Janones fará livro, elogia Nunes Marques e diz: Flávio não é bolsonarista.
Ao Que Dia Especial, deste colunista, deputado revela que missões eram “só espuma” e buscavam criar pertencimento e ensinar a agir nas redes

Antes de aprender a falar para milhões de pessoas, ele conheceu a sensação de não ter o que comer. Filho de uma empregada doméstica, perdeu o pai aos dez meses de vida. Andava seis quilômetros para estudar. Trabalhou como cobrador de ônibus para pagar a faculdade de Direito. Acordava às quatro da manhã e atravessava a jornada sem comer. A fome passou, mas deixou marcas.
Talvez isso ajude a entender a urgência de André Janones. A disposição de brigar, de incomodar, de falar alto quando acha que ninguém está ouvindo. Antes das redes sociais, ele já fazia barulho para conseguir atendimento para quem esperava por uma cirurgia. Descobriu ali que uma voz podia abrir uma porta que continuava fechada para muita gente.
Na minha avaliação, Janones é o político mais importante que surgiu no Brasil nos últimos oito anos, desde o advento do bolsonarismo. E a eleição de 2026 ajuda a explicar por quê. Não à toa, já em 2022, escrevi sobre a importância que ele tinha para a esquerda, inclusive com o título “Por que Janones é tão importante para Lula”, explicando que ele conseguia furar a bolha do PT e chegar a eleitores com quem o partido tinha dificuldade de conversar.
Quando a campanha de Lula esperava uma vitória tranquila, ele avisava que aquela seria uma disputa duríssima. Antecipou o risco de Flávio Bolsonaro sair na frente. Depois, quando muitos enxergavam uma derrota quase certa, apostou na virada e trabalhou para construí-la.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesEnquanto Nikolas Ferreira concentrava milhões de olhares nos próprios vídeos, Janones colocou milhões de pessoas para agir. Transformou um canal de WhatsApp em um exército de eleitores. Gente que aprendeu a compartilhar, conversar, chamar um vizinho, convencer um parente a sair de casa e votar. Na disputa pela virada em Minas e pela mobilização que ajudou a reeleger Lula, o desprezado pela própria esquerda venceu o adversário que parecia imbatível nas redes.
Agora, essa experiência atravessa fronteiras. Janones se encontrou com Cristina Kirchner, foi convidado a ajudar Pedro Sánchez, recebeu um convite do governo mexicano e passou a ser procurado por quem quer entender como enfrentar a extrema-direita, incluindo a União Europeia.
O menino que conheceu a fome chegou ao centro de uma discussão que interessa ao mundo. Hoje, eu quero conhecer o homem por trás dessa urgência — e ouvir os bastidores de uma virada decisiva para a democracia brasileira.
André Janones, é uma honra enorme ter você aqui no Que Dia Especial. O Que Dia Especial com o general de Lula.
Coluna – Janones, quero começar por uma pergunta que atravessa tudo o que acompanhei e escrevi sobre você nesta eleição. Antes do primeiro turno, quando a campanha de Lula esperava uma vitória tranquila, você dizia que Flávio Bolsonaro sairia na frente. Depois, quando muita gente passou a considerar a derrota de Lula quase certa, você dizia que ele ia virar. Como você soube enxergar esses dois movimentos?
André Janones – Olá, Matheus e todo o grupo Metrópoles. É um prazer imenso estar participando aqui. Espero ter a oportunidade de a gente bater um papo, falar sobre os bastidores dessas eleições e, principalmente, o que a gente espera dos próximos quatro anos na política brasileira.
Tudo o que eu opino, que faço como previsão, entre aspas, nas redes sociais, tem como base a ciência, números, matemática, estatística. É a análise do sentimento que capto pelas redes sociais. Eu mal me lembro do mundo antes do advento das redes sociais, então consigo fazer uma leitura exata do sentimento que prevalece nelas. É dessas análises que faço essas apostas, e nunca falhou, nunca deu errado. Então, não teria por que duvidar que agora, pela primeira vez, daria errado.
