambial. Também ordenou a suspensão de seu passaporte diplomático — pasmem — e das atividades de todas as suas empresas. Note-se que ele e a família estão fora do país. Tudo isso ocorre no âmbito de uma investigação de lavagem de dinheiro em negócios com bets, que envolve bilhões. A PF descobriu que o senador Flávio Bolsonaro figurava como nada menos que “usuário master” de uma conta bancária pertencente a uma das empresas do advogado.

O filho do golpista corre contra o relógio e contra o Código Penal. Precisa do manto presidencial não para guiar a economia, mas para salvar a si mesmo e aos seus próceres do alcance da Justiça. Presidentes não podem ser investigados criminalmente por atos anteriores ao mandato. Para ele, ser eleito, ainda que prometendo tudo aos pobres — o que não entregará —, é a diferença entre o paraíso da impunidade e a obrigação de responder por seus atos e por sua parceria com o advogado Willer Tomaz.

Saberemos neste domingo se ele vai encontrar a Beatriz pervertida dos desmandos ou se terá de prestar contas à Justiça por suas escolhas. No primeiro caso, Dante lança um desafio: adivinhem quem vai para o Inferno.