
Mirelle PinheiroColunas

MP diz que ambiente em algumas delegacias lembra trabalho escravo
O MP apura casos de assédio moral, saúde mental e relações hierárquicas em delegacias da Polícia Civil de Picos
atualizado
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O Ministério Público do Piauí (MPPI) instaurou um procedimento administrativo para investigar possíveis casos de assédio moral e acompanhar as condições de saúde mental e relações hierárquicas em delegacias da Polícia Civil de Picos, no interior do estado.
A medida foi oficializada por meio de portaria assinada pelo promotor de Justiça Maylton Rodrigues de Miranda, responsável pelo controle externo da atividade policial na região.
No documento, o MP afirma que há necessidade de aprofundar apurações sobre relatos de tensão no ambiente de trabalho policial, incluindo a oitiva de possíveis vítimas e representantes sindicais.
Entre os elementos citados na portaria estão afastamentos de delegados por problemas psicológicos, considerados pelo órgão como um cenário “incomum e preocupante”.
Segundo o procedimento, inspeções realizadas em 2025 identificaram que ao menos dois delegados estavam afastados por questões de saúde mental, número equivalente a cerca de 20% do efetivo local.
O documento também menciona o caso do delegado Guilherme Tavares Escobar Morgado, que morreu em Oeiras e havia trabalhado anteriormente em Picos. Segundo a portaria, ele se encontrava afastado por problemas psicológicos relacionados ao exercício das funções.
Cartazes rasgados e tensão com sindicato
Outro episódio citado envolve uma delegada que teria rasgado cartazes de uma campanha sindical voltada à prevenção do assédio moral nas unidades policiais.
Para o Ministério Público, o caso não se resume apenas ao ato de destruir os materiais, mas pode indicar uma situação mais ampla de animosidade institucional em relação à entidade sindical e às discussões sobre saúde laboral.
A portaria também menciona intervenções do sindicato em delegacias da região e destaca que práticas de assédio em ambientes policiais podem agravar situações críticas, especialmente pelo fato de os profissionais trabalharem armados.
“O exercício da atividade sob condições psicológicas indevidas assemelha-se ao trabalho escravo”, registra trecho do documento.
Audiência marcada
Como primeiras medidas, o MP determinou comunicação aos órgãos internos, acionou o Grupo de Apoio ao Controle Externo da Atividade Policial e marcou audiência extrajudicial para o dia 29 de maio.
Na ocasião, será ouvido representante da entidade sindical ligada aos policiais civis.
O presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Carreira do Estado do Piauí, Isaac Vilarinho, afirmou que a categoria acompanha o procedimento e defende a criação de protocolos específicos para prevenção ao assédio moral dentro da Polícia Civil.
Segundo ele, há relatos semelhantes em outras regiões do estado e o tema exige debate mais amplo sobre saúde mental entre policiais civis.
O procedimento segue em andamento e ainda não há conclusão sobre eventuais responsabilidades.




