Mirelle Pinheiro

Pacientes acusam dentista de deformações após procedimentos faciais. Veja vídeo

À coluna, pacientes relataram sequelas após serem submetidos a procedimentos pela dentista. Ela nega as acusações

atualizado

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Caso Priscilla Bolva
1 de 1 Caso Priscilla Bolva - Foto: Material cedido ao Metrópoles

Rotina engolida por uma série de consultas, cirurgias em sequência, angústia ao se olhar no espelho e até mesmo limitações ligadas aos nervos faciais. Um grupo de pacientes procurou a Polícia Civil para fazer denúncias graves contra Priscilla Bovo, cirurgiã-dentista que seria, supostamente, responsável por deformações em suas faces — que surgiram após serem submetidos a cirurgias realizadas por ela.

À coluna, dois pacientes relataram a aflição que têm sentido desde que saíram do centro cirúrgico da dentista, localizado em Ribeirão Preto (SP).

Um dos ex-pacientes é Evandro, que preferiu se identificar apenas pelo primeiro nome. Em entrevista, ele contou que conheceu o trabalho de Bovo após diversas pesquisas na internet. O objetivo era colocar uma prótese estética no queixo e retirar um preenchimento feito em sua face, por outro profissional, com PMMA.

“Eu estava considerando médicos superqualificados, e ela falava que tinha mestrado em medicina na USP, que havia feito residência na Universidade da Flórida e que tinha mais de 25 anos de experiência em cirurgias faciais. Resumindo: eu estava morando na Áustria e saí de lá só para fazer uma consulta presencial com ela em Ribeirão Preto.”

Depois da primeira consulta, Evandro retornou ao Brasil para ser submetido ao procedimento. Em 26 de novembro de 2025, a cirurgia foi realizada pela dentista, mas, dias depois, ele teria começado a apresentar complicações infecciosas.

De acordo com Evandro, Bovo ainda teria realizado uma bichectomia sem o seu consentimento, descoberta apenas durante o segundo procedimento, já com outro profissional.

“Quando o doutor abre o meu rosto, ele descobre os procedimentos clandestinos que ela tinha feito. Ele gravou a cirurgia: havia gordura apodrecendo em cima da prótese que ela havia colocado no meu rosto. Eu estava com uma infecção gravíssima”, denunciou.

Agora, Evandro terá de passar por uma lipoenxertia no local onde foi realizada a bichectomia, com o intuito de preservar o sorriso e a fala. “Estou desde o início de novembro em função disso. Não consegui voltar mais para a Áustria.”

As denúncias

De acordo com os pacientes, os procedimentos teriam sido realizados em um contexto que levantou dúvidas sobre a qualificação profissional apresentada. Documentos assinados, como termos de consentimento, indicariam que a profissional se identificava como médica durante as consultas.

Após verificação junto ao Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, as vítimas afirmam que o número do suposto CRM informado por Bovo corresponderia, na realidade, a um profissional da área de ginecologia e obstetrícia, e não à dentista citada.

As vítimas, que denunciaram a profissional aos conselhos competentes, relatam impactos profundos não apenas na saúde física, mas também emocional e social, em razão das sequelas deixadas pelos procedimentos.

À coluna, uma paciente que preferiu não se identificar relatou que chegou ao centro cirúrgico com dois nódulos na face e teve complicações graves após o procedimento, incluindo paralisia facial.

“Ela me afirmou que tinha um protocolo único e garantiu que não haveria risco de lesão nos nervos faciais. Então fiz a cirurgia em julho de 2025 para remoção de hidrogel na região malar. No dia seguinte, acordei com paralisia facial. Informei a profissional e fui orientada a fazer fisioterapia por seis meses, pois seria algo normal e que iria voltar.”

A paciente afirma que, com o passar do tempo, percebeu que a fisioterapia não estava dando resultado e que as sequelas da paralisia estavam se tornando cada vez mais evidentes.

