Eleição entre soberania e entreguismo, ordem e desordem. Milei: o lixo
O esforço dos Estados Unidos de interferir no processo eleitoral brasileiro em favor de Flávio Bolsonaro não é mais nem uma possibilidade nem uma hipótese: trata-se de uma realidade. E, como os fatos também revelam, a operação é conduzida em parceria com a família Bolsonaro, a começar do próprio candidato, sob a orientação, digamos, ideológica de Eduardo e Paulo Figueiredo — Pinky e o Cérebro do intervencionismo.
Como revelou o jornal “The Washington Post”, Marco Rubio queria despachar um par de funcionários para vir ao Brasil com o intuito de pôr em dúvida a integridade e a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro. Trata-se de Riley M. Barnes, secretário-assistente, e Samuel Samson, subsecretário-assistente do Departamento de Estado. Os respectivos pedidos de visto já foram negados pelo Itamaraty.
A notícia vem a público três dias depois de Flávio participar de um seminário em Brasília, na terça, em que repetiu as acusações falsas de seu pai, o golpista condenado Jair Bolsonaro, às urnas eletrônicas. Nesta quinta, foi a vez de Eduardo participar de uma live, em companhia de Fernando Cerimedo, o picareta argentino que inventou uma teoria conspiratória sobre a totalização dos votos em 2022, para acusar vulnerabilidade no sistema eleitoral e sugerir que houve fraude naquela eleição.
“Argentino Picareta”? Javier Milei discursou há pouco na Convenção do PL que oficializou o nome de Flávio à Presidência. Nesta sexta, o agora candidato do partido publicou nas redes um vídeo feito por IA em que ambos chegavam ao estádio do Pacaembu, em São Paulo, pilotando caças. A Argentina — então Províncias Unidas do Rio do Prata — não invade solo brasileiro desde a Batalha do Passo do Rosário (ou de Ituzaingó, com a chamam os “hermanos”), em 20 de fevereiro de 1827. Agora temos essa cortesia de Flávio, ainda que no território da fantasia.
É grotesco. O “Leão”, como Milei chama a si mesmo, contrastando a mixuriquice de seus dotes físico e moral com a majestade do bicho, falou contra uma suposta ameaça socialista e, ao lado do Zero Um, dançou ao som de “Panic Show”, da banda La Renga, como faz em todos os seus eventos — à revelia da vontade do grupo, note-se:
“Olá a todos! Eu sou o leão A fera rugiu no meio da avenida Todos correram sem entender Show de pânico em plena luz do dia Por favor, não fujam de mim Eu sou o rei de um mundo perdido Eu sou o rei e eu vou te destroçar Todos os cúmplices são do meu apetite Não fuja! Venha a mim Fique desnudo e enfrente meus dentes Eu sou o rei, o leão Venha saber como é”.
O vídeo circula por aí. Não parece coisa de gente que transita clinicamente no vasto orbital da normalidade.
Quando os EUA impuseram a tarifa de 25% a parte dos produtos brasileiros, mais uma das delicadezas do Imperador do Norte impostas a nosso país com o patrocínio interno da família Bolsonaro, Rubio houve por bem desferir um ataque a Lula nas redes, descontente porque o presidente brasileiro não assentiu em se comportar como um estafeta do império, o que Flávio lhe prometeu numa carta pessoal e num documento de 84 páginas enviado ao Escritório de Representação Comercial (USTR).
Rubio emprestava um viés político àquilo que é parte da guerra comercial de Washington contra o… mundo, o que se confirma com a tarifa adicional de 12,5%, esta imposta a 59 países mais a União Europeia. Donald Trump elegeu o planeta como alvo, mas é evidente que o Brasil vive uma circunstância particular.
BOLSONAROS E MILEI SÃO ÚNICOS NO MUNDO
A investida protecionista e, a rigor, anticapitalista de Trump não encontra eco entre seus aliados ideológicos em nenhum outro país do mundo. Ele costuma ser até bem desagradável com aqueles que compartilham alguns de seus valores ideológicos. Há, no entanto, duas exceções: o Brasil e a Argentina.
