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Flávio: de príncipe da “nova ordem” a sapo da “face amigável do fascismo”

Dois dias foram suficientes para que os delírios autoritários fossem vocalizados por ele mesmo e para que seu “coordenador” ameaçasse o STF

08/10/2026 12:15
Flávio: de príncipe da “nova ordem” a sapo da “face amigável do fascismo”
Flávio: de príncipe da “nova ordem” a sapo da “face amigável do fascismo”

A imaginação política é fértil como conto da carochinha e, pois, mentirosa. Na segunda-feira, determinados setores da cobertura política — sempre ocupados em encontrar um ramo de moderação no deserto do extremismo bolsonarista — decidiram que Flávio Bolsonaro, o candidato do PL à Presidência, amanhecera transformado em príncipe.

Revelava-se, ora vejam!, um articulador sutil, um estrategista surpreendente, uma verdadeira flor — para lembrar o Machado de Memórias Póstumas de Brás Cubas — nascida da “terra e do estrume” do reacionarismo mais abjeto; em suma, um herdeiro capaz de pacificar os ânimos e conduzir os seus ao poder por vias institucionais previsíveis. A propósito: o título do capítulo de onde extraio a imagem machadiana é “O menino é  pai do homem”. Na terça-feira, contudo, o encanto se desfez e o que era doce havia se acabado.

Esse suposto príncipe era tratado como o líder capaz de sepultar, de uma vez por todas, o “velho regime” petista. Aludo, como se nota, ao avesso da história vivida para evidenciar a fantasia estúpida. Afinal, na genealogia das ideias, o herdeiro legítimo dos ideais igualitários é o PT, não o bolsonarismo. Alguns dos nossos bravos analistas inverteram os sinais: transformaram a esquerda numa espécie de aristocracia decadente e conferiram a Flávio a estatura de um Robespierre da reação. E, claro!, ele logo se encarregou de anunciar, a seu modo, o “terror revolucionário”.

Não é que os mesmos articulistas fascinados tenham sido colhidos pelo espanto? O Flávio verdadeiro veio a público para dizer que as urnas lhe darão, se eleito, carta branca para rasgar a Constituição. Esse seria o caminho para “redemocratizar o país”. Nos baixios mentais da “terra e do estrume” da extrema direita, o Brasil vive uma… ditadura. Prova-se, mais uma vez, que o menino é mesmo o pai do homem, na apropriação nada romântica que Machado fez do verso de Wordsworth.

Já lembrei o livro “Ensaio Sobre a Cegueira”, de José Saramago, que trata daqueles que “vendo, não veem”. Foi preciso que o próprio candidato verbalizasse o óbvio para que o óbvio fosse… verbalizado… No mesmo dia, convém não esquecer, o senador Rogério Marinho (PL-RN) bateu às portas do gabinete de Edson Fachin, presidente do STF. Escreveu-se por aí que o coordenador político de Flávio buscava interlocução com o tribunal. Mentira! Foi fazer ameaças.

Fachin, que em seus tempos de presidência do TSE era alvo do “bullying” do então ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira — hoje devidamente guardado no cárcere —, permitiu-se, mais uma vez, ser emparedado. O ministro parece admitir qualquer afronta, desde que consiga, quem sabe, emoldurar na posteridade o seu tão sonhado… Código de Conduta. É a capitulação fantasiada de liturgia.

Flávio Bolsonaro até ganhou alguns puxões de orelha condescendentes. Nada muito severo. Tratam-no quase como um jovem impetuoso que cometeu um deslize verbal, não como a peça central de uma engrenagem que se move por um projeto de poder, não de governo.