Costumo brincar com as pessoas mais próximas a mim: “Eu tenho um Datafolha particular, um instituto de pesquisas particular, só que com um diferencial: o Datafolha às vezes falha, os institutos de pesquisa em geral às vezes falham, e o meu nunca falhou. Talvez em algum momento vá falhar pela primeira vez”.
Foi baseado nisso que eu disse, no dia 14 de agosto — e acertei até o dia; nessa parte confesso que teve um pouquinho de sorte também —, que em 30 dias, na segunda semana de setembro, dia 14 de setembro, o Flávio Bolsonaro ultrapassaria o Lula nas pesquisas. Quase fui cancelado. Recebi uma onda de críticas, mas o tempo mostrou que eu estava com a razão. O dia 14 de setembro chegou e, exatamente nesse dia, o Flávio apareceu pela primeira vez à frente.
Nesse dia, fiz uma segunda parte. Escrevi lá: “Parte dois: Flávio terminará o primeiro turno na frente”. Também se concretizou. E, com a mesma convicção, cravei já no dia 4 de outubro, assim que fecharam as urnas, que o presidente Lula seria reeleito indiscutivelmente.
De onde veio essa convicção? De dois fatores. O primeiro era uma certeza que eu tinha de que, no primeiro turno, as pessoas votam um pouco distraídas. Você tem que escolher deputado estadual, deputado federal, Senado etc. No segundo turno, as pessoas olhariam somente para Lula e Flávio Bolsonaro. Aí ficaria evidente a diferença.
O segundo motivo é que eu sabia o que poderia realizar nas redes sociais, porque fiz algo parecido em 2022, com menos proporção, com menos impacto, sim, mas também decisivo. À época, criei um canal de Telegram, que teve 200 mil pessoas, e conseguimos fazer um trabalho muito forte lá.
Então imaginei: “Se em 2022, quando eu tinha 20% do tamanho que tenho hoje, da voz que tenho hoje, consegui fazer aquilo, agora vou conseguir repetir de uma maneira muito mais forte”. Foi o que aconteceu.
Só mais um detalhe: meu grande temor era que a gente não fosse para o segundo turno. Esse risco existiu. Existiu uma chance real de o Flávio ganhar no primeiro turno. Eu dizia para todo mundo: “Estou achando cada vez mais difícil a gente conseguir chegar ao segundo turno, mas, se chegar, a eleição está ganha. A gente pode passar com dez pontos atrás do Flávio que vira a eleição no segundo turno”.
Por isso, no dia 4 de outubro, enquanto todo mundo estava lamentando e preocupado, eu estava comemorando, vibrando. Talvez tenha conseguido transmitir essa confiança para as pessoas, e assim elas vieram com a gente, atendendo aos nossos chamados.
Coluna – Mas era algoritmo? O que você vê? Um numerozinho? Fico tentando entender isso tudo que você entende e que ninguém entende.
André Janones – Eu tenho uma média de tempo de tela, Matheus… Até saiu uma matéria na TV falando de 11 horas. Onze horas é no pós-eleição. Durante as eleições, chegava a ficar 17 horas conectado no celular. Vou olhando todas as redes e consigo captar o sentimento predominante.
Além disso, analiso números, como o índice de popularidade digital, que é divulgado. Quando fiz a previsão de que o Lula seria ultrapassado pelo Flávio, fiz aquilo baseado em quê? Naquele dia, o engajamento positivo do Flávio era de 89 e o nosso, de 11. De 100% das menções positivas nas redes sociais, 89 eram para o Flávio e 11 para nós. Ali cravei: “É impossível eles não passarem”.
Tanto que digo no tuíte: “Nem mesmo os bolsonaristas sabem o que está por vir”. Porque acho que nem os bolsonaristas tinham a convicção que eu tinha de que o Flávio terminaria à frente.
É uma mistura de dados técnicos, desse monitoramento que fazemos do índice de popularidade digital, com essa coisa artesanal, personalizada, de eu estar olhando as redes e sentindo o sentimento da população.
Não consigo conceber alguém vencer o engajamento nas redes e perder nas urnas. Por isso ficava repetindo todos os dias: “A eleição está ganha”. Não existia nenhuma possibilidade de alguém massacrar nas redes sociais como a gente estava massacrando e perder nas urnas.
