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Luva descartável rosa? Entenda a polêmica do nojo à menstruação

Após startup tentar resolver um "problema de higiene feminina" inexistente, terapeuta explica crença de que a menstruação é algo sujo

atualizado 30/04/2021 9:27

MenstruaçãoFoto: Ana Maria Serrano/Getty Images

Nos últimos dias, um produto criado por uma startup alemã causou polêmica nas redes sociais. A empresa – comandada por dois homens – criou um produto chamado Pinky Glove: uma luva descartável e cor de rosa para ser usada na hora de trocar o absorvente no período menstrual e também permitir um “descarte discreto” dele.

Os sócios da empresa, Andre Ritterswuerden e Eugen Raimkulow, explicaram que o objetivo da Pinky Glove era “resolver um problema de higiene feminina”. Não demorou para que o assunto repercutisse e fosse levantada a questão de period shaming – como se chama o ato de tratar a menstruação como algo sujo e que deve ser escondido.

De acordo com o terapeuta sexual André Almeida, a crença se enraizou na sociedade há muito tempo, e tem como raiz a visão religiosa arcaica de que a menstruação era um período de impureza corporal e espiritual da mulher.

“A mulher era mantida escondida em casa por sete dias, em uma espécie de resguardo. Parte disso perdura até hoje. Não se esconde mais a mulher como se fazia antigamente, mas a menstruação sim, e todos os processos envolvidos nela também”, explica.

Produtos como a Pinky Glove, segundo o psicólogo, apenas reforçam este tipo de pensamento. “Quando homens que não menstruam, como eu e os caras que inventaram a luvinha, tentam resolver um problema feminino sem perguntar para mulheres o que é que incomoda e pedir realmente o auxílio direto dela, infere-se o que é um problema. E a solução para este “problema” será embasada na crença da menstruação como algo impuro”, diz.

E este pensamento, no fim, acaba não interferindo apenas em como homens enxergam a menstruação, mas como as próprias mulheres e pessoas que menstruam enxergam seus períodos. “Como nós humanos somos seres sociais, processos como a conformidade às regras implícitas ou explícitas, escritas ou não, são muito fortes”, explica.

Desta forma, se toda uma sociedade vê algo como errado, a probabilidade de qualquer pessoa incorporar isso como verdade aumenta. Seja inconsciente ou conscientemente, para não ser excluído de alguma forma.

Um dos exemplos mais frequentes disso é o constrangimento com que as mulheres lidam desde criança quando o assunto é menstruação. “Toda e qualquer forma que ela puder esconder essa menstruação ela vai usar, porque se vier à tona, vai causar muita vergonha. Esse embaraço mostra justamente como a sociedade vê a menstruação como algo que não deveria estar alí”, afirma.

Machismo e patriarcado

Mas fica a pergunta: se a opinião das pessoas que menstruam é tão necessária nesse caso, por que a visão de dois homens prevalece? A estrutura machista e patriarcal da sociedade é o motivo.

Uma das falas que mais chamou a atenção dos internautas na apresentação dos produtos é a em que os sócios afirmam entender muito sobre mulheres “porque são casados e já dividiram casa com mulheres”.

Segundo André, a prepotência dos homens enquanto pessoas que sempre estiveram no topo da hierarquia social de gênero, faz com que eles acreditem ter poder para entender as mulheres, até mais que elas próprias.

“Então, só pela observação, e não pela vivência, ele é capaz de inferir que aquilo é um problema, ou é frescura. Que mulher gosta disso ou precisa daquilo. É um olhar de superioridade sobre as mulheres e sobre todas as questões que envolvem o ser mulher”, finaliza.

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