Tal pai, tal filho, Flávio repete Jair e não reconhece vitória de Lula
Com 4,43 milhões de votos de diferença, o dobro de 2022, nenhum cálculo com as duas horas extras de votação sustentaria o pedido de anulação
26/10/2026 07:00

Quando perdeu para Lula em 30 de outubro de 2022, Jair Bolsonaro se trancou no Alvorada e ficou quase dois dias calado. Não ligou para o adversário. Quando finalmente apareceu, falou por dois minutos e não reconheceu a derrota, apenas deixou Ciro Nogueira cuidar da transição. Semanas depois, o PL foi ao TSE pedir que votos de urnas antigas fossem invalidados, e saiu de lá com o pedido negado e uma multa de R$ 22,9 milhões por litigância de má-fé.
Flávio Bolsonaro não esperou dois dias. Na noite deste domingo (25/10), poucas horas depois de confirmada a vitória de Lula, disse em Brasília que é impossível reconhecer o resultado e que vai pedir a anulação da eleição. Mirou no ministro Cristiano Zanin, acusado por ele de mudar a regra no meio do jogo para atender um ex-sócio. Em 16 de outubro, o mesmo Flávio tinha prometido aceitar qualquer resultado.
O pai deixou a dúvida no ar e entregou a briga ao partido e aos apoiadores na porta dos quartéis. O filho foi direto ao microfone. Em 2022 a culpa era da urna eletrônica, agora é do Supremo. Muda o alvo, mas a ideia é a mesma, transformar a derrota em suspeita e a suspeita em combustível para manter a base acesa. Até o capítulo internacional se repete, com Eduardo Bolsonaro trabalhando em Washington para que o governo Trump não reconheça a vitória de Lula.
É verdade que, desta vez, há um fato concreto na mesa. O domingo foi tumultuado. Chuvas derrubaram voos em São Paulo, faltou ônibus em capitais como São Paulo e Salvador, e a Polícia Federal abriu inquérito para entender por quê. As duas campanhas pediram mais tempo de votação. A de Lula queria a extensão no país inteiro. A de Flávio pediu só para estados do Sul e do Sudeste, justamente onde ele tinha vencido no primeiro turno. Zanin decidiu depois das 17h e estendeu o horário até as 19h, mas logo esclareceu que a medida só valia onde as seções ainda estavam abertas. Na prática, a aplicação foi desigual. O ministro Nunes Marques, presidente do TSE, disse que a decisão criou dificuldades e não foi convencional, embora tenha admitido que o próprio tribunal já estudava uma prorrogação desde o meio da tarde.
Dá para discutir o procedimento, e essa discussão é legítima. Anular a eleição é outra conversa. A Justiça Eleitoral não desfaz uma votação porque houve problemas. Ela só faz isso quando fica provado que os problemas mudaram o vencedor. E aí a conta não fecha de jeito nenhum. Lula terminou 4,43 milhões de votos à frente. Para essa diferença sair das duas horas extras, que valeram em cerca de 13% das urnas e tiveram pouco movimento, seria preciso uma avalanche de votos só para o petista naquele intervalo. Os números não mostram nada parecido. Nenhuma prorrogação de duas horas fabrica uma margem desse tamanho.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesO argumento de Flávio perde força também por quem já assinou embaixo do resultado. O primeiro foi justamente Nunes Marques, indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro. Mesmo com as críticas à forma da prorrogação, ele proclamou a reeleição de Lula, disse ter absoluta segurança em todo o processo e contou que ligou para os dois candidatos. Para Lula, falou em vitória expressiva. Para Flávio, deu os parabéns pela campanha. Ao lado dele estavam o presidente do STF, Edson Fachin, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Logo depois, os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara, Hugo Motta, reconheceram a vitória numa entrevista conjunta na sede do TSE. Os dois fizeram campanha para Lula, mas elogiaram a Justiça Eleitoral e pediram pacificação. Alcolumbre ainda telefonou para Lula e Alckmin.
O reconhecimento veio também de quem esteve do outro lado. Marcos Pereira, presidente do Republicanos e apoiador de Flávio no segundo turno, parabenizou Lula e pediu que ele governe também para quem votou no adversário. O PSDB de Aécio Neves fez o mesmo, avisando que seguirá na oposição. Até o governo do Chile já cumprimentou o presidente reeleito. Fica difícil sustentar fraude quando o juiz indicado pelo seu pai, os chefes do Congresso e os próprios aliados dizem que a eleição foi limpa.
Flávio ainda tropeça nas próprias escolhas. Pedir prorrogação nos estados em que era favorito e depois chamar a prorrogação de golpe não é uma tese que convença um tribunal.
Olhar para 2022 ajuda a medir o tamanho da aposta. Naquele ano a diferença foi de 2,1 milhões de votos, menos da metade da atual, e nenhuma contestação foi adiante. Depois do silêncio do pai vieram os acampamentos, o 8 de janeiro e uma condenação por tentativa de golpe. O filho repete o caminho em condições piores, com uma margem maior contra ele, um argumento que a própria campanha ajudou a criar e instituições que reconheceram o resultado na mesma noite. As urnas falaram, e desta vez falaram mais alto.

