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Matheus Leitão

Mercadante gosta da tese de Lara e Roncaglia no BC, mas Durigan resiste

Entre a queda dos juros defendida por Mercadante e o ajuste com credibilidade de Durigan, Lula, segundo interlocutores, por ora só escuta

02/11/2026 14:49, atualizado 02/11/2026 15:53
Luis Nova/Metrópoles
Imagem colorida do ministro da Fazenda, Dario Durigan

Lula se recolheu depois da vitória. Reduziu a agenda, foi recuperar a voz após a campanha e pediu aos ministros que seguissem tocando suas pastas enquanto ele monta, sem pressa, a nova Esplanada. Segundo interlocutores do presidente, nas conversas que já teve sobre a economia do quarto mandato, Lula falou pouco e ouviu bastante.

O que chega aos ouvidos do presidente, relatam pessoas que acompanham essas conversas, são duas leituras opostas do mesmo passado. Lula quer evitar a todo custo o que aconteceu no começo do segundo governo Dilma, quando a inflação subiu, a economia afundou na recessão e o apoio popular se desfez. Um grupo diz a ele que o erro foi o ajuste de Joaquim Levy em 2015, e que a saída agora é acelerar a queda dos juros e deixar o Estado puxar o crescimento. Nos bastidores, essa é apontada, segundo fontes, como a vertente que agrada Aloizio Mercadante, presidente do BNDES.

(Atualização às 15h52: Após a publicação, o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, procurou a coluna para contestar a posição que lhe foi atribuída. Afirmou que não houve discussão na campanha nem há no governo sobre tabelamento de juros, negou reunião marcada de Lula com André Lara Resende e disse estar “totalmente alinhado” ao ministro Dario Durigan nessa questão. Leia aqui a versão de Mercadante)

O outro grupo diz que o problema nasceu antes, nos anos de Guido Mantega, com preços represados, bancos públicos financiando o Tesouro e contabilidade criativa, e que os juros só cairão de verdade quando as contas voltarem a merecer confiança. Segundo os mesmos interlocutores, é a vertente com a qual Durigan tem mais afinidade.

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A visão de Mercadante encontra amparo na tese de André Lara Resende, que sugere levar a Selic de 13,75% para cerca de 7,5% em um ano e depois mantê-la numa faixa entre 3% e 5,5%, sob a guarda de um novo Conselho Fiscal e Monetário Nacional. Ao que tudo indica, Lara não quer cargo no governo, mas sua tese tem quem a carregue. Segundo os mesmos interlocutores, Mercadante gostaria de ver no Banco Central o economista André Roncaglia. Durigan tratou de esfriar o assunto ao dizer que a ideia não está na mesa do presidente, e Edinho Silva, presidente do PT, foi na mesma linha ao lembrar que quem fala pelo governo na economia é o ministro da Fazenda.

A noite no Tivoli, relida

Para entender melhor como Mercadante pensa a economia, vale voltar ao jantar de 25 de setembro no Tivoli Mofarrej, quando ele falou mais tempo que o próprio presidente. Naquela noite, tentou passar mensagens que poderiam agradar empresários e investidores. Relido agora, o discurso deixa clara a ordem das prioridades. Ao definir o próximo governo, Mercadante disse que “esse mandato é o mandato do legado, que tem que reduzir os juros, que tem que reformar o país, que tem que avançar no desenvolvimento”. Os juros vinham primeiro, e as reformas depois.

O resto da fala completa o desenho. Mercadante defendeu um Estado indutor e que um terço dos recursos do BNDES continue subsidiado, um tipo de crédito que não sente a Selic e, na avaliação de economistas, obriga o BC a pesar ainda mais a mão sobre o resto da economia. Quando chegou às contas públicas, dividiu a responsabilidade entre União, estados, municípios e Judiciário, porque “não adianta cobrar só da União”. Faltavam ao projeto uma base teórica e um interlocutor dentro do Banco Central. A base pode vir de Lara Resende. O interlocutor, segundo os relatos, seria Roncaglia.

Três ideias que conversam

Roncaglia, economista heterodoxo, critica há anos o desenho da autonomia do BC. Numa entrevista, chegou a dizer que “a real caixa preta não é o BNDES, são os modelos do Banco Central”, frase que ecoa críticas feitas pelo próprio Mercadante. As três visões se complementam. Mercadante defende o crédito direcionado, Roncaglia um BC mais próximo do Executivo, e o conselho proposto por Lara põe juros e gastos na mesma mesa. Juntas, aproximariam o Banco Central da política econômica do governo, o que, para os críticos, enfraquece seu papel de contrapeso.