Se isso acontecesse, o mundo ia se debruçar para entender o que aconteceu, porque a gente falaria: “Não entendemos nada de redes sociais”. O entendimento que temos hoje é que as redes sociais são essenciais para vencer uma eleição.
Coluna – Agora volta à noite do primeiro turno, com o resultado na tela. Qual foi a primeira conversa que você teve com Lula ou com alguém da campanha? O que você disse que precisava mudar imediatamente? Ou você só comemorou?
André Janones – Eu não tive nenhuma conversa com o presidente Lula nem com ninguém da campanha até a quarta-feira, dia 7 de outubro, por volta de meio-dia.
Quando encerra o primeiro turno, faço um vídeo convocando as pessoas para entrar no canal. Encerro o vídeo até de uma maneira um pouco autoritária, mas hoje vejo que isso somou, porque as pessoas viram que eu estava passando confiança.
No vídeo, praticamente dizia: “Se a gente colocar 300 mil pessoas em um canal, eu viro a eleição para o presidente Lula. Sei o que estou fazendo. Sei o que fiz em 2022 e vou fazer de novo”.
Finalizava dizendo: “Então vocês vão entrar na…”. Falava um palavrão lá. “Vocês vão entrar nesse canal agora, vão obedecer a tudo o que eu disser para fazerem. Tudo o que eu enviar como missão, vocês vão executar. Se fizerem isso, o presidente Lula está reeleito.”
Fui dormir e tinha 53 mil pessoas no canal. No dia seguinte, quando acordei, às seis da manhã, tinha 120 mil. Já achei estranho: como o canal dobra durante a madrugada?
Na hora em que acordo para pegar o carro e vir para Brasília, envio uma série de áudios: “A gente tem uma semana para colocar 500 mil pessoas nesse canal. Se isso acontecer, vira a eleição”. Isso era às seis da manhã. À meia-noite, já tinha 500 mil.
Aí falei: “Agora temos até a próxima segunda para atingir um milhão”. No outro dia, ao meio-dia, já tinha um milhão. Era terça-feira.
Venho para Brasília. Na quarta-feira, tinha um encontro do presidente Lula com os deputados recém-eleitos e com todos os deputados que o apoiaram. Eu estava nesse encontro. Ao final, quando todos terminam de falar, chego ao pé do ouvido dele e digo — vou falar exatamente as palavras que usei: “Presidente, meti dois milhões de pessoas em um canal de WhatsApp em 48 horas. Grava um videozinho aqui para mim. Se o senhor gravar, a gente vai para três, quatro, cinco milhões e ninguém segura”.
Ele gravou o vídeo, eu soltei, e de lá em diante não parou mais o crescimento. Aí, sim, passei a ter um diálogo direto com a campanha e, na última semana, já com poder de decisão total na comunicação, sendo ouvido por todos.
Coluna – Na hora em que você falou isso para o presidente, achou que ele acreditou que a vitória viria?
André Janones – Matheus, acho que ali a gente já estava com o reflexo do novo Lula, do Lula que já compreendia a importância das redes sociais.
Uma situação interessante que quero mencionar: eu estava com muitos deputados jovens ao meu redor, a bancada jovem, que não sabe como era a comunicação antes. Na hora em que fiz o pedido, eles olharam para mim e falaram: “Faz o vídeo”. Não estavam entendendo por que eu estava pedindo ao Lula. Era: “Saca o celular e faz o vídeo agora”. Isso é muito simples.
Depois brinquei: “É porque eles não sabem como era no passado”. Acho que, se fosse alguns anos atrás, talvez o presidente tivesse resistência para gravar esse vídeo. Ele aceitou de bate-pronto. Acho que acreditou desde o início.
Ontem perguntei isso a ele numa live. Ele falou que nunca duvidou da vitória, que sempre acreditou também. Aceitou de cara fazer o vídeo, e não tive nenhum tipo de resistência em relação ao presidente nesse segundo turno.
Coluna – Quando você passou a acreditar na virada? Teve uma missão, uma reação dos seguidores, um dado, uma conversa que fez você pensar: “Pronto, vamos ganhar”?
