Colapso: MP pede que Neoenergia pague R$ 86 milhões por apagões no DF
O valor corresponde a 2% do lucro líquido da concessionária em 2024, estimado em R$ 4,3 bilhões

A coluna apurou, com exclusividade, que o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) requereu que a Neoenergia Distribuição Brasília seja condenada ao pagamento de R$ 86 milhões por danos morais coletivos, em razão de interrupções frequentes, prolongadas e recorrentes no fornecimento de energia elétrica em diversas regiões do DF.
O pedido, obtido pela coluna, ocorreu no âmbito de um inquérito civil que apura falhas estruturais e persistentes na prestação do serviço, considerado essencial.
O valor corresponde a 2% do lucro líquido da concessionária em 2024, estimado em R$ 4,3 bilhões, e deverá ser revertido ao Fundo de Defesa de Direitos Difusos (FDD).
“Zonas de sacrifício” e estado de calamidade
De acordo com o MP, a análise técnica revelou a existência de verdadeiras “zonas de sacrifício” no Distrito Federal, em que o fornecimento de energia ocorre em regime de calamidade contínua, com índices muito acima dos limites regulatórios da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Entre no canal de WhatsApp da Coluna Mirelle PinheiroEntre os casos mais graves, está o da região do PAD-Jardim, onde os moradores ficaram, em média, mais de 41 horas sem energia em 2024, ultrapassando em 231% o limite permitido.
O Vale do Amanhecer, em Planaltina, também aparece com quadro crônico, operando há anos com quase o dobro do tempo máximo de interrupção tolerado pela regulação.
Outras áreas, como Grande Colorado, Sobradinho, Mangueiral e Paranoá, acumulam descumprimento sistemático das metas por pelo menos três anos consecutivos, segundo o documento.
Efeito rebote e falha estrutural
O MPDFT também identificou o chamado “efeito rebote” – ou seja, após queda no número de compensações automáticas pagas aos consumidores entre 2022 e 2024, houve aumento de mais de 25% em 2025, indicando que as medidas adotadas pela empresa não foram sustentáveis nem estruturais.
Além disso, o valor médio pago por compensação aumentou de forma contínua, o que, segundo o MP, demonstra que as quedas de energia estão se tornando mais longas e severas, agravando prejuízos a residências, comércios e produtores rurais.
Responsabilidade objetiva e dano moral coletivo
Para o Ministério Público, a Neoenergia responde de forma objetiva pelos danos causados, nos termos do Código de Defesa do Consumidor e da Constituição Federal.
O despacho afasta a tese de caso fortuito ou força maior, destacando que chuvas e eventos climáticos são previsíveis e fazem parte do risco da atividade.
O órgão sustenta que a situação configura dano moral coletivo presumido, dispensando prova individual de sofrimento, diante da violação massiva e reiterada de direitos fundamentais da população, como saúde, trabalho, segurança e dignidade.
Próximos passos
Antes de ajuizar ação civil pública, o MPDFT sinaliza a possibilidade de tentativa de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). Entre as exigências, estão:
• pagamento dos R$ 86 milhões em danos morais coletivos;
• indenização por danos materiais a consumidores afetados;
• apresentação de projetos para novas subestações em áreas críticas;
• plano intensivo de manutenção preventiva;
• monitoramento externo independente da rede elétrica.
Caso não haja acordo, o Ministério Público indica que seguirá com a judicialização do caso.
Outro lado
Em nota, a Neoenergia informou que não foi oficialmente notificada sobre o despacho. “Mas é importante destacar que, desde 2021, quando assumiu a distribuição de energia no Distrito Federal, a empresa destinou mais de R$ 1,2 bilhão à ampliação e modernização da rede, acompanhando o crescimento do DF e aprimorando a confiabilidade do sistema. Nas três regiões mencionadas pelo MPDFT, por exemplo, os aportes superam R$ 125 milhões.”
Ainda segundo o texto, “todas elas já têm apresentado evolução nos indicadores de qualidade, tendo a redução média do tempo sem energia em 42%. A frequência das interrupções também diminuiu, em média, 34% nessas três regiões. Os números demonstram que o conjunto de ações adotadas vem aumentando a estabilidade do fornecimento e ampliando a segurança da população. A companhia mantém um plano estruturado de investimentos, que prevê mais R$ 1,2 bilhão para os próximos cinco anos, com foco na expansão da infraestrutura, inclusão social e fortalecimento da resiliência do DF”.





