Reinaldo Azevedo - Colunista

Flávio, Eduardo e negócios da família. Reaças, vocês não são um deles

Valdemar inconsolável: “Caramba! Desde 2005, inexiste lambança com dinheiro grosso que dispense, quando menos, o meu aporte crítico…”

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Huuummm… Por que há tantos medalhões da extrema direita, mesmo entre os mais fieis, furiosos com Flávio e Eduardo Bolsonaro? Se duvidar, mesmo o notório Carlucho não estava inteiramente informado sobre certas operações. Quem já foi “moleque zoeira” na escola (eu fui, apesar da minha cara…) sabe que havia determinados colegas que não podiam ser convidados para certas transgressões: ou se apavoravam ou se precipitavam. Dado o que Carlos escreve nas redes, eu não o convidaria nem para tomar um Chicabon se fosse meu chapa. O fato é: a extrema direita foi tomada de surpresa pelas, como vou chamar?, negociações estéticas entre Flávio — em parceria com Eduardo — e Daniel Vorcaro. O que mais se ouve é o seguinte: “Por que ele não nos disse nada?”

Eu respondo a essa dúvida. Porque os Bolsonaros entendem a política e a direita — ou a extrema direita — como um assunto familiar, privado, que não obedece a injunções de terceiros. Os outros devem se subordinar às suas escolhas. Já brinquei algumas vezes: no dia em que Eduardo ler o que Lênin pensava sobre os mecanismos de decisão do partido, vai dizer: “Esse é o cara; é isso o que eu quero”. Os autores fascistoides que lê e que fazem a sua cabeça, no entanto, o suprem de elementos para entender que ele decide, como célula central de um corpo, e os outros obedecem.
Flávio e Eduardo viram o caso Master se agigantar como o maior escândalo do mundo mundial, de modo a que não se distinguia e não se distingue mais legalidade de ilegalidades. E ficaram calados. Mais: moveram seus braços no Congresso Nacional, na mídia e nas redes para jogar tudo o que parecia tramoia no colo do governo, largando mão de aliados, como Ciro Nogueira. Este caiu em desgraça, e o pré-candidato do PL o chutou no poço.

E, no entanto, o áudio que veio a público revelou uma negociação de R$ 134 milhões para o tal filme, dos quais R$ 61 milhões foram pagos. Mas, ó desdita!, a dona da produtora Go Up diz não ter recebido um tostão e estar à disposição das autoridades. Então volto a fazer a pergunta: cadê o dinheiro? Ela está mentindo?

Flávio, destemido como a personagem da anedota de Millôr, dá mais um passo à beira do abismo. Concede uma entrevista à GloboNews e, esquecendo-se de que é senador, diz que se tratava de um assunto entre privados; que as negociações com Vorcaro vinham de muito tempo; que tudo foi facilitado porque a conversação envolveu um advogado amigo de Eduardo; que omitiu o conjunto da obra porque havia uma cláusula de confidencialidade…

Que coisa!

COMBATA ESSA GENTE, NÃO A DESPREZE
Sou tentado, às vezes, embora fosse um erro, a ver os Bolsonaros mais ou menos como Daisy Buchanan via Jay Gatsby, o ricaço (no registro de nascimento, James Gatz, filho de camponeses de Dakota), no genial livro “O Grande Gatsby”, de Scott Fitzgerald — Hemingway espalhou fofocas sobre ele porque Zelda, a mulher do seu amigo, falava demais… Mas logo desisto.

A propósito: há nada menos de cinco filmes sobre a obra. O último é de 2013, com Leonardo DiCaprio (Gatsby) e Carey Mulligan (Daisy) — ilustração. Só razoável. Ela fica parecendo mais frívola do que no texto. Era uma aristocrata que tinha um passado quase romântico com o Gatz ainda pobretão e que o reencontra montado na grana (já Gatsby): ostentador; cercado de gente vulgar, barulhenta e cafona; sempre insatisfeito por saber que não tem como negar a sua origem, mas louco pela amada inalcançável.

