Flávio tira a máscara na carta golpista e revela os isentões sem disfarce
O falso centrismo, em muitos aspectos, é mais pervertido do que o reacionarismo porque prefere a máscara à realidade

Como este mundo pode ser divertido! O colunismo isentão, equilibrista entre a democracia e o afascistamento, levou Flávio Bolsonaro a cometer o mais grotesco dos erros: dizer quem realmente é.
Uma nota: esse falso centrismo me enoja mais do que o reaça que baba até a última gota de ódio. Este é, afinal, mais identificável do que um piruá numa vistosa tigela de pipocas. O ambíguo e anfíbio não. Encarna o papel de um prudente impostor. Não é bom o bastante para o Céu nem mau o bastante para brilhar no Inferno. Dante reservou a esse tipo um castigo terrível no “Vestíbulo”. Procurem. Mas volto.
O valentão que foge sentiu-se acolhido pela turma do nem-nem e escreveu uma carta golpista. Quem o conduziu ao Inferno foram esses bacanas… Vá lá: tiveram utilidade uma vez na vida ao menos. Vamos ver.
Alexandre de Moraes fez a coisa certa ao atender ao pedido da Polícia Federal e mandar recolher os passaportes do candidato derrotado à Presidência. Mas logo apareceram os “isentistas” — aqueles sempre no meio do caminho entre a corda e o pescoço — para dizer que, de novo, o ministro havia exagerado. Sempre escarneço de formulações que começam assim: “Especialistas se dividem…”. Bem, os experts muitas vezes não se entenderam nem sobre as virtudes ou os malefícios do ovo… Adiante.
O tal Zero Um animou-se. Sentiu que, quem sabe?, teria uma vez mais setores da imprensa a seu lado e então assumiria a condição de vítima do Xandão. Vocês sabem: é aquele cuja cabeça André Mendonça tentou cortar com ilegalidades flagrantes, pautando o primeiro turno das eleições e tornando-se o grande fornecedor de manchetes para uma imprensa involuntariamente — ou nem tanto — bolsonarizada, quando não afascistada.
Quase o Lobo Mau passou por Chapeuzinho — “e o nosso chapeuzinho jamais será vermelho!”… Aprendi em alguns editoriais muito doutos que o petista até poderia ser melhor em democracia e programas sociais, mas o senador do PL zelaria mais pelo rigor fiscal, ainda que tivesse alguns defeitos… Ninguém teve a delicadeza de mencionar que, entre eles, contavam-se a tentativa de soltar sediciosos e a de encarcerar adolescentes de 14 anos. Se 1964 se desse em 2026, não tenham dúvida: boa parte desses valentes moralistas estaria de novo do lado errado da história…
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesMas o que faria de tal gênio um disciplinado fiscal? Vai ver ele confidenciou isso apenas a devotados exegetas. E estes nunca explicaram por quê. Talvez ele tenha feito promessas clandestinas aos finórios no escurinho do cinema, enquanto chupavam dropes de anis. O motivo não está no programa, não está nas entrevistas, não está nos debates.
Flávio resolveu roubar do pai o papel de mártir do terrível magistrado e pôs em prática um plano de fuga que arquitetara havia tempos para o caso de derrota. De novo, os adoradores da Seita do Santo Mendonça dos Últimos Dias preparavam-se para pedir a cabeça vocês sabem de quem… Pelo visto, até gente do governo andou falando porcaria — deve ser aquela parte do PT que quase perdeu a eleição por medo de enfrentar quem tem de ser enfrentado, o que inclui o “consenso” do colunismo-pesquisismo picareta…
Ocorre que um Bolsonaro sempre será um Bolsonaro. Sentindo-se seguro em Miami — e Pateta que se cuide porque pode perder o emprego —, o derrotado houve por bem dizer o que realmente pensa. E redigiu um manifesto em que não reconhece o resultado das eleições. Não conseguiu nem sequer a adesão dos pares que ficaram por aqui, enquanto ele se mandava em grande estilo para os EUA, onde, em companhia do irmão, terá vida de milionário.
Os que ensaiavam o coro contra Moraes ficaram boquiabertos. Se a fuga já parecia coisa de covarde, a carta foi além do limite do tolerável. Estava tudo errado ali, a começar pelo brasão. Fugiu porque sabe o que fez no verão passado e tem ciência de que seus folguedos com o tal Willer Tomaz começaram a vir a público. A eventual vitória era seu passaporte para a impunidade. Sem ela, intui que a Papuda o aguarda.
Então resolveu escrever aquele troço. E aí os isentões o abandonaram. Nas linhas que escreveu, ele se mostrava inteiro. Justamente quando decidiu envergar as vestes de perseguido e herói, caiu do cavalo (ops!). Só ali, para recorrer a uma passagem célebre de Karl Marx em “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”, é que “se tornou a vítima da sua própria concepção do mundo: o bufão sério que já não toma a história universal por uma comédia, mas a própria comédia pela história universal”.
Suponho que até os governistas porventura contrariados com Moraes tenham percebido que, ao cumprir sua obrigação, o ministro fez surgir o fascistoide que se escondia na fantasia do moderado. E notem: o ministro não lhe forneceu o roteiro. O próprio Flávio assumiu a personagem que realmente lhe cabia na história.
Há coisas que só um Bolsonaro legítimo pode fazer por si mesmo. E até por nós…
Ao tentar posar de herói trágico com o aval da patota do “nem-nem”, o Bonaparte de poltrona acabou tragado pela própria pantomima e desmascarou, de quebra, os seus avalistas de plantão. A patota do nem-nem, que ensaiava niná-lo para manter o charme da neutralidade anfíbia, agora finge olhar para o outro lado, espantada com o cheiro de enxofre do golpismo.
No fim das contas, a peça encerra-se com cada personagem no seu devido lugar: o bufão isolado em sua farsa, e os covardes do meio do caminho, despachados, sem direito a recurso, diretamente para o Vestíbulo…