“Insisti em fazer um exame de eletroneuromiografia e fiquei sabendo da gravidade da lesão três meses depois. Essa demora em iniciar o tratamento adequado me causou muitos prejuízos, pois lesões nos nervos e paralisias precisam de tratamento rápido, e o tempo conta muito.”

O outro lado

Ambos os pacientes afirmam que tinham rostos simétricos e perfeitamente normais antes dos procedimentos. Bovo, no entanto, alega que eles já chegaram ao consultório com deformidades. Apesar disso, fotos dos entrevistados indicariam que as sequelas teriam surgido após as cirurgias.

Após a repercussão do caso, a dentista se manifestou por meio de um vídeo publicado nas redes sociais.

“Eu tenho quase 30 anos de formação e dedicação contínua. Os pacientes que eu opero chegam até mim já com deformidades faciais graves causadas por material permanente implantado na face, material esse proibido para fins estéticos. Esse material se infiltra nos tecidos, acometendo nervos, vasos e músculos”, afirmou.

Segundo a profissional, os riscos e possíveis complicações são discutidos previamente com os pacientes, que assinam termos de consentimento antes dos procedimentos. “Eu já realizei mais de 150 cirurgias de remoção desse tipo de material”, disse.

Por fim, Bovo contestou questionamentos sobre o uso de registro profissional e afirmou que eventuais divergências teriam sido resultado de falha técnica.

“Chegaram ao cúmulo de dizer que eu uso o CRM quando o jurídico do hospital já esclareceu, por meio de documentos, que se trata de um erro de software. Trocaram a letra ‘OM’ pela letra ‘M’ e mantiveram o mesmo número.”

Em nota, a defesa de Bovo sua atuação é direcionada ao tratamento de pacientes que apresentam complicações graves decorrentes de procedimentos realizados por terceiros, especialmente com uso de PMMA e materiais permanentes em geral, e não à realização de procedimentos puramente estéticos.

“Os casos atendidos envolvem risco elevado, amplamente esclarecido e formalmente aceito pelos pacientes por meio de termos de consentimento, em conformidade com protocolos médicos rigorosos.”
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Um grupo de pessoas denuncia Priscilla Bovo
Os pacientes alegam que não tinham deformidades antes dos procedimentos
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Os pacientes alegam que não tinham deformidades antes dos procedimentos

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Um grupo de pessoas denuncia Priscilla Bovo
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Um grupo de pessoas denuncia Priscilla Bovo

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A necessidade de qualificação

O perito Fernando Esbérard alertou para os riscos de procedimentos estéticos realizados por profissionais sem a devida qualificação técnica. Segundo ele, intervenções cirúrgicas na face exigem conhecimento aprofundado da anatomia e preparo específico para evitar complicações graves e sequelas permanentes.

“A realização dessas cirurgias estéticas por pessoas não habilitadas coloca os pacientes em risco de complicações graves. A face possui uma anatomia complexa e altamente vascularizada, com muitos vasos sanguíneos, nervos e órgãos dos sentidos.”

Marcelo Prado, cirurgião plástico e conselheiro do Conselho Federal de Medicina pelo estado de Goiás, afirmou que a retirada de substâncias permanentes da face envolve riscos significativos e, em determinados casos, pode ultrapassar os limites de atuação da odontologia.

“Isso não é área de atuação da odontologia, porque a odontologia atua na região do aparelho estomatognático. Mesmo sendo bucomaxilofacial, a atuação está ligada à mastigação, deglutição, aos dentes e às estruturas relacionadas a essa função”, explicou.

O especialista ressaltou que a remoção dessas substâncias pode provocar lesões nervosas graves e permanentes, exigindo tratamentos altamente especializados.

“Essas retiradas de produto são como uma cirurgia de câncer. Ao retirar o material, existe probabilidade de lesão nervosa, sendo necessário, muitas vezes, fazer uma microcirurgia, um transplante de nervo, e quem vai cuidar disso é um médico cirurgião ou um cirurgião plástico, provavelmente”, afirmou.

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