Virada de Lula: erros de Flávio e eleitores que ignoraram seus líderes
Debates explosivos, mobilização digital e votos de Cury e Renan que não seguiram o roteiro explicam a primeira virada presidencial do Brasil
26/10/2026 06:00

Na noite de 4 de outubro, a matemática parecia resolvida. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,04% dos votos válidos, 56,1 milhões de eleitores, contra 45,15% de Lula, que somou 53,8 milhões. Em seguida vieram os apoios formais de Augusto Cury, Ronaldo Caiado e Romeu Zema. Somando a vantagem inicial ao histórico de segundos turnos e às adesões, análises chegaram a atribuir ao senador mais de 80% de chance de vitória. Vinte e um dias depois, Lula foi reeleito com cerca de 51,7%. Nunca antes um candidato à Presidência havia virado a disputa depois de terminar o primeiro turno atrás.
A explicação começa num detalhe que as pesquisas mostravam e a leitura dominante subestimava: os eleitores não seguiram os líderes. O caso mais eloquente é o de Augusto Cury. O escritor, terceiro colocado com 2,89%, declarou apoio a Flávio em 8 de outubro. Exigiu em troca a assinatura de um termo de compromisso com educação, valorização dos professores, proteção às mulheres e pacificação nacional. Seu eleitorado fez o caminho oposto. Segundo a Quaest, entre quem votou em Cury, Lula saltou de 34% para 48%, enquanto Flávio oscilou de 30% para 33%.
A contradição fica menos estranha quando se olha a obra do autor. O Vendedor de Sonhos, seu maior sucesso, tem como herói um morador de rua que critica o consumismo e a idolatria do dinheiro. Pais Brilhantes, Professores Fascinantes e Ansiedade tratam educação e saúde mental como questões coletivas. Cury se define com “mente de direita e coração social”. Seus leitores parecem ter votado com o coração. E o segundo turno ofereceu episódios que se chocavam com a pauta de empatia e pacificação que ele prega.
Renan Santos produziu um efeito diferente, mas na mesma direção. O líder do Missão, quarto colocado com 2,24%, recusou apoio a qualquer um dos dois. Disse ter “asco” de Flávio, chamou de “humilhado” quem votasse no 22 e anunciou que justificaria o voto. Seu eleitorado, mais ideológico que fisiológico, não migrou para Lula em massa: 51% preferiram Flávio. Mas um quarto foi para o petista, cuja fatia nesse grupo subiu de 14% para 25%. Para um campo de direita antipetista, o vazamento é raro.
Enquanto a transferência emperrava, Flávio acumulava tropeços. Na véspera do primeiro turno, disse que não haveria segundo e que já marcava reuniões para montar o governo. O clima de “já ganhou” foi explorado pelos adversários. No debate da Band, em 18 de outubro, Lula o confrontou por ter atuado na defesa do policial militar acusado de matar a menina Ana Clara, de cinco anos, em Niterói. Flávio respondeu que a advocacia não pode ser criminalizada. As buscas pelo caso dispararam.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesO debate da Globo, no dia 23, concentrou os piores momentos. Flávio disse que Lula “dá com uma mão e tira com os nove dedos”, em referência ao acidente de trabalho em que o presidente perdeu o dedo, e depois pediu desculpas. Diante da mãe de Ana Clara, presente na plateia, chamou-a pelo nome da filha morta. Ao falar de saneamento, descreveu Belém com esgoto a céu aberto, urubus e “cheiro ruim”, o que provocou revolta de paraenses nas redes. No Nordeste, o próprio campo bolsonarista errou. Um vídeo de Nikolas Ferreira com nordestinos criticando Lula foi classificado por aliados de Flávio como um erro, por ter sido lido como depreciativo ao eleitor da região.
Do lado petista, a resposta foi organização. Logo após o primeiro turno, o deputado André Janones transformou o canal “Exército do Lula”, no WhatsApp, numa central de distribuição de conteúdo. O canal passou de 6 milhões de seguidores. Em alcance bruto, Nikolas venceu, com 50,7 milhões de interações contra 23 milhões de Janones. A diferença estava no método. Em vez de falar para uma plateia grande e já convertida, Janones deu missões aos militantes: compartilhar, comentar, levar o material a grupos de família e de bairro, onde estão os indecisos e os que costumam faltar.
O resultado apareceu nas urnas. Mais de 3 milhões de eleitores que haviam se ausentado em 4 de outubro votaram no dia 25. Brancos e nulos caíram de cerca de 6 milhões para 4,2 milhões. A margem se moveu a favor de Lula em 93,8% dos municípios, e Minas Gerais, termômetro histórico, virou.
Flávio não reconheceu a derrota e anunciou que pedirá a anulação do pleito. Ele alega que a prorrogação da votação por duas horas, determinada pelo ministro Cristiano Zanin, quebrou a isonomia entre os estados. A prorrogação, porém, atendia a pedidos das duas campanhas, e especialistas consideram remotas as chances de anulação. Seja qual for o desfecho judicial, a eleição de 2026 deixa uma lição. Apoio de cúpula não é transferência automática, e num segundo turno decidido por margens estreitas, perde quem erra mais e mobiliza menos.

