Lula chega forte à reta final, diz diretor da Quaest sobre o primeiro turno
Guilherme Russo vê recuperação de Lula e momento favorável entre indecisos, mas ressalva peso da abstenção e de novas notícias até a votação

O presidente Lula chega fortalecido à reta final do primeiro turno, mas ainda não é possível afirmar que ampliará a vantagem sobre Flávio Bolsonaro até domingo. A avaliação é de Guilherme Russo, diretor de inteligência da Quaest, em entrevista ao Agora Metrópoles, conduzida por este colunista e Rafael Campos nesta terça-feira (29/9).
“O eleitor que está voltando para Lula parece bastante animado neste ano”, afirmou Russo. Segundo ele, as últimas duas semanas reverteram o movimento de crescimento de Flávio e perda de espaço do presidente. Os indecisos, que deixam a escolha para os últimos dias, tendem a acompanhar o ambiente da disputa — hoje, em sua avaliação, mais favorável a Lula.
Russo pondera, porém, que o debate, novas notícias e o comparecimento às urnas ainda podem influenciar o resultado. “Com a pesquisa de ontem, estamos vendo essa recuperação e esse fortalecimento de Lula. Agora, para o resultado final, sempre temos que esperar o eleitor no domingo.”
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.
Coluna – Quais números mais chamaram sua atenção na pesquisa divulgada nesta segunda-feira?
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesGuilherme Russo – Sempre gosto de dizer que cada pesquisa é um retrato, mas, quando fazemos tantas pesquisas, ela vira um filme. São vários retratos em sequência.
A pesquisa consolida o cenário do presidente Lula à frente no primeiro turno. Nas semanas anteriores, víamos Flávio começando a ganhar espaço e Lula perdendo um pouco. Nas últimas duas semanas, esse quadro se reverteu: Lula freou essa tendência e até deu uma melhorada.
Chegamos à reta final do primeiro turno com um cenário muito parecido com o de 2022. Acho que esse é o principal achado. No segundo turno, todas as pesquisas indicam uma competição muito apertada entre os dois. Os quadros de primeiro e segundo turno estão cada vez mais nítidos, não só na Quaest, como nas outras pesquisas.
Coluna – Como você compara os indecisos desta eleição com os da eleição passada? A recuperação de Lula e a estagnação de Flávio Bolsonaro influenciam a decisão desses eleitores?
Guilherme Russo – A recuperação de Lula e a manutenção de Flávio mostram justamente o momento. E esse momento é importante: os indecisos são os últimos a decidir e, como são mais ambivalentes, tendem a seguir o que o momento está dizendo.
A eleição de 2026 está mais fria do que a de 2022 e mesmo a de 2018. Temos vários indicadores de interesse nas eleições e dados de redes que mostram isso.
Esse eleitor indeciso tende a ter um perfil muito claro: mulheres, classe C2, aqui no Sudeste. Neste momento, ele vai seguir mais o que o cenário está mostrando. Não há uma clareza sobre se está indo mais para a direita ou para a esquerda. Mas esse indeciso é muito do momento, e o momento está um pouquinho melhor para Lula, nessa recuperação.
É uma eleição mais fria, com o indeciso decidindo na reta final, muito focado nas notícias de hoje. Esse eleitor é tão indeciso, tão ambivalente, que vai seguir muito aquilo que estamos vendo no cenário atual.
Coluna – A pesquisa mostra uma recuperação de Lula entre os beneficiários do Bolsa Família. Vocês consideram que o aumento do benefício pode produzir um efeito eleitoral já no primeiro turno?
Guilherme Russo – Nessa reta final, mais do que olhar só os beneficiários ou determinados grupos, estamos vendo que os subgrupos — homens, mulheres, renda, faixa etária — estão basicamente voltando aos patamares que vimos em eleições anteriores.
Os beneficiários sempre votaram muito mais no PT. Então, a tendência é se aproximar do que tivemos em 2022. O Nordeste sempre deu muita vantagem a Lula. Estamos vendo, na reta final, os grupos voltando ao patamar de 2022.
Estamos quase reproduzindo o que vimos naquela eleição. A reta final está mobilizando de volta eleitores que votavam em 2022 e, por algum motivo, ficaram mais descontentes.
No caso de Lula, mulheres, beneficiários e eleitores do Nordeste. No caso de Flávio, mais eleitores do Sul e do Sudeste, pessoas com renda e escolaridade mais elevadas.
Temos esse efeito de reta final, de recuperação dos grupos, essa ativação muito parecida com 2022, por conta da polarização, da calcificação, como o Felipe diz, do eleitorado brasileiro.
Coluna – Como você avalia a disputa em Minas Gerais? Lula chega à reta final com força para abrir uma diferença maior sobre Flávio Bolsonaro do que as pesquisas mostram hoje?