André Janones – Matheus, em toda entrevista que dou os jornalistas insistem muito nessa pergunta. Na entrevista que dei ao New York Times um dia depois do resultado, vi que por três vezes ele fez a mesma pergunta. Não estava se conformando, porque acho que a matéria queria o grande momento: “Mas quando você viu que ia dar?”.
Eu sempre respondia: “Sempre soube”. Pela terceira vez que ele pergunta, falei: “Não vou dar a resposta que você está esperando, porque, de fato, sempre soube”. Ele perguntou: “Mas, então, no dia 4 de outubro você já sabia que ia ganhar?”. Falei: “Sabia que ia ganhar e sabia, inclusive, que seria com uma diferença muito grande”.
Não teve um momento em que passei a acreditar, porque acreditei desde o início. Tive momentos em que confirmava a minha convicção, em que falava: “Minha convicção está correta”.
Teve o dia do panelaço. Para mobilizar um panelaço, na teoria, você deveria ter pelo menos uma semana de prazo. Mobilização é algo muito difícil. Fiz um vídeo às quatro da tarde, mandei no canal convocando — a entrevista era às nove da noite — e a gente conseguiu.
O segundo momento foi o que, para mim, foi o ato mais ousado dessa eleição: a ação de todo mundo postar a foto com a camisa da seleção, no mesmo segundo, fazendo o L. Deu certo. A gente bugou o algoritmo.
E tiveram os três mutirões que fizemos para levar pessoas para o canal. Em um deles, pulamos para sete milhões em 12 horas. Em outro, crescemos um milhão e meio em seis horas. Ali vi que as pessoas estavam atendendo ao meu chamado.
Quero dar mais um ponto de onde vinha essa convicção. Imagine o seguinte: você está aqui do meu lado e falo: “Matheus, pega aquele copo d’água para mim”. Você pega. “Pega meu celular, fazendo um favor.” Você pega. “Pega minha camisa.” Você pega. “Desliga a lâmpada.” Você desliga. “Olha o horário da minha próxima reunião.” Você olha.
Pedi cinco coisas e, nas cinco, você me atendeu sem questionar. Vou fazer um sexto pedido: “Matheus, busca meu lanche”. Por que eu acreditaria que você não ia buscar? Se alguém perguntasse qual a minha convicção de que você buscaria, falaria: “Sou capaz de apostar minha vida que vai buscar”. Porque pedi cinco vezes e você atendeu às cinco.
Esses cinco testes que fiz foram atendidos de imediato. Testes extremamente difíceis. Não era para curtir uma publicação. Olha a engenharia por trás dessa questão da camiseta.
A gente mede a dificuldade de engajamento pelo quanto a pessoa tem que se mexer. O mais fácil é assistir a um vídeo seu: ela fica parada. Para curtir, já tem que mexer a mão. Para comentar, mais ainda. Para mandar no WhatsApp, mais ainda: tem que copiar o link, enviar.
Imagine o da camiseta: a pessoa tinha que ter uma camisa da seleção, tirar a foto, decidir postar, postar no mesmo horário, fazer o L. Era muito complexo, e as pessoas atenderam.
Por isso, na live de 24 horas, dizia: “Não existe a possibilidade de as pessoas não fazerem o que estou pedindo”. Porque fizeram outras cinco vezes, quando era muito mais difícil.
Na live, só fazia um pedido: “Não quero que você traga dois votos para o Lula, não quero três. Quero um. É só um voto que quero”. Porque, se peço dois ou três, muitas pessoas não vão conseguir realizar, porque é difícil. A pessoa fala: “Não tenho como conseguir três pessoas”. E nem tenta.
Quando passei a missão de um, era fácil. Depois vi pessoas dizendo nas redes: “Na hora em que vi o Janones dizendo que era só trazer mais um voto que o Lula estava eleito, falei: ‘Então está eleito’, porque isso é muito fácil”.
A convicção vinha da certeza da mudança de postura do eleitor no segundo turno, focando nos dois candidatos, e da confiança no que poderia fazer pelas redes. Depois foi confirmada: em cada momento em que convocava as pessoas para uma ação, elas faziam. Ações muito mais difíceis do que trazer um voto para o Lula.
