O que havia no canal de Janones que Kassio Nunes tentou calar
Exército do Lula, do deputado reeleito André Janones, tinha tutoriais e pedido de ânimo. O canal só começar a divulgar conteúdo na segunda

Um tutorial ensinando a ampliar o alcance de um post. Um pedido para que a militância não desanimasse depois do primeiro turno. Um vídeo gravado com Lula. E muitos convites para trazer mais gente.
Foi isso que a reportagem encontrou no Exército do Lula, canal de WhatsApp criado pelo deputado André Janones (Rede-MG), antes de ele sair do ar neste domingo. Do outro lado da tela, 3,3 milhões de pessoas. Atores, cantores, influenciadores, professores, aposentados, eleitores que queriam ajudar na campanha de Lula e buscavam instruções.
Para a campanha de Flávio Bolsonaro (PL), essas pessoas agiam como robôs. É o que diz o pedido entregue ao Tribunal Superior Eleitoral. Segundo ele, os inscritos eram orientados a replicar mensagens em massa, “como robôs”.
A acusação parte de uma ideia curiosa sobre o eleitor. Supõe que 3,3 milhões de brasileiros receberiam qualquer mensagem e a espalhariam sem ler, sem ouvir, sem questionar, como máquinas. É subestimar a capacidade de milhões de pessoas de pensar por conta própria. O presidente do tribunal, Kassio Nunes Marques, primeira indicação de Jair Bolsonaro ao Supremo, aceitou a tese e mandou a Meta desligar o canal em três horas.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesA campanha acusava o canal de espalhar boatos contra Flávio e de distribuir “missões” de compartilhamento em massa. As missões estavam lá, mas tinham outro objetivo. Pediam aos seguidores que chamassem mais gente para o canal. Os boatos, a reportagem não encontrou. A campanha afirma que foram apagados.
O canal ainda estava em formação. Janones avisava que só a partir desta segunda-feira (12) começaria a postar conteúdo de campanha para ser divulgado. A derrubada veio na véspera.
Durou poucas horas. No início da tarde deste domingo (11/10), o corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, restabeleceu o Exército do Lula, com novas publicações e novos seguidores liberados. Para ele, a campanha de Flávio não apresentou provas suficientes, e eventuais posts irregulares não justificam calar o canal inteiro.
Em 2022, o próprio Kassio pensava o oposto do que decidiu neste domingo. Ao votar no Supremo contra a resolução que criou a suspensão de canais, chamou a medida de “verdadeira censura prévia de conteúdo”. Quatro anos depois, aplicou a medida que condenou.
Só depois que a derrubada virou comoção nas redes a assessoria de Flávio divulgou um documento para se justificar. O argumento central é uma frase de Janones numa live, dizendo que a militância poderia “agir igual um robô” por quinze dias. A frase existe. Mas uma figura de linguagem não transforma 3,3 milhões de pessoas em robôs, e o documento não explica por que um canal que mal tinha começado precisava ser calado.
No dia 1º de outubro, Flávio abandonou o debate da Globo dizendo que não iria “compactuar com censura”. Dez dias depois, pediu e quase conseguiu calar um canal antes mesmo de ele começar a falar.
Na Paulista, Lula resumiu. “Eu acho um absurdo.” O corregedor pediu que o caso seja analisado em plenário em caráter urgente, preferecnialmente em 24 horas.

