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Mirelle Pinheiro

Milícia de Vorcaro acessava sistemas do FBI para espionar rivais

O grupo atuava de maneira organizada e remunerada, com divisão de tarefas e coordenação centralizada, segundo a PF

atualizado

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Empresario Daniel Vorcaro
1 de 1 Empresario Daniel Vorcaro - Foto: Divulgação

Uma troca de mensagens no WhatsApp ajudou a expor, segundo a Polícia Federal, o funcionamento de uma estrutura clandestina criada para proteger os interesses do Banco Master.

Em um dos diálogos recuperados pelos investigadores, o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, sugere que um jornalista seja seguido para que se obtenha “tudo” sobre ele.

Do outro lado da conversa, está Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, identificado nas investigações pelo apelido de “Sicário”. Ele diz que providenciará o monitoramento.

A conversa integra o conjunto de provas que embasou a nova fase da Operação Compliance Zero.

Na decisão de 48 páginas que autorizou medidas cautelares no caso, o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça descreve a existência de uma estrutura paralela que funcionaria como uma espécie de milícia privada, voltada ao monitoramento e à intimidação de pessoas consideradas ameaças aos interesses do grupo econômico ligado ao Banco Master.

De acordo com a decisão judicial, essa estrutura, conhecida internamente como “A Turma” , teria sido utilizada para acompanhar jornalistas, levantar informações sobre adversários, vigiar ex-funcionários e antecipar riscos para o banqueiro e seus aliados.

“Sicário”

No centro desse núcleo, aparece Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão. Identificado nos autos pelo apelido “Sicário”, que ele próprio utilizava nas conversas, Mourão seria o responsável por coordenar as atividades operacionais.

Segundo a Polícia Federal, cabia a ele organizar equipes de vigilância, localizar alvos e reunir informações consideradas sensíveis para o grupo.

A investigação também aponta que Mourão teria recorrido a métodos ilegais para acessar dados sigilosos.

De acordo com os autos citados na decisão do STF, ele realizava consultas em sistemas restritos utilizando credenciais pertencentes a terceiros. Com esse expediente, teria conseguido acessar bases de dados de órgãos públicos brasileiros e até sistemas ligados a instituições internacionais, como FBI e Interpol.

O alcance dessas consultas e a forma como um grupo privado conseguiu acessar bases de dados de órgãos policiais estrangeiros ainda são pontos que a investigação tenta esclarecer.

Além de coletar dados, Mourão também teria coordenado uma frente digital destinada a conter críticas ao banco.

Segundo os investigadores, ele organizava ações para remover conteúdos e perfis em redes sociais, chegando a simular solicitações institucionais de autoridades públicas para pressionar plataformas a excluir publicações consideradas negativas para o grupo.

Pagamentos milionários

A decisão do STF também descreve o que seria a estrutura financeira por trás de “A Turma”. Conversas analisadas pela Polícia Federal indicam que Mourão receberia cerca de R$ 1 milhão por mês para manter a operação funcionando.

Nos diálogos citados nos autos, o investigado detalha como o dinheiro seria distribuído entre integrantes da equipe, incluindo pessoas responsáveis por monitoramento presencial e produção de conteúdos favoráveis ao grupo.

Parte dos valores ficaria com o próprio coordenador, enquanto outra parcela seria repassada a colaboradores.

A transferência dos recursos, segundo os investigadores, ocorria por meio de intermediários ligados ao grupo.

Uma funcionária próxima a Vorcaro aparece nas mensagens perguntando se o valor a ser transferido seria “um milhão como normalmente”, antes de realizar o pagamento para uma conta indicada por Mourão.

De acordo com a Polícia Federal, o fluxo financeiro, que envolvia repasses indiretos e empresas intermediárias, teria sido estruturado para dificultar o rastreamento dos valores, configurando indícios de lavagem de dinheiro.

Ordens para intimidar críticos

Os diálogos reunidos pela investigação também revelam discussões sobre possíveis retaliações contra jornalistas e outras pessoas consideradas adversárias do grupo.

Em uma das conversas, Mourão cita um profissional da imprensa que publicava reportagens críticas ao banqueiro.

Vorcaro sugere que o jornalista seja seguido para que se obtenham informações pessoais. Em outra troca de mensagens, o banqueiro chega a mencionar a possibilidade de uma agressão simulada como assalto.

Para o ministro André Mendonça, os diálogos indicam a existência de uma dinâmica em que Vorcaro emitia ordens e Mourão atuava como executor das ações.

Na decisão, o magistrado afirma haver indícios de que o objetivo seria intimidar críticos e desestimular a publicação de conteúdos desfavoráveis ao grupo.

Ex-policial federal no esquema

Entre os integrantes da estrutura apontada pela investigação, está também Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado. Segundo os autos, ele teria integrado o núcleo responsável pela coleta de informações e vigilância de pessoas consideradas relevantes para a organização.

A decisão do STF aponta que Marilson utilizaria sua experiência e seus conhecimentos da área de segurança para auxiliar nas atividades de monitoramento e levantamento de dados.

STF

Outro ponto destacado na decisão é o fato de o ministro André Mendonça ter autorizado as medidas cautelares mesmo após manifestação contrária da Procuradoria-Geral da República, que havia sugerido mais tempo para análise do caso.

Ao justificar a decisão, o magistrado afirmou que a demora poderia colocar em risco pessoas que teriam sido alvo das ações investigadas. Para ele, havia indícios suficientes de que a estrutura descrita nos autos poderia continuar atuando e interferindo nas investigações.

Prisões e medidas cautelares

Com base nesses elementos, o STF determinou a prisão preventiva de quatro investigados e impôs medidas cautelares a outros envolvidos.

Entre os alvos de prisão, estão o banqueiro Daniel Bueno Vorcaro, o empresário Fabiano Campos Zettel, o operador Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão e o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva.

 

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