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Karl Marx, em “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, despiu até o avesso da fantasia a farsa de personagens medíocres que, mancomunados com os setores mais venais da burguesia, fingiam apreço às regras do jogo apenas para destruí-las por dentro. Ele detalha no livro, por exemplo, a criação da “Sociedade de 10 de Dezembro” — uma milícia privada, de aluguel, disfarçada de sociedade beneficente e formada por parasitas de toda ordem, sob o comando secreto de Luís Bonaparte. Tal grupo organizava falsas aclamações populares, intimidava a oposição e preparava o terreno para o golpe de Estado. A burguesia “da ordem” fingia acreditar na legalidade daquele arranjo e aplaudia a sua violência em nome da estabilidade dos negócios. Esse roteiro, como se percebe, é velho.

Em entrevistas recentes, tanto Flávio como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, decretaram a morte da era petista e mostraram o horror que sentem à hipótese de uma vitória de Lula. O senador justificou seu veto dizendo que o Congresso seria hostil ao petista; o governador paulista apontou a suposta inconveniência de o Palácio do Planalto e o Palácio dos Bandeirantes professarem visões de mundo distintas. Flávio discursa com um sorriso perene nos lábios. Tarcísio atua com aquela seriedade técnica, milimetricamente estudada.

É o “fascismo com um sorriso”, o “fascismo amigável”, na expressão certeira cunhada por Bertram Gross em seu clássico “Friendly Fascism: The New Face of Power in America”. E olhem que o livro foi publicado em 1980…

Uma síntese desse fascismo “mais limpinho”? Pois não:
1: A fusão entre corporações e Estado – à diferença do modelo do século passado, centralizado na figura de um ditador, a versão contemporânea submete-se à gestão de conglomerados privados. O aparato estatal vira comitê gestor de interesses multibilionários. O livro tem quase cinquenta anos. Lembra alguma coisa?

2: A degradação democrática interna – preserva-se a fachada institucional; realizam-se eleições; os tribunais funcionam, e os partidos debatem. Contudo, o poder real é inteiramente esvaziado pelo rolo compressor do “lobby”. O cidadão mantém o direito de votar, mas a sua capacidade de escolha efetiva foi confiscada.

3: O amortecimento pelo consumo e pela passividade – substitui-se a violência física por mecanismos sofisticados de pacificação social. O estímulo ao consumo desenfreado e a superexposição ao entretenimento de massa geram um estado de anestesia coletiva. A população é domada ou pelo conforto efêmero ou pela paralisia psicológica decorrente da precariedade do trabalho e do endividamento crônico.

4: O monopólio da narrativa e da vigilância tecnológica – a opinião pública é moldada por uma estrutura de mídia alinhada. Era assim naquele tempo… Hoje em dia, atuam os algoritmos e a coleta automatizada de dados. Os que discordam não precisam ser encarcerados. Basta que sejam empurrados para as margens do debate, ridicularizados pelos canais hegemônicos ou simplesmente sufocados sob uma avalanche planejada de ruído e desinformação.

5: A seletividade dos alvos da violência – a face violenta e punitivista do Estado tem como alvo os setores historicamente marginalizados. Para a classe média e o establishment, o modelo se vende como uma alternativa moderna, eficiente e racional.

CAMINHANDO PARA A CONCLUSÃO
Em suma: com a eventual vitória de Lula, o país viverá, como é próprio das democracias vivas, uma tensão permanente entre o Poder Executivo e um Congresso composto por pelo menos um terço de parlamentares conservadores e outro terço de reacionários convictos. Mas ainda se estará nos domínios da democracia. Já com o triunfo do projeto representado por Flávio, essa tensão democrática de que falo cederá lugar ao autoritarismo. Flávio confessa.

Flávio e sua razia constitucional assustaram um pouco os velhos “donos do poder”, que acharam um tanto indelicado chutar a porta assim. Preferem mais sutileza. Aplaudiram, no entanto, as ameaças de Marinho.

Na obra de Marx e naquele caso, a própria ordem que a burguesia julgava proteger caiu sob o manto do autoritarismo. Uma lição merecida. Na era do “fascismo amigável”, os que verdadeiramente mandam no regime só querem um farsante que comande a captura do Estado por interesses privados. Quem é mesmo o candidato do “velho regime”?