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Ramiro Brites

Herdeiros de Jorge Mitre trocam acusações de extorsão e assinatura falsa

Filhos e viúva de Jorge Mitre, morto em 2022, travam disputa na Justiça pelo espólio dos negócios da família, famosa por incorporadora

Imagem cedida ao Metrópoles
Herdeiros de Jorge Mitre trocam acusações de extorsão e assinatura falsa

O espólio do médico e empresário Jorge Mitre (foto em destaque) transformou-se no núcleo de uma ruidosa disputa judicial entre herdeiros. Nos tribunais, o confronto familiar empilha acusações que vão da falsificação de assinaturas à dilapidação de patrimônio, passando pela extorsão.

A disputa opõe, em linhas gerais, os irmãos Júlio, economista, e Juliana, médica, contra a mãe, Maria Elisa, e o irmão mais velho, Fabrício, engenheiro e CEO da Mitre Realty, a construtora e incorporadora listada na Bolsa brasileira (B3).

Os negócios dos Mitre concentram-se no ramo hospitalar, capitaneado pelo Grupo HOSP – Hospital de Olhos de São Paulo. Jorge integrou o conselho de administração da construtora, da qual detinha ações. O patriarca, Maria Elisa e Fabrício também eram sócios na empresa Elisa Agro (ex-Mitre Agropecuária). Os irmãos Júlio e Juliana nunca tiveram participação na empresa do agronegócio, embora possuíssem parte das fazendas da família.

Guerra das assinaturas

Em um dos fronts da guerra familiar, Júlio e Juliana recorreram à Justiça contestando três assinaturas do patriarca presentes em documentos relacionados à Elisa Agro. Os papéis, entre outras medidas, serviram de base para a emissão de um Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) de R$ 293 milhões, em maio de 2022.

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O CRA milionário — que é um título privado de renda fixa — foi lançado no mercado pela True Securitizadora (atualmente parte da Opea Securitizadora) para financiar investimentos e alongar dívidas da Elisa Agro. A companhia, porém, entrou em recuperação judicial em fevereiro de 2024, com dívidas estimadas em R$ 680 milhões.

Campo de batalha

O episódio das assinaturas transformou-se num campo de batalha, no qual Júlio e Juliana atacaram Fabrício e Maria Elisa. Os dois irmãos afirmaram numa ação judicial que o caso das assinaturas era parte de uma trama executada pelo irmão mais velho em benefício próprio e a “toque de caixa, entre abril e maio de 2022, aproveitando-se da vulnerabilidade de Jorge”, que tinha câncer e faleceu no mês seguinte, em 17 de junho.

Uma das assinaturas questionadas validava um “Memorando de Entendimento” (conhecido no mercado pela sigla em inglês “MOU”), firmado em 8 de abril de 2022, entre Fabrício, Jorge e a empresa Elisa Agro. Esse tipo de documento é usado para alinhar condições de um negócio ou um acordo antes da elaboração de um contrato definitivo.

Laudos divergentes

O “MOU” definia, por exemplo, questões relacionadas à parceria entre Jorge, Maria Elisa e Fabrício na empresa agrícola e tratava da emissão do CRA. No documento, a assinatura de Jorge foi feita de próprio punho.

Mas uma análise do Instituto de Criminalística (IC) de São Paulo definiu: “A assinatura atribuída a Jorge Mitre, aposta no ‘Memorando de Entendimentos’, apresenta significativas divergências gráficas com os exemplares legítimos, sendo, portanto, falsa”. De acordo com o laudo, essas “divergências gráficas” eram de pressão, remate e forma de uma das letras.

Ironicamente, foi o próprio Fabrício, alvo das acusações dos irmãos, quem pediu a perícia ao IC durante o inquérito policial. Inconformado com o resultado, posteriormente ele juntou ao processo outros dois laudos que refutavam as conclusões do IC, assegurando a autenticidade da assinatura.

As outras duas assinaturas questionadas eram digitais. O eixo dessas objeções concentrava-se numa alegada divergência entre os locais onde os documentos foram validados, em São Paulo, e onde Jorge se encontrava na ocasião, em Trancoso, na Bahia, além da suposta incapacidade do patriarca — debilitado pelo câncer — de analisar os documentos.

Arquivamento

Ocorre que nenhuma das acusações de Júlio e Juliana contra a mãe e o irmão foi acolhida pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP). O órgão arquivou o caso ao menos duas vezes. O arquivamento foi confirmado, em setembro de 2025, pelo procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa.

Na avaliação do MPSP, os “elementos de prova não se mostraram seguros o suficiente para apontar a real ocorrência de crime, nem mesmo de prejuízo às vítimas e vantagem indevida aos investigados mediante fraude, senão uma disputa familiar pela divisão da herança”.