Não teria por que acreditar que, na sexta vez, ao pedir algo menos difícil do que nas outras cinco, elas não fariam.
Coluna – E as missões, como você escolhia? Como falava: “Agora é a hora dessa missão”?
André Janones – Vou contar uma coisa em primeira mão, que não contei para ninguém ainda. Pretendo escrever um livro e lá ia falar sobre isso, mas vou revelar aqui.
Não sei como as pessoas vão ouvir, se vão ficar decepcionadas ou entender. O fato é que as missões eram só espuma, não eram champanhe. As missões tinham muito pouca importância. Não vou dizer nenhuma, mas muito pouca.
Na verdade, a missão era a isca para gerar nas pessoas o sentimento de pertencimento, organizar a estratégia, fazer um letramento digital. Era isso que queria fazer: passar o conhecimento, explicar como funcionava o algoritmo para que elas mesmas começassem a agir por conta própria.
As missões eram distrações. Usava as missões para levar as pessoas para lá. Não acredito que as pessoas curtirem uma publicação na página do Lula virou um voto. Isso não fez tanta diferença. O objetivo era arregimentar pessoas, gerar o sentimento de comunidade, de pertencimento, de as pessoas entenderem: “Não estou só, faço parte de um todo, de um coletivo”.
Claro, tiveram exceções. Essas duas que citei, a do panelaço e a da foto com a camisa da seleção, tiveram um efeito impactante. Porque comunicavam às pessoas: “Não estou só”.
Uma maneira de agir do fascismo é criar uma falsa realidade, em que imagino que, se fizer um comentário num post defendendo o Lula, vou apanhar, porque ninguém defende o Lula. Faz você criar o sentimento de que está sozinho: “Só eu defendo o Lula, só eu defendo o Janones. Ninguém gosta do Lula, ninguém gosta do Janones”. Esse sentimento não é real.
Quando fizemos o panelaço, vi muitas pessoas dizendo nas redes: “Não imaginava que alguém no meu prédio era Lula. Achava que só eu era”. Quando aparecem com a camisa da seleção, vejo pessoas dizendo: “Não imaginava que tinha tantos amigos de esquerda”.
Isso mostra que conseguimos atingir o objetivo de mostrar às pessoas que não estavam sós, gerar essa sensação de pertencimento. Esse era o objetivo principal, e conseguimos.
Coluna – Se era uma espuma, teve uma missão mais importante? E quando vai sair esse livro?
André Janones – Primeiro, só fazer uma conclusão em relação às missões. Para além delas, considero que o objetivo principal do canal foi o letramento digital: ensinar às pessoas como funcionava o algoritmo, como é o tempo de retenção em uma publicação, como o algoritmo lê, as diferenças de algoritmo de rede para rede, porque não é igual.
Tem rede social que não tem essa lógica de você não poder criticar os adversários. Lá você pode criticar. Isso foi essencial.
Não vou citar o nome, porque não vou dar palco para adversário, mas teve uma pessoa que foi candidata em algum momento — não vou dizer nem qual eleição, senão fica fácil identificar — que usou a mesma estratégia que eu numa proporção cem vezes menor. Não estou comparando em relação ao impacto. Ele não conseguiu gerar o impacto que consegui, mas a estratégia foi muito parecida.
Por que a dele não gerou o impacto que a minha gerou? Porque ele segurou para ele o conhecimento. Não é todo mundo que tem coragem de passar o que sabe.
Tive propostas de valores absurdos de dinheiro. Acho que na minha vida não vou conseguir ganhar a grana de que abri mão por não ofertar curso pago. Propostas inclusive do exterior. As pessoas querem que grave vídeos, um curso explicando como manejar as redes sociais. Joga numa plataforma, a pessoa paga R$ 1 mil, por exemplo, para ter acesso.
Não quero fazer isso, porque meu objetivo é comunicar gratuitamente o que sei. Não estou achando que tenho condições de mudar o mundo, mas, que seja uma contribuição desse tamanhinho, acho que posso contribuir para combater a extrema-direita e fortalecer a democracia no mundo através do meu conhecimento.
