DE VIRA-LATAS E PIT BULLS - Nelson Rodrigues, trecho da crônica "Complexo de Vira-Latas" (1958), o editorial de "O Globo de 1º de abril de 1964 saudando o golpe e o deste 14 de junho antevendo "a bancarrota"
Em tempos de Copa do Mundo, indago: como uma expressão criada por Nelson Rodrigues em 1958 dialoga, de forma complexa, com um editorial de “O Globo”, deste domingo, que antevê a bancarrota do Brasil? Vamos ver.
O MAIOR DE TODOS
Não há autor que tenha rivalizado com Nelson, dadas as suas múltiplas facetas, na criação de expressões que passaram a circular na imprensa, nas ruas, nos bares. E talvez seja essa a maior glória de um escriba. É justamente quando a autoria desaparece, de sorte que um determinado ajuntamento de palavras passa a integrar a paisagem da língua, que se atinge o estado da arte: “óbvio ululante”; “toda unanimidade é burra”; “idiota da objetividade”; “sol de derreter catedrais”; “padre de passeata”; “bonitinha, mas ordinária” — esta virou título de obra e se pode empregar também no masculino para designar a mixuruquice eventual e temporariamente atraente.
AS CIRCUNSTÂCIAS
Expliquem-se as circunstâncias. Foi o último texto de Nelson antes de o “escrete nacional” embarcar para a Suécia, de onde voltou coberto de glórias e com um rei aclamado, antevisto por Nelson (tratarei do assunto em outro texto), que ocupa até hoje o trono.
O Brasil tinha sido banido da Copa de 1954 pela Hungria, e pesava no trauma nacional a derrota de 1950. Em 9 de maio de 1956, fez-se um amistoso Brasil-Inglaterra em Wembley. Perdemos por 4 a 2. Na crônica de que trato, publicado na “Manchete Esportiva”, Nelson retratou o jogo assim:
“Por ‘complexo de vira-latas’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos ‘os maiores’ é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: — e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: — porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.”
Nota: refere-se a Obdulio Varela, meio-campista e capitão da Seleção do Uruguai no “Maracanazo“ de 1950, quando o Brasil perdeu a final por 2 a 1.
Nessa crônica, com humor impagável, diz de si mesmo, especulando sobre as possibilidades de a Seleção se sagrar campeã em 1958: “Mas vejamos: — o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, ‘não’. Mas eis a verdade: — eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: — sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo.”
E conclui magistralmente:
“Eu vos digo: — o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que ele se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota. Insisto: — para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.”
VOLTEMOS A ESTES DIAS
Caso se dispense à crônica as tintas de uma teoria, parece cediço que estaríamos diante de uma furada. E por três razões ao menos: – parte do princípio de que, de fato, o Brasil reúne os maiores talentos do mundo, o que nem sempre é verdade; – infere que a crença na vitória e a disposição subjetiva para vencer não têm adversários possíveis; – ignora as articulações do outro lado, a “dos russos”, para ficar na metáfora. Nota à margem: Garrincha nunca fez aquela pergunta…
Estamos, enfim, diante de um, ele admite, “patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo.”
Nelson não era um sociólogo. Suas crônicas, a exemplo de todas as outas, constituíam recortes de sentimentos, de esferas de sensações, de coisas que se diziam e se dizem por aí. Ele não produzia teoria, mas seus escritos seguem disponíveis para a reflexão teórica. E quero me fixar nesse aspecto.
UMA BREVE EXPERIÊNCIA PESSOAL
Submeti-me, no começo da tarde deste sábado, horas antes do confronto Brasil-Marrocos, a um exame de imagem. Enquanto aguardava, um outro paciente, ou cliente, dizia à mulher que o acompanhava que a nossa Seleção não tem a menor chance de sair vencedora nesta Copa.
Não se tratava de um juízo analítico sobre as qualidades, ou a falta delas, do selecionado. O problema, dizia, é mesmo do país, mais especificamente, “dos brasileiros”. Estes, ele assegurava, “não têm jeito”. E, restava evidente, não se incluía no grupo sobre o qual fazia juízo implacavelmente depreciativo. Sabem como é… Nessas horas, há sempre aqueles que têm a certeza de que “brasileiros” são os outros…
Seríamos, em regra — ele não, claro! — “preguiçosos”, “irresponsáveis” e queremos tudo de mão beijada. E, ora vejam!, “Aquele lá“, referia-se a Lula, fica estimulando esse mau espírito. Indagava, com indignação, por que alguém se disporia a trabalhar — acredito que vá votar em Romeu Zema — se pode ganhar a vida sem fazer nada. E arrematou o raciocínio, como se tivesse provado uma tese: “Pode ver: qual foi a única região em que ele venceu?”. O segredo de um bom relacionamento pode ser a convivência harmônica de ideias. Ela respondeu: “No Nordeste, claro!”
Digamos que estivesse certo, cumpriria indagar — e até me vi tentado a fazê-lo, mas continuei com a cara enfiada no meu livro; sei ser impossível vencer um pombo no jogo de xadrez — por que diabos quadro tão desolador levaria a Seleção Brasileira ao fiasco. É claro que ele não saberia responder.
As redes sociais criaram a era do “triunfo do hiato lógico”. À medida que as pessoas são reféns voluntárias de suas bolhas de opinião, desaparece a veleidade de se construir um raciocínio lógico. Se o preconceito do outro alimenta o meu, eis o sinal mais evidente de que estou certo, e a contradita só pode ser ato de sabotagem dos inimigos.
