Reinaldo Azevedo - Colunista

Flávio liga Lula e Dino ao crime. Falso. Listo sua obra e a de seu pai

Os Diógenes de araque de hoje em dia ainda tentam, com sua lamparina apagada, enxergar no pré-candidato do PL o “bolsonarista moderado”?

atualizado

metropoles.com

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Vocês sabem que alguns analistas procuraram o “bolsonarismo moderado” com dedicação sincera, não é? Nem eram assim um Diógenes, o de Sínope (morreu por volta de 323 a.C; faz um tempinho),  que acendia a sua lamparina à luz do dia pelas ruas de Atenas em busca de um homem virtuoso. O filósofo cínico — na ilustração, pintura de Jean-Léon Gérôme (1860) — dava por certo que não o encontraria, mas a turma do “bolsonarismo moderado” não desiste… Seria Flávio? O maluquete das antigas, quando se chateava (ou não, sei lá), era dado a exercer em público o chamado “hábito solitário”. Faço votos de melhor sorte aos “filósofos” do reacionarismo afascistado de centro…

Flávio ainda tenta se equilibrar depois dos corcovos do “dark horse”. Aquele que chegou a ser vendido pela própria mulher, Fernanda, como o símbolo da moderação na família — ele próprio até se disse um “Bolsonaro vacinado” —, voltou para o território seguro do extremismo. É ali que essa dinastia de bravos se multiplica e prospera. A espetacular mansão em que mora o senador prova a máxima de que, todo dia, um esperto e um otário saem de casa, se encontram e fazem negócio.

Nesta segunda, Flávio participou de um evento, em São Paulo, do tal Grupo Voto, iniciativa de uma empresária voltada à conscientização das elites. Ora, se o negócio é produzir luzes, não se vai chamar Diógenes, não é mesmo?

Então o pré-candidato do PL à Presidência foi lá. Deitou falação em defesa da decisão tomada pelos EUA de classificar PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas — o que ameaça empresas e mercados no Brasil e expõe o país até a ações de sabotagem da CIA. Mas achou que era pouco. Afirmou o seguinte aos presentes, segundo informa o Globo:

“Aí você olha para o presidente do Brasil, e ele pensa o contrário. Parece que ele é o chefe do PCC. O ministro da Justiça do Lula, chamado Flávio Dino [hoje no STF], entra numa favela no Rio, chamada Complexo da Maré, violentíssima, o berço do Comando Vermelho, ele entra sem policial, sem escolta. E ali você entra debaixo de muito tiro, dentro de um carro blindado, que é como a polícia faz, ou você tem autorização do tráfico para entrar. O que vocês acham que aconteceu ali? Quando o próprio Lula vai fazer campanha dentro de uma outra favela no Rio, chamada Complexo do Alemão, outra área dominada pelo Comando Vermelho, ele está ali também, dispensou os policiais. Por que as cadeias ficaram em festa em 2022, quando o Lula foi declarado presidente da República?”

As duas coisas são mentirosas. Nem Lula nem Dino entraram nas respectivas comunidades sem segurança. Que coisa! É o “Flávio moderado”? Daqui a pouco aparecem um colunista ou outro, reivindicando a sua origem no progressismo, a dizer que o pobre Zero Um só afirma essas coisas por culpa da esquerda identitária, que tentaria tirá-lo do debate. Outro dia, um desses sustentou que a esquerda tenta impedir a direita de fazer política… Juro que aconteceu.

Olhem a conformação do Congresso; olhem os perfis dos governadores; olhem a composição das Câmaras de Vereadores e Assembleias Legislativas… Coitadinha da direita! É muito duro ser assim discriminada, não é mesmo? As pessoas têm direito às próprias opiniões, mas não aos próprios fatos.

Esse é Flávio, o verdadeiro, aquele que, numa entrevista à Folha no dia 14 de junho do ano passado, ameaçou o Supremo com o uso da força caso um deles vença a eleição — ainda não era pré-candidato —, e o tribunal decida que anistia ou indulto para golpistas são inconstitucionais. E são, é bom que fique claro. Assim como, noto à margem, a maioridade penal aos 16, que fere cláusula pétrea da Constituição.

De resto, fala o rapaz que condecorou o miliciano Adriano da Nóbrega já na cadeia. Empregou depois a mulher e a mãe do bandido em seu gabinete, e ambas foram pagas pela rachadinha administrada por Fabrício Queiroz. O mais alto a que chegou o Comando Vermelho na hierarquia do poder no Rio se deu, segundo apontam as investigações, por intermédio de Rodrigo Bacellar (União Brasil), então presidente da Assembleia Legislativa e chapa de Flávio. Que a família tivesse afinidades eletivas com as milícias — o próprio Jair, quando deputado federal, pediu que um grupo de extermínio migrasse da Bahia para o Rio —, bem, isso é coisa que se dava como corriqueira. O troço do Comando Vermelho é novidade…

As organizações criminosas têm razões para ser gratas a Jair, e com Sérgio Moro como ministro da Justiça em parte da trajetória. Só no ano de 2019, foram oito decretos facilitando a posse de armas, inclusive as pesadas. Depois mais quatro em 2021 dois em 2022. Moro só deixou o Ministério da Justiça e Segurança Pública no dia 24 de abril de 2020 e assistiu a tudo inerme…

Ainda houve a Portaria nº 62, de 17 de abril de 2020, emitida pelo Comando Logístico do Exército, por ordem expressa do então presidente, que pôs fim ao rastreamento de armas pesadas. PCC, Comando Vermelho e milícias deram salvas em homenagem ao “Mito” — com armas pesadas, claro!

Mais um pouco? Os ditos CACs (Colecionadores, Atiradores Desportivos e Caçadores) eram 117.467 em 2018 e saltaram 783.385 ao fim de 2022. Uma penca deles comprou armas, comprovadamente, para fornecer ao crime organizado. Mas Flávio, o “Moderado”, tem ideias sobre segurança pública, não? Defender que as organizações criminosas que os decretos de seu pai ajudaram a armar são terroristas; prender crianças de 14 anos e inferir que, bem…, nas favelas, só se sobe com blindado, atirando e enfileirando corpos. São apenas vapores da droga. Carne preta e barata. Quando os que realmente mandam no tráfico quiseram encontrar um parceiro, foram buscar um aliado de Flávio na Assembleia Legislativa, segundo aponta a Polícia.

Consta que Alexandre Magno cruzou com Diógenes e, achando-o muito inteligente e tal, aproximou-se e lhe ofereceu o que quisesse. Como o homem mais poderoso da Terra estivesse a fazer sombra, respondeu: “Não me tire o que não pode me dar: a luz do Sol”. Não deve ter acontecido assim, mas a história é boa. Há mais uma: o fortão macedônio, encantado com as diabruras mentais do interlocutor, teria dito certa feita: “Se eu não fosse Alexandre, gostaria de ser Diógenes”. E ouviu: “Eu também; se não fosse Diógenes, gostaria de ser Diógenes”.

Era implacável. Nestes tempos em que a extrema direita vive a pedir cabeças, lá vamos nós de novo com o cínico que morava numa espécie de vaso de argila, não numa barrica. A passagem foi citada por Padre Vieira em um de seus sermões:

“Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: ‘Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos! Ditosa Grécia, que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas. Quantas vezes se viu em Roma ir a enforcar um ladrão por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul ou ditador por ter roubado uma província! E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes?”

Ao jornalismo, cabe oferecer a luz do Sol.

 

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