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Reinaldo Azevedo

As entrevistas de Flávio: a montanha, a ratazana, o camundongo e a imprensa

Fugido, o filho de Bolsonaro tira a máscara do moderado. E pensar que setores da imprensa e “uzmercáduz” o trataram como democrata legítimo

08/11/2026 17:00
As entrevistas de Flávio: a montanha, a ratazana, o camundongo e a imprensa
As entrevistas de Flávio: a montanha, a ratazana, o camundongo e a imprensa

O fugitivo Flávio Bolsonaro, candidato a Don Giovanni das elites mequetrefes do Brasil — e, sim, com milhões de votos também oriundos de eleitores pobres —, prometeu entrevistas bombásticas que exporiam as entranhas da reeleição de Lula, que ele entende fraudulenta. Tivemos acesso a seu pensamento no “New York Times”, na “Folha” e no “Washington Post”, nos dias 5, 6 e 7, respectivamente. Não se pode aqui repetir exatamente o poeta latino Horácio sobre as montanhas terem parido um “ridículo rato”. Elas não o deram à luz. O roedor estava escondido nas suas fraldas e, delas, saiu serelepe para expor-se inteiramente. Eu sei: para um fujão como ele, dado o seu histórico de amarelar diante do enfrentamento a sério, a palavra “fralda” acaba por ter, vamos dizer, um caráter polissêmico.

O suposto “moderado”, cujas falsidade e malícia tantas vezes apontei, não compareceu aos encontros. Em seu lugar, falou aos jornalistas a ratazana golpista, cujas ideias têm como referência os delírios sempre incontidos do misógino Paulo Figueiredo, que se orgulha de ser um misto de Leporello com Rasputin dessa particularíssima aristocracia da política brasileira: a “Família Bolsonaro”, que não vai largar o osso. Convenham: por que o faria? Prestem atenção ao comportamento dos tais “mercados”, de seus porta-vozes e, sim, de parte considerável da análise política.

Os primeiros, os “mercáduz”, se entregaram à especulação porque o farsante perdeu a eleição. Embora Flávio tenha dito, sem ambiguidade possível, que manteria as políticas sociais — prometendo ainda mais gastos e novas desonerações, o que diminuiria a receita —, os brutos resolveram fazer seu preço contra Lula porque tinham a certeza de que o candidato do PL mentia e poria em prática o seu “tesouraço” contra os pobres. Em suma, reagiram mal porque apostaram em quem sabiam ser uma fraude. Vale dizer: a sua principal qualificação para o cargo, a juízo dessa gente, era ser um mentiroso.

Os “porta-vozes” são os ditos “economistas” cujas opiniões são habitualmente ouvidas. Mostram-se independentes como um pescoço habituado à coleira. Pronunciam-se em favor do negócio que representam. Até aí, bem, nada de novo. Passei a prestar atenção aos raros especialistas ligados a universidades, que não operam no mercado, mesmo quando dizem o que não me parece bom. Logo, não lastimo as escolhas de quem pensa o que não penso. Ao contrário: sempre fico muito atento a estes em particular, desde que seu pensamento não seja a soldo. Mas quase nunca são chamados a se manifestar. Até golpistas têm direito a “outro lado” na gloriosa mídia brasileira — os economistas que estão fora de certo “consenso”, ah, aí não.

Quanto à “análise política”, dizer o quê? Como, em regra, errou quase tudo, nota-se até um certo rancor e ressentimento de quem acabou sendo exposto pela vitória de Lula.

GOLPISMO
Vamos ao que continua muito grave, ainda que o personagem seja miúdo. Nas três entrevistas, Flávio deixa cair a máscara do moderado e exercita, sem esforço de dissimulação, o golpismo: recusa o resultado das urnas e se apega a teorias conspiratórias. Ao “New York Times”, classificou a vitória de Lula como “matematicamente impossível” e, na sequência, fez o malabarismo clássico de um conspiracionista: “Eu tenho minhas suspeitas. Ninguém pode dizer com 100% de certeza que estou certo nem com 100% de certeza que estou errado”. Notem a arquitetura canhestra do “pensamento”: ele não afirma que houve fraude, o que lhe imporia a necessidade de prova. Limita-se a dizer que ninguém pode garantir que não houve. Passemos a um raciocínio semelhante: sabem qual é a maior evidência de que os ETs estão entre nós? Justamente a falta de evidência de que eles estão entre nós…

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À “Folha”, a bobagem veio temperada pela covardia: “É por isso que não vou questionar isso na Justiça brasileira. Porque eu não tenho provas e nem terei, porque é proibido investigar esse assunto”. Releiam. O homem diz que não tem provas, que jamais as terá e que isso se deve ao fato de ser “proibido investigar” — e conclui que a ausência de provas atesta a eficácia do crime. Seria o círculo perfeito da paranoia, não fosse mera safadeza golpista. E as instituições? Ele as joga no lixo em bloco: “O Supremo está comprometido, o Tribunal Superior Eleitoral é dominado pelo governo, e Polícia Federal e Ministério Público Federal são aparelhados”, daí a recusa em legitimar um “processo ditatorial comandado pelo Alexandre de Moraes”.

