
O Tribunal do Ofício Nada Santo de Kássio e Mendonça censura até a imprensa
Ao impedir que campanha de Lula veicule até notícias de que Flávio não gosta, ministros viram coordenadores de campanha do candidato do PL

Os ministros Kássio Nunes Marques e André Mendonça, respectivamente presidente e vice-presidente do TSE e membros do STF, resolveram se comportar como inquisidores do Tribunal do Ofício Nada Santo da Igreja Bolsonarista. Como Tomás de Torquemada (1420-1498), que mandava para a fogueira tudo o que a sua ortodoxia interesseira não tolerava, os dois passaram a tratar a campanha eleitoral de Lula como heresia a ser extirpada e punida. Atenção: ESTÁ EM CURSO UMA FORMA INDIRETA DE CENSURA à imprensa, uma vez que até dados colhidos de reportagens — nada além de fatos, da mais inquestionável objetividade — estão sendo banidos quando reproduzidos pela chapa petista.
E isso se dá, até agora, sob o silêncio cúmplice de muitos “valentões” do colunismo, que se apresentam como defensores incondicionais da liberdade de expressão quando se trata de mensagens nas redes que fazem apologia do golpe ou pregam o rompimento do Estado de direito. Digo de novo: na prática, ambos aplicam uma forma derivada de cerceamento da imprensa e de ataque à livre manifestação do pensamento, violando os artigos 5º (Incisos IV e IX) e 220 (parágrafos 1º e 2º) da Constituição..
Neste domingo, Kássio determinou que o WhatsApp suspenda o canal “Exército do Lula”, administrado pelo deputado André Janones, atendendo a um pedido de Flávio Bolsonaro — decisão depois tornada sem efeito. Segundo o ministro, a estrutura orientava seguidores a reproduzir conteúdos que a Justiça Eleitoral já havia considerado falsos, inclusive sobre as comprovadas relações do senador com Adriano da Nóbrega, um chefão da milícia, morto em 9 de fevereiro de 2020 em confronto com a Polícia Militar da Bahia. Que o miliciano foi homenageado por Flávio é apenas um fato. Em 2005, o então deputado estadual propôs a Medalha Tiradentes ao ex-PM e empregou a mãe e a ex-mulher do criminoso em seu gabinete. Foram pagas com recursos da “rachadinha”. O próprio candidato admitiu a homenagem na sabatina do Jornal Nacional de 28 de agosto e em entrevista ao programa Roda Viva no dia 8 de abril de 2024
A suspensão do canal “Exército de Lula” valia até a homologação do resultado do segundo turno. Há um detalhe que escancara um método: no sábado, o corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, havia dado 72 horas para que os bolsonaristas apresentassem esclarecimentos sobre o pedido feito. O presidente do TSE não quis esperar. Atropelou o prazo fixado por Cueva, a quem cabia conduzir a questão, e cassou uma tribuna de mais de três milhões de seguidores. Parece que Kássio com K, pai de Kevin com K, anda sem paciência com o devido processo legal. Não é a primeira vez. Na sexta, o líder da “Turma do KN” já havia mandado remover publicações de Lula e de aliados, a pedido do adversário do presidente. Cueva derrubou a censura imposta pelo presidente do TSE, restabeleceu o canal e enviou o caso para o pleno.
Mendonça, por seu turno, ordenou que se apagassem do Instagram dois vídeos da campanha petista. Um deles tratava do corte de gastos num eventual governo Flávio. A alegação: o dito-cujo não consta do programa do filho de Bolsonaro. É um escândalo!
Entusiastas renomados do dito Zero Um falam abertamente de um enxugamento de despesas entre R$ 250 bilhões e R$ 300 bilhões. Há pilhas de reportagens a respeito. Como o postulante da extrema direita não explica, afinal, de onde sairia, ou não sairia, esse dinheiro, o ministro passa a atuar, então, como um coordenador de campanha que livra seu orientando de explicações difíceis. O silêncio da imprensa — que, pois, também está sendo censurada, ainda que indiretamente — grita.
Pergunta óbvia de resposta idem: este misto de deusa Têmis, da Justiça, com o rei Salomão se ocupou de ler o programa de Lula para confrontá-lo com as peças publicitárias do PL?