Lara não é um economista qualquer. Doutor pelo MIT, foi diretor do Banco Central ainda jovem, presidiu o BNDES e ajudou a formular os dois planos que mais marcaram a história monetária do país. Há tempos, porém, defende teses distantes do consenso, e a que agora oferece ao governo inverte a lógica convencional: baixar os juros para derrubar a inflação. Ninguém sabe se daria certo, e até poderia dar, mas investidores se movem por teses consolidadas, não por experimentos.

A história do próprio Lara ajuda a medir o risco. Em 1984, ele e Pérsio Arida formularam a proposta que ficou conhecida como Larida, uma moeda indexada para quebrar a inflação inercial. O Cruzado, de 1986, trocou o mecanismo por um congelamento de preços, sem ajuste nas contas públicas, e terminou em inflação ainda maior. Oito anos depois, a ideia original voltou como URV, dentro do Plano Real, conduzido por Fernando Henrique Cardoso e por uma equipe que reunia Arida, Edmar Bacha, Gustavo Franco, Pedro Malan e o próprio Lara. O Real deu certo porque combinou a engenharia monetária com ajuste fiscal e com um time em que o país acreditava. Uma queda de juros sem ajuste nas contas correria o risco de lembrar mais o Cruzado que o Real.

O inimigo se chama juro futuro

Querer juros menores não é pecado de ninguém. A guerra é conjunta e inclui Lula, Mercadante, Durigan, investidores, quem produz, o trabalhador e sobretudo o governo, que pagou R$ 1,2 trilhão em juros da dívida nos últimos 12 meses, quase oito vezes o custo do Bolsa Família.

Na segunda-feira seguinte à eleição, a Bolsa caiu 13,88% e a B3 teve de acionar o circuit breaker. O Magazine Luiza, de Luiza Trajano, empresária próxima do presidente, perdeu 58% do valor em um dia. O número que mais importa, porém, passou longe das manchetes. O DI, sigla de Depósito Interfinanceiro, é a taxa que os bancos cobram uns dos outros, e na B3 se negociam contratos que apostam onde ela estará numa data futura. O de janeiro de 2031, que mostra quanto o mercado cobra hoje para emprestar até lá, saltou de 12,64% para 15,3%. Na casa do brasileiro, isso aparece no crediário e no cartão mais caros, na casa própria mais distante, nas vagas que somem do comércio e no dólar que empurra para cima a comida e o combustível.

O caminho de Durigan

Durigan acredita mais na leitura de Samuel Pessôa e Marcos Lisboa, com quem se reuniu em 17 de agosto, em São Paulo, para ouvir propostas de ajuste fiscal para um quarto mandato, segundo o Valor. Os dois publicaram colunas na Folha neste domingo (1º), e ambas partem do mesmo ponto. Os juros não estão altos porque o Banco Central erra, mas porque o gasto público cresce sistematicamente mais que a economia, que já opera a plena carga.

Pessôa lembra que o país tentou forçar a queda dos juros entre 2011 e 2014 e colheu resultados muito ruins. Lisboa mostra onde está o nó. Saúde e educação estão atreladas à arrecadação, a Previdência acompanha o salário mínimo, e o gasto obrigatório cresce sozinho ano após ano. A saída que ele propõe não corta programa social nenhum, mas desfaz essas amarras e revê os benefícios concedidos a grupos de interesse. Na visão dos dois, os juros caem como consequência, quando o mercado passa a acreditar que a dívida vai parar de subir.

Dois caminhos

Os governos Lula já mostraram que esse caminho funciona. Entre 2003 e 2010, o país ganhou o grau de investimento e viu a Selic cair de 26,5% para 8,75% pela via da confiança, e na Secretaria de Política Econômica daquele governo estava Marcos Lisboa.

O Copom se reúne nesta terça e quarta, e a decisão sairá num momento em que o governo ainda não disse qual caminho vai seguir.

A resposta pode vir antes do que se imagina. Duas cadeiras da diretoria do Banco Central esperam por indicação de Lula desde que os mandatos de Renato Dias de Brito Gomes e Diogo Abry Guillen acabaram em 31 de dezembro de 2025. Uma delas é a de Política Econômica, justamente a área responsável pelos modelos que Roncaglia chama de caixa preta. Os nomes que o presidente escolher para essas vagas dirão, melhor que qualquer discurso, de que lado ele ficou.

Lula conhece os dois caminhos e não pode errar. A vitória foi apoteótica justamente porque parecia improvável, e veio pelas ruas e por um eleitorado que foi muito além da esquerda. Este é o seu último mandato, e dele sairá não apenas a consagração dessa virada, mas o legado que deixará ao país.