
Haddad X Tarcísio: 1º debate de 2030 se Lula vencer Flávio em outubro
Embate em São Paulo foi civilizado e sem agressões; fosse ensaio para o futuro, seria positivo; por que candidato do PT bateu o governador

Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo e candidato à reeleição, e Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda e postulante do PT ao Bandeirantes, enfrentaram-se ontem à noite no debate da Band.
Pode ter ocorrido, com quatro anos de antecedência, o primeiro embate da disputa presidencial de 2030. Anoto de cara: Haddad, do ponto de vista técnico, foi superior a Tarcísio. É preciso saber o que significa “vencer” em certames assim. Chegarei lá. De volta para o futuro.
O FUTURO
É fato que, no Brasil, até o passado é incerto e, com alguma frequência, inesperado. O que não dizer, então, sobre o que vai acontecer daqui a quatro anos? Mesmo com a inconstância de tudo, algumas coisas restam irrefutáveis:
– Lula terá de passar o bastão eleitoral para outro postulante, ainda que permaneça como a referência da legenda;
– Tarcísio é o quadro dos sonhos da direita. Falou ontem um tecnocratês castiço, sem ambição de ser compreendido às vezes, mas semelhando profundidade. Tudo temperado por exercícios mnemônicos, de vocação relatorial, para simular expertise.
Agora notem que curioso: O ex-ministro da Fazenda pode ser a opção do bloco progressista em 2030 ganhe Lula ou não. Com a vitória, entendo que seria mais fácil. Não vou entrar em minudências agora; voltarei ao tema em outros artigos. Mas e Tarcísio? Ele só disputará a Presidência em 2030 se, agora, o seu campo for derrotado. Se Flávio vencer a disputa, é claro que tentará um segundo mandato — na hipótese otimista de que viéssemos a ter eleições regulares, é claro!
Se Flávio perder, os Bolsonaros continuarão a ser donos de fatia importante da opinião — antes, ao menos, de migarem todos para o Texas, acusando “perseguição”… Mas me parece evidente que conservadores e reacionários vão procurar amarrar o burro em outro lugar.
E poucos parecem tão talhados para embalar as esperanças desses setores como Tarcísio. Em alguns momentos, ontem, o confronto resvalou na questão nacional — menos do que dizem por aí, parece-me. Mas lá estava “o nosso [deles] homem” a falar em corte de gastos (sem dizer onde cortar; é fã de Milei; presume-se…); a anunciar o desastre econômico; a apontar o atraso. Por alguma razão que a razão não explica, a extrema direita se acha “moderna”…
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Ocorre que, para Tarcísio ser o candidato em 2030, Lula tem de vencer agora. Não são poucos os conservadores com algo entre as orelhas além de vento, distantes do trogloditismo, que veem na vitória do petista o melhor cenário porque a política se deslocaria necessariamente para a direita depois (REFIRO-ME AO MOVIMENTO): não haverá um novo “Bolsonaro” viável daqui a quatro anos — e, pois, Tarcísio se fortaleceria como a alternativa “dazelite”.
Haddad é um dos nomes que despontam no campo progressista, mesmo que perca a eleição em São Paulo — e, obviamente, está longe de ser um extremista de esquerda, o que Lula também nunca foi. Para muita gente, as coisas voltariam a se resolver “pelo centro”. E se der Flávio? Há o risco evidente, que não se corre com o atual presidente, de crise institucional.
Curioso, né? O triunfo do petista, segundo o embate que aqui se prefigura lá adiante, seria útil para Haddad e Tarcísio. Se Flávio triunfa, o ex-ministro da Fazenda seguirá uma alternativa, mas me parece que o diapasão do PT pode ter de vibrar mais à esquerda para enfrentar eventual aluvião reacionário. E, nesse caso, o governador terá de se contentar com outra coisa.
No escondidinho da urna, acho que Tarcísio vai votar em Lula. Não porque seja progressista, mas porque é ambicioso. Por si, não é uma mácula moral.
LOBO, CORDEIRO, IMPRENSA E ESOPO
Quem venceu o debate? Essa pergunta quase sempre está errada. Explico por quê. Daqui a pouco o noticiário é inundado por esses entes que fazem medições das redes para dar seus percentuais. Vale dizer: a mobilização dá o veredito. Tarcísio está bem na frente nas pesquisas. Ainda que se faça um levantamento realmente técnico sobre a opinião dos espectadores, é muito difícil o eleitor de “X” dizer que “Y” se deu melhor. E vice-versa.
Andei vendo algumas agências de checagem sobre as declarações dadas… Também elas tomaram a droga da “antipolarização” e, assim, acabam fazendo um trabalho… “polarizado”, distribuindo igualmente as chancelas de “FALSO”, “VERDADEIRO” ou “EM TERMOS” — e vocábulos similares. Nestes tempos, a reputação do carneiro correria um risco imenso porque “não podemos ser parciais contra o lobo…”
O lobo devora o cordeiro, e esses setores do nem-nem devoram Esopo…
QUEM FOI TECNICAMENTE SUPERIOR?
Haddad foi tecnicamente superior a Tarcísio na maior parte do tempo. Conseguiu contornar com humor e alguma ironia a prática do governador que consiste em se dedicar a exercícios mnemônicos sobre minudências geográficas, contratuais, técnicas. Trata-se de um modo de driblar questões espinhosas. Não é uma tática nova em São Paulo para quem se lembra de Maluf.
Tarcísio não conseguiu refutar as evidências apresentadas por Haddad:
– de que o governo Lula não discrimina São Paulo nos investimentos;
– de que o governo de São Paulo conduziu mal a negociação sobre a dívida do Estado, embora o assunto tenha se perdido em detalhes que escaparam à maioria;
– de que as privatizações da Sabesp e, para ser genérico, “dos trilhos” são, para dizer pouco, problemáticas. Não respondeu, por exemplo, à evidência de que a empresa de saneamento foi privatizada por uma valor inferior ao de suas ações em Bolsa.
Ocupou-se demais com a performance de aluno que “tem tudo decorado na ponta da língua” e acabou dando ao adversário uma fala mais articulada.
CIVILIDADE
Comecei este texto falando sobre um futuro mais distante. Se o embate de ontem para o governo de São Paulo for uma métrica do que se pode ver em 2030, então podemos ter alguma esperança.
O confronto foi duro, sim, mas foi civilizado, sem ataques pessoais. O atual governador de São Paulo defendeu Jair Bolsonaro, disse ter orgulho de ser seu afiliado, expressou gratidão etc., mas não se comportou como um mero esbirro do capitão. Ajoelhou-se um pouco no milho, mas o fez rapidamente.
Era evidente que Haddad estava muito mais à vontade para defender a herança do governo Lula — até porque foi seu ministro até outro dia — do que seu adversário em se dizer um quadro do bolsonarismo. O petista foi superior tecnicamente.