Não tive receio de passar esse conhecimento. Essa pessoa teve, porque quer vender curso, ensinar estratégia, ganhar grana. Eu não.
Esse foi o pulo do gato: quando passo o conhecimento adiante, a coisa fica menos dependente de mim. E cada vez está mais. Hoje fiz um comentário numa rede social sobre isso. Cada vez mais a coisa está acontecendo organicamente. Antes de ontem teve uma hashtag que subiu em primeiro lugar no X que não fui eu que direcionei.
Tem uma frase que dizia na campanha, que soa um pouco poética, talvez melodramática, mas é real: “Não existem mais comandantes nem comandados, somos todos um só povo”. É isso que aconteceu em algum momento. As pessoas cada vez ficam menos dependentes de mim, e isso faz toda a diferença.
Sobre o livro, ainda estou analisando, não tem data. Lancei um primeiro livro depois da eleição de 2022, mas ali optei por fazer uma espécie de manual de guerrilha: dicas simples, rápidas, de fácil compreensão. O objetivo era popularizar, chegar a todo mundo.
Agora, o objetivo é escrever um compêndio de comunicação nas redes sociais, uma obra densa, longa, porque é tanta coisa que tenho para passar que já falei: filme não suporta, série não suporta, como algumas que estão produzindo; entrevista não suporta, palestra não suporta. É muita coisa, muito detalhe.
Espero escrever um livro bem completo sobre tudo o que fizemos nessas eleições e como isso pode contribuir ao redor do mundo.
Coluna – Você falou: uma coisa é a curtida num post, outra é o voto, virar o voto. Onde você liga uma coisa à outra?
André Janones – Acho que está absolutamente ligado. As pessoas falam: “Curtida não é voto, visualização…”. Quero lembrar uma coisa: curtida não é curtida, é pessoa. É um ser humano que foi ali.
É igual quando alguém faz um joia para você na rua. Aquilo não é um joia, é uma pessoa manifestando concordância com você. Ali você abre caminho para um diálogo. A curtida representa isso, a abertura de um diálogo.
Vejo alguns imbecis dizendo: “Você acha realmente que o Janones virou algum voto naquele canal? Naquele canal só tinha convertido”. Meu objetivo nunca foi virar voto de ninguém.
Até porque dizia desde o início: “Acho que sou talvez a pessoa mais incapaz de trazer voto para o presidente Lula, porque meu rosto está muito ligado ao dele. Não tenho o discurso da imparcialidade”.
O cara de direita, de centro ou indeciso, quando ouve o Janones falar, não vai nem terminar de ouvir, porque vai falar: “Já sei o que vai falar. Vai criticar o Flávio e elogiar o Lula. Quer me convencer a votar no Lula”. Não tenho mais o poder da imparcialidade.
O objetivo era arregimentar pessoas para lutarem. Vou usar a analogia de um general: um general não necessariamente está no front atirando, mas prepara soldados para isso.
O objetivo era realmente pregar para convertido, preparar pessoas para a batalha que estava acontecendo. Nesse sentido, fomos muito bem-sucedidos.
Curtida não é voto? Não é. Mas ali preparava pessoas, dava o treinamento para elas irem a campo em busca do voto.
Coluna – Fiz um perfil seu em que contei que você percebeu o perigo eleitoral de Flávio num encontro no elevador. Você esperava uma reação hostil e encontrou um sujeito brincalhão, pedindo que pegasse leve com ele. Por que aquela conversa fez você entender que Flávio Bolsonaro seria tão difícil?
André Janones – Matheus, você está me acompanhando bem, porque nem lembro para quem publicizei isso. Nem sabia que já tinha falado publicamente em algum momento. Foi uma história real.
Fiz uma aposta com um colega, meu amigo Pedro Campos, deputado federal, há dois, três anos. Naquele momento, era uma loucura absurda falar que o Flávio era candidato. Quero que lembrem como estava três anos atrás: as pessoas falavam do próprio Jair ou do Eduardo. Não tinha nenhum sentido.
Apostei uma caixa de uísque. Não sei o que vou fazer com essa caixa, porque não bebo. Falei: “Flávio Bolsonaro vai ser o candidato a presidente do Bolsonaro”. Ele perguntou: “De onde você tirou isso?”. As pessoas falavam também em Tarcísio, em vários nomes, mas não existia o Flávio.