“Amplos poderes”

No arquivamento, a promotoria afirmou ainda que Maria Elisa tinha uma procuração “com amplos poderes” dada pelo marido para assinar os documentos questionados. Além disso, segundo a promotoria, Jorge tinha consciência dos atos praticados, apesar da doença.

Quanto à assinatura do “MOU”, pivô dos laudos divergentes, disse o MP: “Com relação ao crime de falsidade ideológica, em que pese a materialidade tenha sido comprovada pelos laudos periciais que atestaram divergências na assinatura atribuída a Jorge Mitre (…), quando comparada com os padrões de sua assinatura fornecidos, tal falsidade foi verificada apenas neste documento, mas a autoria não foi identificada, não tendo sido possível apurar do punho de quem proveio a falsificação”.

O MPSP frisou que cinco pessoas supostamente assinaram o referido documento (Jorge, Maria Elisa, Fabrício e duas testemunhas). “Todavia, o laudo pericial não concluiu se a assinatura falsificada atribuída a Jorge Mitre proveio de algum deles”.

Em nota, a defesa Maria Elisa e Fabrício lamentam a postura dos filhos e irmãos, respectivamente. Ao mesmo tempo em que negam as acusações, o comunicado enviado à coluna também ataca Juliana.

“Em relação às acusações de desvio patrimonial e falsificação da assinatura de Jorge, o Ministério Público já investigou e arquivou o inquérito, bem como tentativas de reabertura subsequentes, uma vez que não foi identificado qualquer ato ilícito praticado por Fabrício ou Maria Elisa. O mesmo, porém, não foi constatado em relação à Juliana, que chegou a ser indiciada pela Polícia Civil de São Paulo por extorsão e desvio de recursos da conta bancária do pai. Também fez um acordo penal com pagamento de multa por fraude processual e foi excluída judicialmente de duas sociedades de empresas da área médica da família, por faltas e desvios considerados graves”.

Outros fronts

O imbróglio das assinaturas representou, porém, apenas uma etapa da extensa disputa. Depois disso, a guerra judicial da família agravou-se e a médica Juliana ganhou destaque no conflito.

Neste ano, ela sofreu vários reveses. Numa ação ajuizada pela mãe, Maria Elisa, Juliana foi excluída judicialmente da sociedade de duas empresas do Grupo HOSP (“Santana” e “USO”), nas quais detinha (em cada uma) 10% de participação. Em fevereiro de 2026, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) considerou que as atitudes da herdeira colocavam as empresas em risco civil, criminal e tributário.

Distância de 200 metros

Em agosto de 2026, uma medida cautelar impediu que Juliana se aproximasse de Fabrício, de quem ela deve manter uma distância mínima de 200 metros. A acusação é de perseguição contra o irmão mais velho, principalmente por meio de redes sociais, com mensagens e áudios com “conteúdo ofensivo, intimidatório e constrangedor”, enviados a “familiares e terceiros”, segundo a decisão do MPSP. No mesmo mês, ela foi indiciada pela Polícia Civil por crime de extorsão contra Fabrício.

Na polêmica mais recente, em setembro, Juliana foi indiciada por apropriação indevida e dilapidação de patrimônio do pai, após uma denúncia do irmão Júlio, que também incluiu no caso Maria Elisa, Fabrício e um advogado. A Polícia Civil não viu elementos que justificassem a acusação contra a mãe, o irmão mais velho e o advogado. No caso de Juliana, foram especialmente questionados repasses de R$ 700 mil para sua conta, em junho de 2022, poucos dias antes da morte do pai.

De acordo com o inquérito, Juliana foi sucessivamente chamada para prestar esclarecimentos sobre a origem, finalidade e justificativa das transferências recebidas. Ela, no entanto, não compareceu às convocações.

A defesa de Juliana afirma que ela trabalhou durante 30 anos como médica, cria três filhos e foi coadministradora do Grupo Hosp por um longo período. No entanto, após apresentar “diversos atos praticados direta ou diretamente por Maria Elisa e Fabrício Mitre e que visavam seus enriquecimentos ilícitos através do desvio de bens e ativos que compõem o espólio de seu pai, Dr. Jorge Mitre”, passou a ser alvo de ações acusatórias.

“Após se opor a tais atos e obter êxito em afastar Maria Elisa da administração das principais sociedades do Grupo Hosp e a sua destituição judicial da função de inventariante devido a graves suspeitas de desvios financeiros milionários em benefício dela e de seu irmão Fabrício Mitre, Juliana passou a ser alvo de um severo sufocamento financeiro, violência processual e diversas representações criminais temerárias, além de supostos atos de monitoramento clandestino e violência doméstica”, afirma a defesa.

A defesa de Júlio não quis se manifestar.