Entre Lula e Flávio, só um ameaça a democracia: Flávio. É só um fato!
Pré-candidato do PL, o dito “Zero Um” ameaçou usar a força contra o Supremo caso este não faça o que ele quer. E um pouco de história
atualizado
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Caros leitores, eu poderia aqui pedir um monte de cabeças que estão por aí, mais ou menos como fazia Robespierre, antes de perder a própria. Manon Roland, uma adversária dele, senhora respeitável, revolucionária, mas de outra enfermaria, teria dito a caminho da guilhotina em 1793, durante a fase do Terror: “Ó liberdade, quantos crimes se cometem em teu nome!” Sempre duvido de brocados vocabulares à beira da lâmina ou diante do trabuco, mas a sacada é boa. Ela dançou. A coisa virou, e aí foi Robespierre a sentir no ano seguinte o golpe fatal. Na ilustração, o julgamento de Manon e a execução do seu algoz. Augusto dos Anjos deixou em verso: “O beijo, amigo, é a véspera do escarro”. Sem cabeças, pois. Tentarei olhar um tanto além das brumas sangrentas. Será possível? Não sei quem vence a eleição: se Lula (PT) ou Flávio Bolsonaro (PL). Uma coisa é óbvia e ululante, além da tentação do trocadilho: só um deles ameaça a democracia enquanto não vier a público para desdizer o que disse. É claro que me refiro a Flávio. E aí lhe cabe decidir, leitor, se o regime é ou não um valor inegociável. É?
Vamos lá. A imprensa noticiou que o PT formalizou o que seria uma mudança de estratégia, que passa a considerar o pré-candidato do PL, o dito Zero Um, um risco à ordem democrática. Cá comigo, não preciso que o partido me diga, como escreveu um acadêmico realmente poeta, “o que cantar, como andar, aonde ir, o que dizer, o que calar, a quem querer…” Eu mesmo afirmei no dia 7 de julho do ano passado que o nome reacionário para a disputa seria um Bolsonaro e que nasceria como potência eleitoral: ganhando, levaria tudo; perdendo, lideraria a oposição ideológica. Parecia-me óbvio. Tarcísio me cheirava a “Belo Antônio” (a seu modo) carioca dos paulistas. Nunca caí na conversa.
E, bem, por mais que Flávio faça juras de conversão à moderação, não posso esquecer o que ele diz, a despeito do meu eventual desejo de que, bem…, viesse a ser comportar como o ursinho Blau-Blau da extrema direita. Sei que não é. E ele, obviamente, sabe de si mesmo.
Vamos ver. No item 11 da “Resolução”, escreve o PT:
“De um lado está o projeto que defende a democracia real, aquela que se expressa na vida concreta do povo. A democracia (…). Do outro lado estão aqueles que atacaram a democracia, que elogiam a ditadura militar, que não aceitaram o resultado das urnas e que conspiraram contra o Estado Democrático de Direito e promoveram atos de vandalismo, tentando um novo golpe em 8 de janeiro, após serem derrotados pelo voto popular.”
A íntegra está aqui. Ainda que se decida escoimar todo o conteúdo autocongratulatório, o trecho acima é irrespondível, não? Mas, atenção!, um candidato se apresenta para governar o futuro. E é dele que se vai falar aqui. Aguenta um pouco as pontas.
UM TANTO DE AUTOENGANO
Antes que eu demonstre que, com efeito, Flávio ameaça a democracia — e me apego à suas próprias palavras — e Lula não, registro um eloquente autoengano do PT. Prestem atenção: “autoengano” não é sinônimo de mentira. Trata-se apenas de uma versão que pessoas ou entes criam para justificar suas escolhas, a despeito de os fatos à volta indicarem que os resultados não são positivos. Escreve a Executiva Nacional do PT:
“O escândalo do Banco Master é o retrato desse modelo. O banco foi fundado e operou livremente durante o governo Bolsonaro, período em que acumulou fortes indícios de gestão fraudulenta, corrupção e irregularidades. Diante de tantas evidências, cabe perguntar: por que o Banco Central, então sob a gestão de Roberto Campos Neto, indicado por Bolsonaro, não tomou as medidas necessárias para intervir e proteger o sistema financeiro e os recursos públicos? Criado e expandido nesse ambiente político, o banco manteve relações estreitas com setores da direita brasileira e com governos alinhados ao bolsonarismo. Não por acaso, Daniel Vorcaro e o Banco Master doaram milhões para campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, enquanto lideranças da extrema direita, como o deputado Nikolas Ferreira, utilizaram diversas vezes o jatinho de Vorcaro. Soma-se a isso o fato de que o servidor do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização da autarquia e também nomeado durante o governo Bolsonaro, atuava na prática como um empregado-consultor do próprio dono do banco. Governadores bolsonaristas chegaram a adquirir títulos podres com dinheiro público e foi o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, bolsonarista, que tentou uma manobra para salvar o Banco Master com recursos públicos.”
