
Reinaldo AzevedoColunas

Flávio, aposentadoria, BPC, saúde, educação e real natureza da trapaça
Vamos aprender a ler uma notícia, caras, caros e cares. Os dois programas de Flávio Bolsonaro: para “uzmercáduz” e para os pobres
atualizado
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Já assistiram a um espetáculo de “teatro de sombras”? Eu já. Tem seu fascínio. Silhuetas que se veem em razão de um jogo de luzes representam um papel em que se dispensa a excessiva personalização. O que vale é o simbolismo. A expressão pode ser metáfora de uma percepção superficial dos fatos que não corresponde à verdade essencial das coisas. Bem, os mais dedicados às coisinhas da filosofia logo se lembraram, e com razão, da caverna de Platão, né?
AGENDA ESCONDIDA
Flávio Bolsonaro não chega a ser meu melhor exemplo para explicar a distância entre o mundo da percepção, com seus enganos, e o das ideias. Mas serve por agora. A turma do pré-candidato do PL à Presidência vazou para, como costumo escrever, “Uzmercáduz” que, se eleito, ele vai desvincular do salário mínimo as correções das aposentadorias e do BPC (Benefício de Prestação Continuada,
Notem bem: sou contra a desvinculação, mas não considero isso um crime. O que é inaceitável, aí sim, é esconder a agenda. Anuncia-se, ainda, que o dito Zero Um quer privatizar 95% das estatais. Rememoro: privatizações têm disciplina constitucional: Inciso XIX do Artigo 37 da Constituição. Não basta dizer “vou vender e pronto!” Tem de passar pelo Congresso. “Ah, a maioria do Parlamento será de direita; vai ser bico!” Falso. Depende muito de como os interesses cartoriais vão se organizar.
SAÚDE. EDUCAÇÃO E PRIVATIZAÇÕES
Mais: o pré-candidato do PL também pretende, se eleito, mexer com os respectivos Orçamentos de Saúde e Educação. Seriam corrigidos, também eles, apenas pela inflação. Acabar-se-iam as vinculações que impõem desembolsos de 15% da receita corrente líquida no primeiro caso e 18% da receita líquida de impostos no segundo.
“Uzmercáduz” entram em frêmitos gozosos nessas horas.
Flávio quer esconder a sua agenda sobre aposentadoria, BPC e gastos em Saúde e Educação mais do que o diabo pretende esconder a sua condição de Anjo Caído. Pode ser criptonita eleitoral para quem se quer um novo Super-Homem.
O “homem da direita” também estaria disposto a vender 95% das estatais… É mesmo? Depende de como seja percebido o debate. A ideia seria passar nos cobres, por exemplo, a Petrobras abaixo do seu valor de mercado, como Tarcísio de Freitas fez com a Sabesp? Nota: é possível vender subsidiárias de empresas públicas ou mistas por decisão administrativa, submetendo-se apenas à Lei 9.491, das privatizações. No caso das empresas-mãe, não.
REAÇÃO
Pois bem: a campanha de Flávio e ele próprio saíram chutando a Folha, que deu a notícia com indisfarçável entusiasmo. É do jogo: em se tratando de extrema direita, bata sempre na imprensa, mesmo que ela se mostre a favor.
Fato: o “vazamento” passou um recado aos mercados: “Flávio é esse cara”. Ou, em linguagem de peso histórico-religioso, “Ecce homo”. Mas não se trata de Pilatos mandando crucificar um Cristo. Ao contrário. Trata-se de exultação: “Vejam aí: eis o homem de vocês”. Mas o pré-candidato do PL tem de fazer a sua parte no minueto: “Que absurdo? Eu? diminuir, na prática, o valor das aposentadorias do BPC? Tudo fake news”. Assim, quase todo mundo ganha:
– os mercados ficam felizes porque se confirma ser essa, de fato, a agenda de Flávio;
– o pré-candidato ganha porque bate “na imprensa”, ainda que lhe tenha prestado o favor de dizer a quem interessa o que realmente pensa.
“Ah, Tio, então todos vencem?” Bem, caras, caros e cares, se ele ganhar, os aposentados, os que recebedores do BPC e os que dependem de saúde e educação públicas obviamente perderão. Mas, nesse caso, quem se importará? Um dia haverá o futuro sorrindo para todos, não é?, muito especialmente para os desvalidos que ainda não perceberam as virtudes da espera e da perda que será, um dia, ganho. Mas para as futuras gerações de desvalidos.
Amanhã tudo será melhor.