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesQuerem mais? O ministro determinou a retirada do vídeo com o bordão “Se Flávio vence, você perde”. O incansável Kássio baniu propaganda eleitoral que relacionava o “Flávio do Dark Horse” a Daniel Vorcaro e ao caso Master. Também está proibido lembrar que o candidato do PL é, oficialmente, um investigado. Esses dois notáveis magistrados não veem nada demais em que o filho daquele que os indicou para o Supremo saia por aí a decretar “o fim da era PT”. Como se percebe, reproduzir notícias veiculadas pela imprensa constitui, para ambos, um possível crime eleitoral. Pregar o extermínio do adversário lhes parece coisa normal.
E olhem que o herdeiro político do golpista Jair Bolsonaro ainda não venceu a eleição. Imaginem a circunstância em que essa gente teria a Presidência e o domínio da Câmara, do Senado e do Supremo…
OS HIPÓCRITAS E O LÊNIN FALSIFICADO
Os apoiadores de Jair acusavam Alexandre de Moraes de censurar sua campanha em 2022. As decisões do ministro, não custa lembrar, miravam especialmente desinformação sobre o sistema eleitoral, jamais notícias veiculadas pela própria imprensa. Olavo de Carvalho, que serviu de guru do bolsonarismo, atribuía a Lênin a seguinte frase: “Acuse-os do que você faz, chame-os do que você é”. É o terraplanismo das citações. Lênin nunca escreveu essa porcaria. A partir desta campanha, os bolsonaristas, incluindo os dois ministros, podem adotar o lema como seu.
A letargia da imprensa diante da censura impressiona. Não se conhece ainda o vencedor da disputa eleitoral, e parece que já estamos às portas de uma concepção de poder com laivos de Andrei Jdanov, o comissário de Stálin que ditava os rumos do pensamento; de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda de Hitler, mestre da mentira repetida até virar verdade; e do já citado Torquemada, o inquisidor-geral da Espanha que fez do fanatismo religioso uma política de Estado.
Que admirável mundo velho se pode vislumbrar, a depender do que aconteça nas urnas! A divergência seria sufocada pela manipulação dos que dominam a máquina do Estado, com tudo pautado pela farsa convincente e temperado pela teologia da morte a serviço do poder.
Há, sem dúvida, os que defendem abertamente esse modelo. E, ainda assim, não conseguem ser tão abjetos como aqueles que, sem coragem de enfrentar a máquina bolsonarista, mas posando de seus críticos, preferem voltar o dedo acusador contra o próprio Lula: seria o responsável pelo eventual desastre. Eles próprios, os que se calaram ou foram coniventes com o golpismo, bem… são inocentes como as flores. Há dois tipos morais que estão sempre de braços dados com os algozes: os traidores e os covardes.
Já é um clichê, eu sei, mas obrigatório. Valem as palavras do pastor Niemöller sobre o nazismo:
Primeiro vieram buscar os comunistas.
E eu não me manifestei
Porque eu não era comunista.
Depois vieram buscar os socialistas.
E eu não me manifestei
Porque eu não era socialista.
Depois vieram buscar os sindicalistas.
E eu não me manifestei
Porque eu não era sindicalista.
Depois vieram buscar os judeus.
E eu não me manifestei
Porque eu não era judeu
Depois vieram me buscar.
E já não havia ninguém
Para se manifestar por mim
Tendo lutado na Primeira Guerra e sendo um nacionalista conservador, Niemöller chegou a simpatizar com o movimento nazista nos seus primórdios. Ao se dar conta do que estava em curso, passou a se opor ferrenhamente àquela bestialidade. Foi preso em 1937 e só saiu em 1945. Foi condenado a uma pena leve, mas Hitler não aceitou o veredito. Considerava-o seu prisioneiro pessoal. Tiranias não têm por que respeitar nem seu próprio aparato legal!
Que coisa! Um “nacionalista conservador” teve a coragem de fazer o que era certo. Hoje, alguns que até pagam de progressistas para agitar a “galera” dizem que política é suja, qualquer que seja o lado. Trata-se de uma “gente limpinha” que flertaria com campo de concentração em nome da sua “independência e isenção”.
Querem saber como seria a face jurídica de um eventual governo Flávio? A fusão de Kássio com Mendonça até dá uma pista. Mas estejam certos: pode ser muito pior.