Por aqui, a família Bolsonaro, que tem a hegemonia da extrema direita e fagocita parte considerável da direita amorfa, aceita ser o instrumento da tentativa de tomar de assalto a economia. Assim, a presença de Milei, outro esbirro do trumpismo, é apenas uma ilustração cômica, apalhaçada, da subserviência e do entreguismo. Eduardo já ganhou o “green card” como gorjeta. Imaginem quanto pode render a concessão das terras raras e do Pix — ainda que de forma maquiada —a seus patrões caso Flávio vença a eleição.
Os setores da indústria e do agro que se engraçavam, ou se engraçam ainda, com Flávio fiquem espertos. A depender do resultado da eleição, preparem-se para atuar como meros agentes de um novo “Pacto Colonial”.
Tudo está devidamente exposto. Nem chega a haver opinião neste texto. Listo evidências apenas. E, se alguém achou exagerada a interpretação que deu o Itamaraty à classificação das organizações criminosas como terroristas, alertando para o risco óbvio de invasão do território brasileiro — o que as leis norte-americanas facultam —, bem, a esta altura, creio, caberia uma reconsideração. Os dois funcionários de Rubio falam por si. Ademais, tal designação permite que a CIA realize operações secretas em nome da… segurança dos EUA.
Você não gosta de Lula e do PT? É parte do jogo democrático. Cada um escolha o seu sonho e o seu voto. O que resta inequívoco, e isto não depende nem da minha vontade nem da sua, é que a eleição de outubro se dará entre forças que representam a soberania — e não excluo que equívocos se cometam em seu nome; também isso é do jogo — e as forças mais escancaradas do entreguismo.
Se a soberania pode se equivocar, o entreguismo, do seu ponto de vista, não se equivoca nunca: está sempre a serviço da intervenção e dos seus próprios interesses mesquinhos. No primeiro caso, pode-se fazer uma correção de rota; no segundo, firma-se o pacto com a destruição do país. Sem retorno.
REALISMO MÁGICO
Em seu discurso, Milei nos brindou com esta frase de suposto requinte intelectual: “O Brasil pode se somar à transformação regional que, nos últimos anos, levou a América Latina a deixar de ser uma região associada à miséria romantizada, retratada por certas obras de realismo mágico, para se tornar um sinônimo de progresso. Creio firmemente que não há outro caminho capaz de afastar o risco que paira sobre o Brasil, como uma ‘Espada de Dâmocles'”.
A literatura latino-americana, com efeito, é rica no chamado realismo mágico, que não fez fortuna crítica no Brasil. Nossa impressionante riqueza literária segue por outros caminhos — e deixo isso para outra hora. O presidente argentino, fica claro, não entende nada dessa corrente: trata-se, não raro, da denúncia da miséria, não da sua romantização. As elites retratadas em tom crítico, muitas vezes fantasmagórico, são precisamente as forças a que se aliam Milei e Flávio. Acerta ao dizer que há uma “Espada de Dâmocles” (pesquisem a respeito depois) sobre o Brasil. E ela é representada hoje por aqueles que atentam contra a sua independência e a sua liberdade.
LIXO E OUTRA ESCOLHA Milei referiu-se a Alexandre de Moraes como “o lixo Careca”. Tem-se aí mais um evento inédito: um chefe de Estado de país estrangeiro refere-se a um membro do Supremo Tribunal Federal em termos obviamente inaceitáveis, numa outra evidência de uma articulação de forças estrangeiras contra a autonomia do Brasil — e, como resta evidente, em parceria com os Bolsonaros.
O lixo intervencionista vai se acumulando. A eleição, assim, não se dá apenas entre soberania e entreguismo. Também se trata de escolher entre as forças da ordem institucional e as da desordem.
Quadro “Batalha do Passo do Rosário”, de José Washt Rodrigues, quando a Argentina ocupou solo brasileiro, em 1827; um caça do país vizinho invadindo o Brasil, conduzido por Milei, na fantasia de IA produzida por Flávio Bolsonaro; o presidente argentino atacando as instituições brasileiras na Convenção do PL e os Três Patetas — Eduardo, Paulo Figueiredo e Flávio — oferecendo o país a Marco Rubio