Guilherme Russo – O caso de Minas é sempre muito interessante por essa consistência. Nossas pesquisas estaduais mostram, mais uma vez, que Minas deve se assemelhar muito ao Brasil.
Nunca dá para cravar se o número vai ser tão próximo ou se haverá o mesmo vencedor. Mas a tendência de Minas estar dividido no segundo turno e de Lula ter uma vantagem no primeiro, ou seja, os mesmos resultados da pesquisa nacional, está cada vez mais consolidada.
Isso acontece porque os mais escolarizados e mais ricos tendem a votar mais à direita. O Sul de Minas, que é mais rico, e a região de Belo Horizonte tendem a votar muito mais à direita. Os lugares mais pobres, como o Norte de Minas e o Vale do Jequitinhonha, tendem a votar em Lula.
Agora, pensando nessa reta final, ainda não está claro. Tenho que ser muito franco com vocês: trabalhando com pesquisa e metodologia, sabemos que vai depender muito da abstenção. A Quaest tem mostrado como a abstenção tem crescido. Esse é sempre um fator muito importante.
O eleitor que está voltando para Lula parece bastante animado neste ano, o que era um pouco diferente em anos anteriores. Por isso, temos essa hipótese de que Lula parece estar chegando forte à reta final.
Agora, se vai abrir vantagem ou não, temos que esperar a pesquisa de sexta-feira ou sábado. Essa é a parte do eleitor mais indeciso, mais ambivalente, e vamos ter que esperar para ver para onde esse vento sopra.
Sabemos quem é esse eleitor. Ele pode até estar frustrado com o governo, mas rejeita Flávio. Essa motivação final, esse engajamento, vai depender muito do momento. Mas o quadro geral está definido, com Minas muito similar ao cenário nacional.
Coluna – Você só não crava que Lula chegará ampliando a vantagem por causa da abstenção, que é difícil de determinar numa pesquisa eleitoral?
Guilherme Russo – Estamos na terça-feira. Está muito próximo, mas também muito distante no seguinte sentido: ainda temos um debate amanhã, não sabemos se Lula vai e nunca sabemos exatamente se haverá outras notícias.
Por fim, tem essa questão de realmente comparecer à urna. Esses são os intangíveis do momento.
Mas, sem dúvida, com a pesquisa de ontem, estamos vendo essa recuperação e esse fortalecimento de Lula. Agora, para o resultado final, sempre temos que esperar o eleitor no domingo.
Coluna – A pesquisa foi realizada entre os dias 24 e 27 e captou a repercussão da proibição das bets. Como 62% dos entrevistados concordam com a medida, isso pode trazer dividendos eleitorais para Lula nesta última semana?
Guilherme Russo – A história é bem simples. O eleitor estava muito frustrado, não via um governo com muitas entregas, com marcas. Agora, a campanha de Lula respondeu a isso fazendo propostas e adotando medidas muito diretas, de que o eleitor gosta: Bolsa Família, bets e canetas emagrecedoras.
Foram três notícias que claramente fazem o eleitor ficar mais animado com Lula. E há a questão de Nossa Senhora, sobre a qual não perguntamos diretamente por conta do registro.
São quatro notícias, quatro movimentos do governo Lula. A maioria do eleitorado é católica, a maioria é contra as bets, a maioria é a favor do Bolsa Família e dessa questão das canetas emagrecedoras.
Foi um conjunto de medidas que Lula trouxe: mudou a pauta, trouxe novidades para fazer esse eleitorado virar. A maioria é a favor, a maioria ficou sabendo e, por isso, ele consegue mexer um pouquinho nesse eleitorado mais indeciso.
Coluna – Lula aparece recuperando apoio entre católicos e até entre evangélicos. Como você avalia especificamente a repercussão da questão de Nossa Senhora Aparecida na campanha?
Guilherme Russo – Vocês da imprensa sabem a velocidade com que a informação corre. Esse rumor, esse boato, essa narrativa sobre Nossa Senhora claramente mexeu com as redes e com as campanhas.
Na campanha de Flávio, quase desconcentra um pouco: faz com que ele vá a um novo podcast, tenha que se justificar.
Não é que necessariamente esteja mudando o voto, tirando de Flávio e colocando em Lula. O que faz é mexer na campanha, mudar o tom e fazer aquele eleitor mais perdido pensar: “É verdade, Lula é católico, Flávio é evangélico”.
Isso é mais uma mobilização, uma ativação do eleitor que já votava. Mas tem impacto, sim, na campanha, na organização da campanha.
Foi um dos grandes temas das redes sociais, muito falado. Mexendo nas campanhas, mexe com o eleitorado no sentido do que está mais saliente, do que estamos conversando. Quando falamos de religião, de Nossa Senhora, isso é muito importante para grande parte do eleitorado brasileiro.