Sim, logo desisto. Em primeiro lugar, sou vira-lata, com muito orgulho, sem nenhum pedigree. Em segundo, sempre tentarei compreender, sem jamais tolerar, o que me causa horror; em terceiro, inexiste qualquer palpitação de afetos de alegria, como diria um filósofo, entre mim e o bolsonarismo. Só mesmo os de tristeza…

O mal que essa gente faz à política e ao país não tem sido devidamente mensurado. Em grande parte, admita-se, a família responde pelo vulto que tomou a extrema direita — assim como o trumpismo renovou para baixo e para pior o conservadorismo dos EUA, fenômeno que se repete nas democracias —, mas o preço que cobra é altíssimo: as instituições se degradam.

Há hoje grande perplexidade entre os próprios pares, mesmo os mais radicais, porque estes se dão conta de que, no fim das contas, jamais estarão entre eles; jamais pertencerão ao círculo que realmente toma decisões; jamais conseguirão construir os vínculos que são de sangue, nessa particularíssima aristocracia que se formou, que soma familismo, truculência e, como resta evidente mais uma vez, amor pelo dinheiro. A convicção, para valer, é coisa de trouxas. Por isso os Bolsonaros não podem ser vistos com olhar distante, como Daisy via os exóticos do círculo de Gatsby: com um certo esnobismo, nem que seja de natureza espiritual. É evidente que Flávio incentivava os seus no Congresso e nas redes a promover o “ataque de cães” (eu também gosto da Bíblia… Eu realmente gosto) contra adversários, tentando ligá-los a Vorcaro, enquanto entravam os milhões que, segundo a produtora, nunca lhe foram repassados.

Não, senhores! Os peixões da extrema direita não sabiam de nada. Era um assunto familiar. Era um acerto entre Flávio, Eduardo e, obviamente, Jair. Duvido que Michelle tenha sido informada. Não estou aqui a atestar a sua moral elevada. O ponto é outro: mulher que é, foi ignorada até pelo marido quando se tratou de fazer o sucessor da família não só no mundo da política, mas também no mundo dos negócios.

Entenderam agora por que o candidato é Flávio — e escrevi no dia 7 de julho de 2025 no UOL que seria fatalmente um Bolsonaro, com sangue Bolsonaro? Porque, na verdade, a primeira sucessão que se dá é a do mundo dos negócios. A Presidência da República é um chorinho, como aquele tantinho a mais de uísque que os amigos vulgares do grande Gatsby sempre esperavam. Ninguém sabia de coisa nenhuma porque os Bolsonaros, no fim das contas, avaliam que nada devem à sua tropa e que esta é formada de devedores de sua generosidade.

É por isso que Nikolas incomoda gente como Eduardo e Paulo Figueiredo, o Leporello. Mesmo com todo o lixo que esse deputado tem acumulado no cérebro — e é uma quantidade assombrosa para alguém tão jovem —, o monturo exibe, digamos assim, uma marca pessoal; é de sua própria lavra… Não por acaso, o buliçoso moçoilo está a cobrar “transparência” de Flávio… Ele até fala mal de Lula para que a boca não deixe de ser torta pelo uso do cachimbo.

O fato: Flávio e Eduardo traíram os “fortões” da extrema direita. Valdemar talvez seja o mais inconsolável. Quem fizesse como recomendava o grande jornalista Ivan Lessa e encostasse a cabeça a seu peito ouviria seu coração a bater: “Caramba! Desde 2005, inexiste lambança com dinheiro grosso que dispense, quando menos, o meu aporte crítico…” Pois é. Até Valdemar foi traído. E sua candidata “in pectore” segue sendo Michelle. E, no entanto, ela não será. Afinal, é bom que a res que compõe o gado de que a “famiglia” tanto se orgulha saiba: você jamais será um deles.

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