Relatei para ele: “Porque o Flávio é o único dos filhos que não é bolsonarista”. E não é. O Flávio é um cara do Centrão. Um cara do esquema, da negociata, da grana.
Quando fui pré-candidato à Presidência da República, convivi com uma pessoa que não vou citar o nome, que veio coordenar minha campanha à Presidência e que coordenou a campanha do Bolsonaro em 2018. Essa pessoa dizia: “O Flávio é o único dos Bolsonaros que gosta de dinheiro, que gosta muito. Os outros são doidos, reacionários, fascistas, mas não estão muito preocupados com grana. Estão preocupados com a ideologia fascista deles. O único que gosta de grana de verdade é o Flávio Bolsonaro”. Ele falava: “Corrupto ali é ele”.
Em 2023, acho que 2022, antes até do processo eleitoral da outra eleição — não vou me recordar agora —, estava indo à Procuradoria Parlamentar, no prédio do Congresso. Entrei primeiro no elevador e, no andar seguinte, o Flávio entrou falando ao telefone.
Lembro que foi num momento em que eu estava batendo muito nele, pesado, usando palavras como bandido etc. Fiquei meio tenso quando ele entrou. Pensei: “No mínimo, vai fingir que não me conhece e vou fingir que não conheço ele”.
Ele estava com a desculpa perfeita: estava ao telefone. Ele para o telefone e fala: “Ô, Janones, alivia lá para mim, cara. Você está batendo demais”. Ainda brincou: “O lombo não está aguentando mais, não. Estou todo machucado”. Sorrindo, deu um tapinha em mim.
Saquei. Falei: “Esse cara não é ideológico, não é um bolsonarista. É um cara do jogo, da política. É o cara que vão querer colocar justamente porque vão tentar vendê-lo como Bolsonaro moderado”. Foi o que aconteceu agora.
Coluna – Você ajudou Lula em 2022. Fiquei muito impressionado com isso e até escrevi sobre isso. Mas passou boa parte do governo sem nenhum reconhecimento. E nem acho que você quisesse, pelo pouco que te conheço.
André Janones – Primeiro, não é nem que não quisesse reconhecimento. Não tem nenhum ser humano — quem disser o contrário vai ser hipócrita — que não queira ser reconhecido pelo trabalho. É claro que quero.
Só que também sou muito sensato. Tenho muita noção do meu tamanho, de onde estou, de quando cheguei. Quando vi as pessoas, depois do trabalho de 2022, dizendo “O Janones tem que ter isso, tem que ter aquilo”, falava: “Gente…”.
Não é não reconhecer meu mérito. Costumo dizer que a humildade às vezes flerta com a hipocrisia. Não me considero nem humilde demais nem um cara que se acha. Tenho noção do meu tamanho, do meu papel, mas também não vou além disso.
Sabia o que fiz em 2022, que fui decisivo. Mas dizia: “Cheguei ontem”. O presidente valorizou e reconheceu meu trabalho. Em momento nenhum deixou de reconhecer.
“Mas ele não te deu um ministério.” Primeiro, sempre deixei claro para ele que não queria ministério, como deixei agora. Tem gente que fala: “Mas podia ter oferecido e você não ter aceitado”.
Ainda assim, e a turma que está com ele desde os anos 1980? E a turma que ajudou a fundar o PT? Não têm o mérito deles? Quem estava com ele quando foi preso? Quem visitava ele no presídio em Curitiba? Era eu? Quem ajudou a fundar o PT? Quem continuou com ele quando perdeu?
Acreditar no Lula agora é muito fácil. Queria ver acreditar quando disputou em 1989, depois quando perdeu em 1994, em 1998.
Vi meu valor, mas olhava para o lado e falava: “Cheguei ontem. Tem um monte de gente que também tem valor. Antes de eu ser valorizado, essas pessoas têm que ser valorizadas”. Isso não é humildade, é um fato. Humildade seria se estivesse colocando uma coisa aquém do que sou. Não é isso.
