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Mirelle Pinheiro

Naskar: prisão de sócios expõe avó de 77 anos no centro do esquema



Marcelo Liranco Arantes, Rogério Vieira e José Maurício Volpato, ex-jogador de vôlei conhecido como Maurício Jahu, foram presos em São Paulo

22/07/2026 20:41
Naskar: prisão de sócios expõe avó de 77 anos no centro do esquema


Naskar: prisão de sócios expõe avó de 77 anos no centro do esquema



A operação que resultou na prisão dos três fundadores da Naskar pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), nesta quarta-feira (22/7), também apura outra frente de investigação sobre o rombo estimado em R$ 900 milhões que atingiu milhares de investidores. O golpe foi revelado pelo Metrópoles.

Documentos obtidos pela coluna mostram que, pouco antes da operação, o controle da fintech foi transferido para uma viúva de 77 anos, moradora de Uberlândia (MG), por meio de uma sucessão de alterações societárias que agora estão no radar das autoridades.

Como a coluna revelou em primeira mão, Marcelo Liranco Arantes, Rogério Vieira e José Maurício Volpato, ex-jogador de vôlei conhecido como Maurício Jahu, foram presos em São Paulo durante a operação da PCDF.

Segundo as investigações, a Naskar captava recursos prometendo rentabilidade de 2% ao mês, percentual muito acima do praticado pelo mercado, até interromper os pagamentos aos investidores em maio deste ano.

Os documentos analisados pela coluna indicam que, antes do colapso da empresa, foi montada uma sequência de mudanças societárias que, na avaliação de investigadores, apresenta características compatíveis com uma estratégia de blindagem patrimonial.

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Da gestora americana à avó de 77 anos

Depois que a Naskar retirou o aplicativo do ar e rompeu a comunicação com clientes, foi divulgado um comunicado informando que a empresa havia sido vendida por R$ 1,2 bilhão para uma suposta gestora norte-americana chamada Azara.

Os registros oficiais da Junta Comercial de São Paulo, entretanto, mostram outra realidade.

Quem apareceu como comprador formal da empresa foi Douglas Silva de Oliveira, de 25 anos.

Segundo documentos do próprio processo, ele declarou renda mensal de R$ 1,8 mil e possui histórico de ações judiciais, incluindo despejo e processos por estelionato. Meses antes do colapso da fintech, Douglas ainda alterou oficialmente seu sobrenome para “Azara”.

A situação ficou ainda mais curiosa poucos dias depois. Em 28 de maio deste ano, Douglas transferiu 100% das quotas da Naskar para sua avó materna, Célia de Fátima Ferreira, de 77 anos, viúva e moradora de Uberlândia.

Cláusulas para proteger patrimônio

A transferência não ocorreu de forma comum. Os documentos registrados na Junta Comercial mostram que as quotas foram repassadas com cláusulas de impenhorabilidade, incomunicabilidade e inalienabilidade, mecanismos jurídicos normalmente utilizados para dificultar constrições patrimoniais e proteger bens contra credores.

Outro detalhe chamou a atenção da investigação. O formulário de alteração societária assinado pela nova proprietária traz como e-mail de contato o endereço diretoria@7trust.com.br.

A 7Trust pertence justamente ao grupo controlado pelos antigos sócios da Naskar — os mesmos presos nesta quarta-feira. Para os investigadores, o dado enfraquece a narrativa de que a chamada “nova gestão” seria independente dos fundadores originais.

Família endividada

A aquisição também levanta dúvidas sobre a capacidade financeira da família. Documentos judiciais mostram que, desde 2022, familiares de Douglas acumulavam execuções bancárias superiores a R$ 1 milhão.

Em 2023, o próprio Douglas respondeu a uma ação de despejo por falta de pagamento de aluguel em Brasília.

Pouco tempo depois, no mesmo endereço, passaram a funcionar empresas da família que declaravam capital bilionário e se apresentavam como instituições de pagamento, apesar de não possuírem autorização do Banco Central.

Vítimas ainda aguardam ressarcimento

Enquanto isso, milhares de investidores continuam sem receber os valores aplicados.

Quem procura a empresa é direcionado para um atendimento automatizado no WhatsApp identificado como Azara Capital LLC, que solicita CPF, dados bancários e informações pessoais sob a promessa de futuros pagamentos.

Especialistas ouvidos pela coluna avaliam que o procedimento pode representar riscos aos investidores, inclusive sob a ótica da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), já que os ressarcimentos prometidos não foram efetivados até o momento.

Poucos dias antes da operação policial, Douglas publicava nas redes sociais imagens em festas de luxo na costa brasileira, ao lado de empresários do setor de apostas, exibindo um padrão de vida que contrasta com a renda declarada e com a situação financeira apontada nos documentos judiciais. Conforme a coluna revelou, ele estaria em Dubai.