Por alguma razão, os miseráveis que recebem Bolsa Família e o fim da jornada 6 X 1, que ele também atacou, inoculariam em nossos jogadores o vírus da desídia, da incúria e da incompetência.
Concluiu com um triplo salto carpado lógico a sua antevisão da derrota assegurando, adicionalmente, que os salários milionários pagos no exterior a jogadores brasileiros que eram pobres-diabos até anteontem também contribuiriam para lhes entorpecer a vontade. Deixou claro que, se o Brasil levar a Copa, só o acidente explicará. Se perder, o responsável é Lula. E ponto. Alguém o chamou para o exame. O que lhe vai de mais horrível por dentro certamente não será revelado por nenhum aparelho.
VOLTEMOS AO COMPLEXO DE VIRA-LATAS
O “complexo de vira-latas” de Nelson foi submetido, no curso das décadas, a uma torção de sentido. Se, antes, como queria o cronista e dramaturgo inigualável, o impulso atendia a algum atavismo ligado à subserviência e, nas suas palavras, a uma “atitude negativa”, que se revelava como mero “disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado”, passou a ser, nestes tempos, um exercício de exclusão do outro, que se manifesta como ódio ideológico e de classe.
Tal postura pode, creio, ser sintetizada assim: “Se as políticas públicas em curso e se os políticos não atendem às minhas vontades e às minhas convicções, então só a derrota, o desastre e, eventualmente, o caos nos contemplam”.
Inexiste a instância, quando menos, da dúvida razoável.
EDITORIAIS DE O GLOBO NA HISTÓRIA
E isso não está presente apenas no meu parceiro incidental de sala de espera. Neste domingo, o Globo escreveu um editorial sobre a economia brasileira — e fica claro que nada há a saudar, relevar, proteger. Atacam-se as chamadas “manobras fiscais do governo”, com críticas também ao Congresso, para tentar reeleger Lula.
A administração é chamada de “criminosa” já no título — “Incúria fiscal de Lula e Congresso é crime contra o país” — para concluir no último parágrafo: “Parece não haver limite na sanha gastadora de Lula e dos congressistas. Vale tudo para se manter no poder. Se reeleitos, porém, herdarão de si mesmos um país que eles próprios levaram à bancarrota.”
Uma voz surda parece dizer:
“Vejam o que eleitores vira-latas, de um governo de vira-latas, pode fazer com um país que, estivesse sob o entendimento que temos da realidade e as circunstâncias políticas que consideramos ideais, poderia ter um belo futuro”…
“Quer coibir as críticas ao governo, Reinaldo?” Eu não! Mas me preocupo quando vozes influentes fazem o debate político desde a “bancarrota” e o caos.
Ora, em momentos assim, com tamanha suposta gravidade, devem-se convocar, a exemplo do que se fez no passado, as ditas “forças vivas e patrióticas da nação”, não é mesmo? Afinal, é mister impedir que mergulhemos todos no abismo. O objetivo pode nem ser este porque as palavras andam a ser barateadas, mas, no raciocínio que vai acima, tem-se o percurso do argumento golpista. Ou se vai assistir inerme ao planejamento da dita “bancarrota”?
A HISTÓRIA
No dia 1º de abril de 1964, contra a “bancarrota” e o caos de então, claro!, O Globo saudava o golpe assim (e me dispenso de aludir ao Dia da…, bem, vocês sabem):
“Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam se unir todos os patriotas para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas, o Brasil livrou-se do governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para os rumos contrários à sua vocação e tradições… Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os protegem de seus inimigos.”
No dia 31 de agosto de 2013, depois de 49 anos, o grupo Globo admitiu ter sido um erro o apoio ao golpe:
“Desde as manifestações de julho de 2013, o jornal O Globo vem publicando uma série de depoimentos de seus jornalistas sobre os 50 anos do golpe militar de 1964. […] O Globo não tem dúvidas de que o apoio ao golpe de 1964 foi um erro. Na época, o jornal acreditava que a intervenção militar era necessária para salvar a democracia, mas o resultado foi uma ditadura de 21 anos que cerceou as liberdades individuais e perseguiu opositores”.
Não sou “coach” daqueles que se retratam de 50 em 50 anos, mas infiro que uma boa maneira de não incidir em novas tentações está em não baratear o caos e em não antever a “bancarrota” do país porque, afinal, pode haver dissensões, o que é legítimo, sobre o caminho a seguir.
A muitos, a “matemática de 1964” também parecia irrespondível. E talvez assim tenha parecido por cinco décadas.
ENCERRO
“Reinaldo, você começou com uma crônica de Nelson Rodrigues e terminou por fazer um repto contra percursos retóricos golpistas?”
Sim, é justamente o que pretendia fazer. E eu o anunciei.
Em tempos de “fascitização” do debate e da política, democracias afora, há quem considere que só se pode combater o “complexo de vira-latas” que nos caracterizaria com uma espécie de “complexo de pit bull”.
Atentem à retórica na extrema direita no que respeita à segurança pública e à do reacionarismo fantasiado de liberalismo quando se refere à economia. Parece haver sempre um zé-povinho conspirando contra os, como é mesmo?, “patriotas” e suas “vocações e tradições”.
Que a população brasileira se convença, como queria Nelson, de que não somos um bando de “vira-latas”. E que todos tomemos cuidado com os propagandistas do “Complexo de Pit Bull”.
DE VIRA-LATAS E PIT BULLS – Nelson Rodrigues, trecho da crônica “Complexo de Vira-Latas” (1958), o editorial de “O Globo de 1º de abril de 1964 saudando o golpe e o deste 14 de junho antevendo “a bancarrota”