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Matheus Leitão

Live com Janones foi spoiler do pronunciamento de gratidão de Lula

Lula estranhou ver na imprensa seu primeiro pronunciamento tratado como aceno ao mercado e guarda os sinais para depois de ouvir o Congresso

06/11/2026 08:09
Ricardo Stuckert
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante ato de campanha no Rio de Janeiro: o evento "Lula em São Paulo

Quem acompanhou a live da vitória de Lula com André Janones, na quinta-feira, teve uma boa ideia do que vem por aí no pronunciamento que o presidente já gravou e que deve ir ao ar no domingo (8/11), um grande agradecimento ao eleitor. Lula deve falar muito de democracia e de soberania, num formato diferente do usual, em que a imagem do presidente se reveza com vídeos que circularam na internet durante a campanha. É quase a mesma linguagem da live, recheada de memes e vídeos feitos por apoiadores, adaptada ao tom mais sóbrio que um pronunciamento oficial exige.

É a gratidão que costura a mensagem do começo ao fim. Lula deve mostrar as ruas de todo o país, com destaque para a mobilização de idosos e jovens, e a Paulista terá lugar de honra. No ato de encerramento da campanha, em 24 de outubro, os apoiadores tomaram os 14 quarteirões da avenida, das imediações da estação Brigadeiro até a Consolação, e Lula, sem conseguir avançar com o carro, quebrou o protocolo e subiu no trio elétrico reservado à imprensa. Imagens feitas por drones naquele dia devem aparecer no pronunciamento.

Os temas que marcam a fala são os mesmos que embalaram a campanha, como o fim da escala 6×1, o MEI, o Pé-de-Meia universitário e o compromisso de manter os benefícios sociais.

Para a economia sobrou pouco espaço. Lula vai lembrar as conquistas do governo, dizer que o Brasil voltou ao grupo das dez maiores economias do mundo, com projeção do FMI de chegar à oitava posição em 2027, e que o país vive o menor desemprego da série histórica. Também vai reconhecer a preocupação com a trajetória da dívida pública, que acaba se traduzindo em juros altos, e se limitará a dizer que tomará medidas para que o Brasil continue entregando benefícios sociais com responsabilidade fiscal.

A pelo menos um interlocutor próximo, o presidente contou que estranhou ver na imprensa seu primeiro pronunciamento depois da reeleição reduzido a um aceno ao mercado. Ele não enxerga a fala dessa forma. Para Lula, o aceno é ao povo brasileiro. Na live, ele já tinha dado uma pista de como pretende lidar com isso daqui para a frente, ao dizer que quer falar mais diretamente com as pessoas e que vai usar cada vez mais as próprias redes para anunciar suas decisões, sem depender de interpretações.

Nada disso quer dizer que o mercado ficará sem sinal, e o que Lula pretende é justamente o oposto. Ele quer deixar como legado a recuperação do grau de investimento, para atrair o investidor estrangeiro que, a seu ver, percebe com mais facilidade e rapidez o valor do Brasil na geopolítica atual, com a riqueza em terras raras e em meio ambiente, cada vez mais escassa no resto do mundo. Em outras palavras, foi o que ele disse na quinta-feira (5/11), na primeira reunião do Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, quando defendeu responsabilidade fiscal e uma economia arrumada para atrair capital.

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Os acenos a vários setores da economia vão acontecer, mas na hora que o presidente escolher, e ele já sabe qual será. Vai ser quando houver um acordo de fato costurado entre os setores envolvidos, o Congresso e as pastas do governo. Entre as muitas lições do terceiro mandato, uma das que mais pesaram foi perceber que a boa intenção dos técnicos vale pouco sem um bom combinado com quem vai aprovar, ou retaliar, as medidas. Lula quer mudar o jeito de governar, e isso passa por conversar com o Congresso antes de apresentar qualquer proposta. Na avaliação dele, quando a conversa vem antes, o texto chega ao plenário como um projeto do Executivo e do Legislativo, e não como uma conta que o governo manda para os parlamentares pagarem.

A primeira dessas conversas deve acontecer a caminho da COP31, em Antália, na Turquia, para onde Lula deve viajar acompanhado de Hugo Motta e Davi Alcolumbre. O presidente pretende usar o percurso para entender com eles o tamanho real da base e o que é possível aprovar, em acordo com ela, de medidas que ajudem a arrumar a casa até o fim do ano. As propostas concretas só serão analisadas a partir desse diagnóstico.

Enquanto essa conversa não acontece, o Planalto pede paciência. Sem saber o que pode esperar do Congresso, Lula nem chegou a se debruçar sobre os estudos das pastas, e as ideias que circularem antes disso não devem ser lidas como posição do governo, venham de onde vierem. O presidente entendeu que os parlamentares não gostam de ler no jornal estudos que dependem dos votos deles, e essa é uma lição que parte de seus técnicos ainda está aprendendo.

Na reunião sobre economia de quinta-feira (5/11), Lula fez um apelo para que ministros, secretários, ex-ministros e demais participantes respeitem o tempo da negociação e evitem antecipar medidas ou lançar balões de ensaio na imprensa e nas redes. E, para que não restasse dúvida sobre quem fala pelo governo, deixou claro que Dario Durigan será o único porta-voz das medidas econômicas. Seria óbvio, já que é ele quem comanda a Fazenda, mas num governo em que muita gente costuma pensar em voz alta, o óbvio precisou ser dito.

O próprio encontro, antecipado por esta coluna, foi convocado na noite em que o presidente fazia um check-up no Sírio-Libanês e leu no noticiário detalhes de medidas que ainda nem tinham chegado à sua mesa. Daqui para a frente, Lula quer que a novidade passe primeiro por ele, depois pelo Congresso e só então chegue ao público, de preferência pelas redes dele mesmo.