
Reinaldo AzevedoColunas

Lula-Trump: orgia semiótica do tapete vermelho. E Barão de Münchhausen
“A nossa bandeira jamais será vermelha”. Mas a vereda sobre a qual o petista adentrou a Casa Branca irradiava apelos escarlates
atualizado
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Depois do encontro de Lula com Trump, os bolsonaristas, tadinhos, ficaram como a personagem Estácio ao fim do subestimado romance “Helena”, de Machado de Assis, ainda da fase dita pré-realista. Diante da morte de sua amada, justamente a Helena do título, que ele imaginava ser sua irmã — mas isso se descobre tarde demais —, diz, desolado, ao sacerdote Melchior: “Perdi tudo, padre mestre!” Ela viva, torturava-o a possibilidade do incesto. Quando, finalmente, o amor se viu livre dessa amarra, já não havia mais a seiva vital. Machado, mesmo pré-Machado, era um grande texto. Adiante.
Não sei se os reaças fascistoides — essa é sua natureza, como eles próprios confessam — já perderam a eleição. Penso que Lula ainda é o favorito, mas acompanhemos o andar das carruagens do tempo em que as havia — como em “Helena”, por exemplo. Mas é fato que, mais uma vez, as apostas num confronto entre os presidentes do Brasil e dos EUA deram com as parelhas de burro n’água.
O Homem Laranja estendeu o tapete vermelho àquele que a fascistada por aqui chama “Nove Dedos”, numa verdadeira orgia semiótica, em que o rubro alude à cor da nobreza, com apelo até religioso, mas também aos republicanos e ao PT. “A nossa bandeira jamais será vermelha”. Mas a vereda sobre a qual o petista adentrou a Casa Branca, em companhia de um Trump encalacrado — mais ele precisa da reputação internacional do homem de Garanhuns do que o contrário —, irradiava apelos escarlates.
Deu tudo certo. Não houve sessão de “bullying” no Salão Oval. O golpista norte-americano, ora em desgraça e a caminho de ser o presidente mais impopular da tal “América”, exaltou o dinamismo do seu, em linguagem diplomática, “homólogo brasileiro”, que concedeu uma entrevista nas nuvens.
“Ah, diga-me aí o resultado prático do encontro, Reinaldo”. Até agora, nada que possa ser posto numa tabela de contabilidade. Mas uma coisa é certa: o homem que comanda, mais ou menos, a Casa Branca está disposto a se entender com Lula. E o que restou ao bolsonarismo radical — como se houvesse algum outro…? Nota: a chance de alguma moderação por aqui no campo reacionário, Ciro Nogueira, tinha acabado de receber uma visita da Polícia Federal, com autorização de André Mendonça…
Volto à pergunta: o que restou ao bolsonarismo amalucado — alguém conhece a versão benigna? Bem, quem deu a senha foi Paulo Figueiredo, o “estrategista” de Eduardo Bolsonaro. Num vídeo que chega a ser cômico, tal a patetice conspiratória — alegou ter recebido a informação de “fontes anônimas” (sempre elas!) —, sustentando que Lula teria oferecido a Trump a exploração das nossas terras raras como compensação para que os EUA não considerassem terroristas as facções criminosas no Brasil.
Segundo se entende, Figueiredo e sua turma acham que Trump é de tal sorte bucaneiro, em sentido literal e metafórico, que seria capaz de condescender com o “terrorismo” por aqui só para fazer um bom negócio com as nossas riquezas. Nem a extrema esquerda mais alucinada faz um juízo tão depreciativo desse tal imperialismo…
Lula ganhou mais essa de lavada na relação com Trump.
A “reacionária” — leiam como um substantivo — ficou nessa história como o Barão de Münchhausen, desafiando a física e erguendo a si mesmo pelos cabelos para tentar sair do pântano. Ou, então, optando por tirar a própria cabeça e colocá-la debaixo do braço até descobrir o que dizer. Como é mesmo, Machadão? “Padre mestre, perdi Tudo”!