Ainda que se pudesse endossar cada linha do que vai acima, não preciso eu lembrar aos doutos do PT que toda campanha que mira a corrupção milita contra o “statu quo”. E é o PT quem está no poder, ainda que isso tenha sido mais verdadeiro nos dois primeiros mandatos de Lula e no primeiro de Dilma.
Dirão: “Essa é a ‘narrativa’ do PT, que terá de disputar com outras ‘narrativas’”. Desde que a extrema direita se apropriou dessa palavra, seu sentido se acanalhou, como a dizer: “Conte aí a sua versão; quem conseguir mobilizar mais gente ganha”. Se os defensores do terraplanismo forem mais convincentes ou carismáticos, combina-se que a Terra é plana. O mundo dos fatos é contraditório; o das versões é simples. Explicar é uma operação mais complexa do que lançar palavras de ordem. A história ensina o que exemplifica: “mar de lama” milita a favor de uma virada do jogo político. Nem que seja para uma lama ainda pior. Avancemos.
FLÁVIO E O GOLPE
Em entrevista à Folha no dia 14 de junho, e seu conteúdo não foi retirado até agora, Flávio anunciou um golpe caso alguém do seu grupo vença a eleição, indulte os golpistas, e o STF diga o óbvio: é inconstitucional. Indagado a respeito, respondeu:
“É uma hipótese muito ruim porque a gente está falando de possibilidade de força, de uso da força; a gente tá falando de possibilidade de interferência direta entre os Poderes. É tudo o que ninguém quer. Eu não estou falando aqui. pelo amor de Deus!… Não estou fazendo em tom de ameaça. Eu estou fazendo uma análise de cenário que é algo real, que pode acontecer. Ou não pode? Bolsonaro apoia alguém, esse candidato se elege, dá o indulto ou faz a composição aqui com o Congresso Nacional para aprovar uma anistia, dois, três meses, isso tá concretizado, aí vem o Supremo e fala ‘ah, isso é inconstitucional’, e volta todo mundo pra cadeia. Não dá! Isso não dá! Certamente o candidato que o presidente Bolsonaro vai apoiar vai ter que ter esse compromisso, sim”.
A essa altura já se sabe, não? O candidato de Bolsonaro é Flávio. E este diz que, diante da hipótese dada, o STF só tem um voto aceitável se não quiser ser atropelado pela força. Como o indulto ou a anistia são inconstitucionais (sim, leitor, concordância no plural nesse caso), o tribunal só teria uma coisa a fazer: segundo o pré-candidato, essa coisa única é se expor aos tanques — caso aceitassem, claro. Não é uma interpretação. Trata-se de uma evidência.
CAMINHANDO PARA O ENCERRAMENTO
O trio do PSD que se apresenta para a disputa, e tudo parece convergir para o nome de Ratinho Jr., governador do Paraná, concedeu uma entrevista ao Canal Livre, da Band, no domingo, e falou bastante em “restauração moral”. Quem pode ser contra, não é mesmo?
Nem Ratinho nem Eduardo Leite ou Caiado explicaram direito o que isso quer dizer. Tenho cá minhas curiosidades. Digamos que o escolhido do partido para a peleja não chegue ao segundo turno. Nesse caso, a “restauração moral” estará mais bem-representada por Flávio, com sua ameaça de golpe, ou por Lula, sem golpe nenhum?
Se a democracia não for um valor inegociável, o que mais se pode negociar?
Flávio vai retirar o que disse ou quer vencer para cortar cabeças?