Ora, se STF, TSE, PF e MPF são todos cúmplices, o que resta? A insurreição na rua, a pressão externa, a ruptura…

Ao “Washington Post”, indagado sobre o fato de Nunes Marques, presidente do TSE, ter asseverado a regularidade do pleito, mandou bala: “Eu garanto a vocês que ele não sabe do que está falando. Nem eu, nem vocês… podemos afirmar com 100% de certeza que não houve fraude”. E arrematou: “A democracia no Brasil não existe mais”. Quem o diz é um senador da República eleito, em 2018, pelo mesmo sistema de urnas que agora declara ilegítimo — e que, convém lembrar, nunca lhe pareceu suspeito quando o favoreceu. Mais: como sustentar a possibilidade de fraude quando se considera o resultado da votação para a Câmara e o Senado?

TUDO DE NOVO
Mais uma vez, um Bolsonaro só considera legítimo um pleito que ele próprio vence. Em 28 de março deste ano, na CPAC — a Conferência de Ação Política Conservadora, o principal fórum da direita trumpista dos EUA, realizada no Texas —, Flávio pediu aos americanos pressão diplomática sobre o Brasil e disse que, se as eleições fossem “livres e justas”, ele venceria. Está aí o cerne golpista do raciocínio. Quem só acata o resultado de uma eleição se esta lhe for favorável não aceita o procedimento, mas apenas a vitória.

Pior: ao “Post”, Flávio sustentou que “as instituições americanas ainda funcionam. Enquanto no Brasil, elas não funcionam mais”, como se os EUA de Donald Trump fossem hoje uma democracia mais vigorosa do que a nossa. Trata-se precisamente do contrário.

Estudiosos norte-americanos, como Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, de Harvard, vêm descrevendo o segundo mandato de Trump como uma deriva em direção ao autoritarismo. No prefácio da edição brasileira de “Como Salvar a Democracia”, os autores observam que o Brasil, depois do 8 de Janeiro, teve mais defesas em favor da sua democracia do que os Estados Unidos depois do 6 de Janeiro. Por lá, as investigações sobre o papel de Trump no ataque ao Capitólio acabaram arquivadas, e ele voltou ao poder. As instituições brasileiras, com todos os seus defeitos, reagiram. As norte-americanas, em boa medida, se dobraram. Que o filho de um condenado por golpe tome por modelo o país que absolveu na urna o principal incentivador do 6 de Janeiro diz tudo sobre o que ele entende por democracia.

Este escriba sempre considerou Flávio um golpista. Em entrevista à “Folha” em 14 de junho de 2025, ele afirmou que o candidato apoiado por Jair Bolsonaro teria de garantir o indulto ao pai mesmo que o Supremo o declarasse inconstitucional — e falou, com todas as letras, em “uso da força”. Não era “superinterpretação”. Apenas o óbvio. Os três depoimentos de agora são a sequência natural. O moderado nunca existiu.

DONOS DA OPOSIÇÃO
Há uma passagem especialmente saborosa na “Folha”. Flávio diz que Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo, e o senador Rogério Marinho (PL-RN) também não creem no número das urnas, mas não falam: “Todos, no fundo, desconfiam do resultado da eleição, mas têm medo de falar”. Que beleza! Temos, então, no armário, uma oposição de crentes em fraude, os quais fecham a porta e sussurram aquilo que juram não pensar quando as câmeras estão ligadas. É preciso cobrar dos dois. Um e outro devem dizer, sem rodeios, se desconfiam ou não do resultado e se endossam a tese de que o Brasil virou uma ditadura. Se não desmentirem Flávio, estarão atuando como golpistas em pele de cordeiro.

Observem agora o essencial: ao se dizer candidato futuro, mesmo tendo fugido do Brasil, Flávio deixa claro que a família não está disposta a abrir mão da liderança da oposição. “Se houver novas eleições, obviamente serei candidato novamente”, disse ao “Times”. À “Folha”, pôs-se à disposição para 2030 e acrescentou que, se o pai ficar elegível, é o seu candidato. Absurdo? Absurdo. Mas, dado o comportamento dos mercados, dos seus porta-vozes e de certa crônica política, o despropósito, a seu modo, se justifica: se os que deveriam pôr limites o tratam como interlocutor, por que haveria ele de se ver como outra coisa?

