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Reinaldo Azevedo

Flávio, Judas, Joaquim Silvério e a força surda dos vermes. E neutros

Candidato do PL faz barbaridades, mas gosta de ser “mimizento”. Então apelemos um pouco à Bíblia e à literatura. Para o bem de todos

29/07/2026 11:01
Flávio, Judas, Joaquim Silvério e a força surda dos vermes. E neutros
Flávio, Judas, Joaquim Silvério e a força surda dos vermes. E neutros

DEFESA DE FLÁVIO É TRONCHA
A defesa de Flávio Bolsonaro sustenta que ele apenas exercia a liberdade de expressão quando afirmou, em janeiro, que Lula reuniu alguns ministros para tratar do sequestro de Maduro porque tinha medo. Transcrevo o mimo: “Lula será delatado. É o fim do Foro de São Paulo: tráfico internacional de drogas e armas, lavagem de dinheiro, suporte a terroristas e ditaduras, eleições fraudadas”. O presidente, por sua vez, tem dito que quem tricota com Trump contra os interesses do Brasil é traidor da pátria e que, no passado, tipos assim foram enforcados. Não custa lembrar que Joaquim Silvério dos Reis — que, de resto, era português — enforcado não foi. Viveu à tripa-forra em Portugal com a grana que ganhou em razão da traição aos inconfidentes. Voltemos. Flávio disse se sentir ameaçado. Não há pena de morte no Brasil, a não ser aquela que se decreta, por exemplo, nos complexos do Alemão e da Penha, com as quais ele concorda. De resto, Flávio, fique tranquilo: você está mais para Joaquim Silvério, que recebeu a bolada por trair o Brasil, do que para Tiradentes — este, sim, enforcado, esquartejado e salgado…
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“ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA”
Foi para traidores que Cecília Meireles escreveu esta estrofe em “Romanceiro da Inconfidência”:

“Melhor negócio que Judas
fazes tu, Joaquim Silvério!
Pois ele encontra remorso,
coisa que não te acomete.
Ele topa uma figueira,
tu calmamente envelheces,
orgulhoso e impenitente,
com teus sombrios mistérios.
(Pelos caminhos do mundo,
nenhum destino se perde:
há os grandes sonhos dos homens,
e a surda força dos vermes.)”
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BÍBLIA DO OPORTUNISMO
Para quem não entendeu, embora se fale muito da Bíblia hoje em dia, mas sem a leitura. Judas “topou a figueira”, no poema de Cecília, refere-se ao fato de ele ter se enforcado depois da traição. Está em “Mateus” e “Atos dos Apóstolos”. Já os Silvérios se aproveitam do fruto de suas traições. Nos dois casos, cita-se “o campo de sangue”, terreno comprado pelo traidor com as 30 moedas. Em Mateus, há apenas a tradução da palavra “Haceldama” (aramaico), que aparece nos “Atos”. Vai aqui mais uma: esse é o nome do mais belo poema do maior poeta brasileiro do século passado: o piauiense Mário Faustino. Era tio-avô do senador Ciro Nogueira (PP-PI), que ainda vai aparecer nesta coluna. E que nada tem a ver com a poesia.
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UM POUCO DO “HACELDAMA” DE FAUSTINO?
Lá vai:

“Porque só por um beijo em seu rosto sem manchas/
Fiz de um saco de prata meu campo de sangue./
Meu desespero é brejo onde os restos borbulham
Do prodígio que fui de penumbra e silêncio”.

Quem escreve isso merece viver para sempre.  Faustino morreu aos 32 anos, em 1962, num acidente aéreo. “Morre cedo o que os deuses amam”, escreveu o poeta. Adiante.
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A NOTÍCIA E A MORDIDA
Talvez alguns leitores conheçam a máxima. Para distinguir o que era do que não era notícia, costumava-se repetir, nas priscas eras — quando havia memória para eras priscas — uma frase de autoria incerta: “Notícia é quando o homem morde o cachorro” — na suposição, por óbvio, de que o contrário é corriqueiro nessa relação. Por que isso? Leio com algum estardalhaço que André Mendonça autorizou a Polícia Federal a utilizar cooperação jurídica internacional na investigação sobre o Banco Master, com parecer favorável na PGR. Por que não autorizaria? Trata-se de um instrumento da “Mutual Legal Assistance Treaty (MLAT)”, parte de acordos firmados pelo Brasil. A fantasia de que há leniência com o crime serve apenas à delinquência política e ao discurso eleitoreiro.
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E QUANDO VAI SER NOTÍCIA?
Notícia mesmo haverá quando a dupla que recebeu a maior soma de recursos do Banco Master — que o agora candidato do PL resolveu citar na sua intervenção no USTR como exemplo de corrupção no Brasil — for submetida aos mesmos expedientes que colheram os senadores Ciro Nogueira e Jaques Wagner (PT-BA), por exemplo. Nunca atuo aqui nem em lugar nenhum como juiz de condenação antes da devida investigação. Apure-se. Mas a dupla à qual se destinou a maior soma de recursos — R$ 62 milhões — atende pelos nomes de Flávio e Eduardo Bolsonaro. Um pediu a grana, e o outro é um dos gestores do fundo que recebeu os recursos e, em tese, os repassou para a enrolada Karina da Gama, a empresária que movimenta valores multimilionários em áreas as mais diversas, mas pediu uma casa a Ricardo Nunes, por um programa destinado a carentes, no bairro mais pobre de São Paulo.

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A NEUTRALIDADE DOS PARTIDOS E O EMENDISMO
Por enquanto ao menos, permanecerão neutros nas eleições — sem aderir a nenhum dos candidatos em alianças formais — PP, União Brasil, MDB, Podemos e Republicanos. Não duvidem de que, não estando com Flávio, este escriba já pensa ser um mal menor essa neutralidade. Católicos gostam dessas coisas, e há vasta literatura específica a respeito. Mas isso não quer dizer que também não se esteja diante de um mal — ou o “menor” nem faria sentido, certo? Somadas, essas legendas têm 205 deputados (40% da Câmara) e 31 senadores (38% da Casa). O que explica? As emendas parlamentares. Se o mal maior seria dar mais tempo na TV e mais capilaridade à candidatura que considero golpista — Flávio ameaçou o STF com o uso da força em entrevista concedida em 14 de junho do ano passado à Folha—, reconheça-se o mal estrutural. Parafraseando Auguste de Saint-Hilaire sobre as saúvas, digo: “Ou o Brasil acaba com as emendas, ou as emendas acabam com o Brasil”. É complexo assim.