
Mirelle PinheiroColunas

Governador de RR é citado pela PF como articulador de fraude em licitações
Diante da presença de uma autoridade com foro privilegiado, a própria Polícia Federal pediu o envio do caso ao Tribunal de Justiça
atualizado
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A Polícia Federal (PF) identificou indícios de que o atual governador de Roraima, Edilson Damião (União Brasil), atuou como “chefe do braço operacional” de um esquema de fraudes em licitações e desvio de recursos públicos na Secretaria Estadual de Infraestrutura (Seinf).
A apuração consta em inquérito, obtido pela coluna. A investigação avançou após a prisão do empresário Clóvis Braz Pedra, em janeiro deste ano, e ganhou novo rumo com a análise de celulares apreendidos pela PF.
Foi a partir desse material que os investigadores passaram a apontar o envolvimento direto de integrantes do alto escalão do governo estadual.
Diante da presença de uma autoridade com foro privilegiado, a própria Polícia Federal pediu o envio do caso ao Tribunal de Justiça de Roraima.
A decisão judicial confirma a mudança de instância e registra que há “indícios da participação de agente público detentor de foro por prerrogativa de função” .
O esquema, segundo a PF
No centro da investigação está a empresa C.B. Pedras Serviços e Construções Ltda., ligada a Clóvis Braz Pedra.
De acordo com a PF, a construtora funcionava como peça formal de um esquema mais amplo, vencendo licitações e viabilizando contratos públicos enquanto a execução e a distribuição dos recursos seguiriam outra lógica.
A investigação descreve uma divisão clara de papéis. Clóvis aparece como o operador empresarial, responsável por dar aparência legal aos contratos.
Já o ex-chefe da Casa Civil, Disney Barreto Mesquita, é apontado como o responsável pelo fluxo financeiro, atuando na lavagem de dinheiro por meio de uma rede de empresas.
No topo desse arranjo, segundo a PF, estaria Edilson Damião, que à época ocupava simultaneamente os cargos de vice-governador e secretário de Infraestrutura.
Contratos milionários
Os números chamam atenção. A PF identificou saques em espécie que somam pelo menos R$ 1,7 milhão, sem justificativa plausível.
“Saques em espécie no montante aproximado de R$ 1.749.200,00, sem justificativa plausível”
Além disso, a empresa C.B. Pedras acumulou contratos expressivos com o governo estadual. Entre 2021 e 2025, os pagamentos ligados à Secretaria de Infraestrutura ultrapassaram R$ 162,9 milhões .
Licitações sob medida
Um dos pontos mais importantes do inquérito é a forma como os contratos eram conduzidos.
A PF identificou que grandes licitações foram realizadas de forma presencial, apesar da preferência legal por pregões eletrônicos.
A justificativa oficial, assinada pelo então secretário Edilson Damião, alegava necessidade de favorecer empresas locais e reduzir custos logísticos.
Para os investigadores, no entanto, esse tipo de argumento indica restrição indevida à concorrência e possível direcionamento dos contratos.
Bastidores
A investigação ganhou força com a extração de dados dos celulares apreendidos. Segundo a PF, foi nesse material que surgiram os indícios mais sensíveis.
As mensagens mostram uma relação direta e frequente entre Clóvis Braz e Edilson Damião, marcada por comunicação informal e, em alguns casos, considerada “crítica” pelos investigadores, frequentemente seguida por ligações telefônicas sem registro.
Em um dos trechos citados no inquérito, Clóvis cobra a liberação de pagamentos e trata a empresa como se fosse compartilhada: “Vai ter empenho para a nossa empresa C B Pedra? O Sr. Disney falou comigo…”
Para a PF, o uso da expressão “nossa empresa” é um dos elementos que indicam possível vínculo direto entre o empresário e o então secretário.
Planilha
Um dos elementos mais contundentes do inquérito é uma imagem encontrada no celular de Clóvis Braz.
O material mostra uma planilha de emendas parlamentares enviada por Edilson Damião, na qual aparece, escrito à mão, o nome “Clóvis” ao lado de uma obra pública.
O dado chama atenção porque o documento teria sido enviado meses antes da publicação oficial do edital da licitação.
“Testa de ferro”
Outra conversa encontrada pela PF reforça a suspeita de que a empresa de Clóvis não executava diretamente os serviços contratados.
Em mensagem, ele afirma: “O que rola lá não é meu, você sabe disso. Vivo das placas”
Para a PF, o trecho indica que a empresa funcionaria como “testa de ferro”, sendo utilizada para vencer licitações enquanto outras empresas executariam as obras e participariam da divisão dos recursos.
O caso tramita sob sigilo. A investigação agora está sob supervisão do Tribunal de Justiça de Roraima, que deverá decidir sobre eventuais desdobramentos, incluindo a possibilidade de denúncia formal. A coluna entrou em contato com o governador, mas ainda não teve retorno.