Os idiotas chamam a isso de “polarização”. Quão estúpido é isso! Os bolsonaros são, sim, um polo de extrema direita. Lula, porém, não é um polo de extrema esquerda. Chamar de “polarização” o choque entre um democrata e um bolsonarista é equiparar o incêndio ao bombeiro, como se fossem duas posições legítimas e antagônicas. A única polarização realmente relevante se dá hoje na imprensa: entre os fatos, com farta bibliografia, e o opinionismo enfezado, redigido ou vocalizado pelo fígado e pelos cotovelos.

O Flávio que vaza das três conversas resolveu retomar o pior discurso extremista do pai. Convoco Marx, que, em “O 18 Brumário”, disse que a história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa, e tomou o sobrinho, Luís Napoleão, como a farsa do tio, Napoleão Bonaparte. Por aqui a coisa é mais torta, porque o pai já era um bufão. O filho carrega os genes golpistas e estava mesmo disposto a reencenar uma tragédia para o país. Dependesse das elites, isso teria acontecido. Como, no entanto, é muito fraco e não consegue emprestar verossimilhança nem aos dotes farsescos do genitor, o farsante de agora foi malsucedido ao tentar envergar as vestes do outro.

A VERDADEIRA COMÉDIA
Flávio chegou a afirmar à “Folha” que sua principal fonte de renda é a advocacia: “Minha principal renda vem da advocacia. […] Minha principal fonte de renda atualmente não é da política, é da iniciativa privada como advogado”. Ele ainda disse ter “uma empresa que faz produtos com grafeno, a Bravo Grafeno”. Ouço gargalhadas?

O caso é um prodígio de comédia involuntária. Segundo levantamento do UOL, a banca emitiu ao menos R$ 13,7 milhões em notas fiscais entre janeiro de 2023 e julho de 2026, cerca de metade delas por pagamentos de outros escritórios de advocacia. O endereço registrado é a mansão do senador no Lago Sul. A empresa tem uma única funcionária, a administradora Letícia Caetano dos Reis, irmã do contador Alexandre Caetano dos Reis — que a Polícia Federal aponta como sócio do Careca do INSS numa offshore nas Ilhas Virgens Britânicas e que foi preso sob suspeita de envolvimento nas fraudes do INSS.

A contabilidade da banca é feita pela firma desse mesmo contador, e a reportagem do ICL apontou que a Bravo Grafeno funciona no mesmo prédio das firmas do Careca. Soma-se o episódio das duas notas de R$ 500 mil emitidas em abril de 2025 para a Copenhagen, ambas canceladas. Nada disso está provado como crime, registre-se. Mas é matéria que pede explicação, não bravata, e talvez fosse prudente que o “advogado e empresário” de renda tão sólida não a oferecesse como atestado de honradez.

Voltemos a Horácio, e este jornalista se corrige. A montanha nem deu à luz uma ratazana. Saiu apenas um camundongo. Mas, note-se, ainda é a família Bolsonaro a comandar a oposição por aqui. A real polarização no Brasil se dá entre a política — e ela pode ser certa ou errada; que o debate seja feito — e a sua destruição, que tanto eco encontra na mídia.

Enquanto os fascistoides forem normalizados como parte do jogo democrático, interdita-se o próprio campo da racionalidade: não há discussão possível quando um dos lados trata a democracia como inimiga. Uma coisa, para voltar a Marx, é o bufão confundir a sua própria comédia com a história da humanidade; outra, ainda mais grave, é que renunciem à crítica os que têm o dever de fazê-la. A verdade lamentável é que Flávio acabou sendo levado a sério, no próprio meio jornalístico, por alguns que se querem “realistas e sem preconceitos”.

CONLUSÃO
Sim, havia o risco efetivo de ele ganhar a eleição — e isso certamente merecia ser tratado com seriedade máxima. Inaceitável e degradante é que tenha sido tomado, em amplos setores da mídia, como um dos polos do debate — e o outro seria Lula, cada qual com seus defeitos, como se um postulante fascistoide, o que se revela, de novo e plenamente, nas três ocasiões em que falou, pudesse, do ponto de vista institucional, merecer o tratamento que se dispensa a um inequívoco democrata.

Nesse processo, a imprensa, com as exceções de praxe, também se degradou. Esses valentes, que exigem de Lula, com tanta energia, um ajuste fiscal, precisam se submeter a um ajuste moral. Poder-se-ia cobrar o mesmo “duzmercáduz”. Mas aí já seria esperar demais, né? Afinal, os mercáduz torciam pelo embusteiro justamente porque ele era um… embusteiro.