Reinaldo Azevedo - Colunista

Delação: PF fica com cara de “Paraíso” para Vorcaro, que estava em RDD

Nunca fui fã de delações e a questiono desde 2013. Há muitos textos a respeito. Um dia vamos nos perguntar se há espontaneidade num preso

atualizado

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Bem, vamos lá. Jabuti não sobe em árvore, a não ser em imagens de IA. Se André Mendonça deixou Daniel Vorcaro trancafiado num presídio de segurança máxima, onde a regra impõe, de início, Regime Disciplinar Diferenciado — nunca se viu algo assim para crime financeiro —, e se isso muda, como se fosse do nada, do dia em que esteve com José Luís de Oliveira Lima, advogado que passou a integrar a equipe do ex-banqueiro e opera delações, para a noite em que Vorcaro é transferido para uma dependência da Superintendência da PF em Brasília, a lógica continuaria a existir ainda que não houvesse apuração nenhuma, ainda que não houvesse fofoca nenhuma, ainda que não houvesse vazamento nenhum.

É evidente que se deu o tiro inicial para a colaboração premiada. Perguntei aqui no texto anterior, brincando com Camões, “que delação seria o bastante para o tamanho do gigante”. Não sei. Ninguém sabe.

Vamos lá. Havendo alguém que me acompanhe ao longo dos anos e que esteja lendo esse texto, bem, deve saber que não sou fã de delação premiada. Mormente quando alguém está preso. “Ah, mas bem que defendeu a de Mauro Cid…” Não. Nem a dele. O que escrevi, isto sim, é que as provas que evidenciaram um golpe independeram da colaboração, embora ela tenham tido, sim, a sua importância.

Não vou dar murro em ponta de faca. Isso não vai mudar. Critiquei a Lei 12.850, das delações, e a 12.846, dita anticorrupção, quando foram aprovadas e homologadas no governo Dilma, em 2013, à esteira daquele aluvião que tomou as ruas. Com entusiasmo dos petistas, note-se. Vi ameaças, e vejo algumas ainda, ao devido processo legal.

Não vou fazer a crítica fácil e burra: “Olha aí, fossem tão boas e tão eficazes, e não teríamos agora o caso Master”. É que, depois delas — e após a Lava Jato e a proibição da doação de empresas a campanhas —, vieram o fundo público, emendas impositivas, orçamento secreto… O que quero dizer, caras e caros, é que a violação de garantias… não assegura a moralidade. A violação de garantias apenas prepara o terreno para a violação de novas garantias.

Escrevi em 2015 — há 11 anos, portanto — na “Veja”:

“Eu acho, sim, que se está usando prisão preventiva como antecipação de pena e como instrumento de pressão para obter delação premiada. E é evidente que isso não pode acontecer. Mais: há uma crispação dos procuradores e do juiz Sergio Moro contra advogados”.

E olhem que criticar, em pleno 2015, o hoje político de extrema direita Moro parecia mais grave do que perguntar se aqueles rapazes eram mesmo os responsáveis pela morte do cão Orelha. O que perguntei, diga-se.

Parece claro que haverá delação. Enquanto eu tiver onde escrever e enquanto o fizer, vou indagar se a submissão de futuros delatores a constrangimentos torna realmente espontânea uma “colaboração”. Faço isso desde 2013. Permanecerei indagando se o aceno com o inferno futuro a quem está sendo encarcerado não faz parecer que algum linimento, uma cela mais amena, já lembra a Beatriz no Purgatório (ilustração) a acenar com “O Paraíso”. Não sei se exagero apelando a Dante, mas a democracia pode não ser compatível com sentenças como “Deixai toda esperança, vós que entrais”.

Insisto: cada um tem a sua própria delação. Será difícil, em acontecendo, Vorcaro atender a todas as expectativas. Passei em 2006 por aquilo que parecia o buraco da agulha numa internação. Havia um diagnóstico inicial de câncer oculto que depois não se confirmou, felizmente. Entendi então que a coisa era delicada: se não morresse do mal, poderia morrer do tratamento. Ponderei à época porque tendo a conservar o humor: “Faz sentido morrer para não morrer?”

O médico tinha um pé no existencialismo e respondeu: “Não morremos um pouco todos os dias? Aprendi isso na faculdade…”

Ele era e é ótimo. Brinquei: “Chame alguém que tenha lido ‘Cândido, ou O Otimismo’, de Voltaire. Ele tinha. E só me respondeu: “É preciso cultivar nosso jardim”.

Que o país sobreviva no fim. Sem o fascismo batendo à porta ou pisoteando flores.

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