Tive um papel importante, mas várias pessoas tiveram. E reconhecer, ele sempre reconheceu. Na primeira vez em que estive com o presidente no Palácio da Alvorada depois das eleições, ele disse em alto e bom tom, na frente de várias pessoas: “Nunca vou poder pagar o que você fez para mim nas eleições passadas. Sem você, não teria ganhado a eleição”.
Isso é reconhecimento. Nem sempre vem em forma de cargo, de espaço. Sempre fui reconhecido.
Coluna – E, em 2026, o que precisou acontecer para a campanha ouvir você? Qual foi a resistência mais difícil de vencer dentro do próprio campo político?
André Janones – Agora, nas eleições de 2026, fica difícil responder qual a maior dificuldade que tive, porque tive todas e não tive nenhuma. No primeiro turno, tive todas e não consegui superar nenhuma. Não fui ouvido por ninguém.
Vou relatar mais um caso que nunca publicizei. Fui a Minas duas vezes só na eleição. Abri mão de fazer a minha campanha para fazer a do presidente. Achei, inclusive, que poderia perder as eleições, e minha baixa votação comprovou que estava certo.
A primeira vez em que fui foi num evento em Montes Claros, a dez dias das eleições. Ao final, subi no trio. Nem ficava no trio nesses eventos com o presidente: ficava no meio do povo fazendo campanha, tentando virar voto. Às vezes encontrava com ele no final. Muitas vezes nem encontrava, como na Paulista, no sábado antes do primeiro turno.
Nesse evento, quando terminou tudo, ele chegou em mim e falou: “Você está vendo o que está acontecendo nas redes sociais? Vai deixar isso acontecer?”.
Aquilo me bateu uma sensação de responsabilidade. Só que pensava: “Não vou deixar acontecer, mas ninguém me procura”. Não falei isso para ele, pensei.
Saí dali com uma responsabilidade: tenho o presidente da República me falando em particular “Você vai deixar acontecer o que está acontecendo na internet?”. Só que, ao mesmo tempo, não tinha suporte nenhum, ninguém me procurava.
Não fui ouvido por ninguém no primeiro turno, mas, no segundo, foi totalmente o oposto. Não tive que gritar para ser ouvido. Fui ouvido de cara. Tudo o que falava virava lei. Fui de um extremo ao outro, não teve uma transição. Num dia não era ouvido em absolutamente nada, no outro era totalmente ouvido.
A resposta do porquê disso eu não tenho. Fiz uma postagem nas redes nesta semana perguntando sobre isso. Recebi mais de 50 mil comentários. Nas entrevistas que tenho dado à imprensa estrangeira, é a única pergunta que não sei responder.
Foi uma pergunta que a Cristina Kirchner me fez na Argentina. A visita estava prevista para 20 minutos e durou três horas, conversando, trocando experiências. Ela fala muito também, igual a mim, acelerada. A gente se identificou muito.
Perto do final, perguntou: “Por que as pessoas te obedeciam, seguiam seus pedidos, seus direcionamentos? Por que decidiram te ouvir?”. Falei: “Cristina, essa é a única coisa que não sei responder”.
Sei falar sobre o que fiz, sobre a estratégia. Mas tem uma coisa interessante: não aprendi nada nesse segundo turno.
Faço a analogia do cantor no barzinho: canta a mesma música para dez pessoas há dez anos. Vai a um programa de TV e vira uma celebridade mundial. Mas não está cantando melhor depois que virou celebridade. A música é a mesma, a entonação é a mesma, a banda é a mesma. São só as pessoas que começaram a ouvir.
Não tem nada que falei nesse segundo turno que não estivesse falando no primeiro, no ano passado, em 2022. Por algum motivo que não sei explicar, as pessoas simplesmente decidiram me ouvir.
Coluna – Ontem, ele admitiu que, se não tivesse terminado o primeiro turno atrás, não teria percebido a importância das redes sociais. Numa palavra, o que você sentiu ao ouvir isso dele?
André Janones – Fiquei feliz. Fiquei aliviado. Acho que posso dizer aliviado. Senti o seguinte: “Agora não vamos precisar mais dar murro em ponta de faca”.
Coluna – O que você entendeu sobre o eleitor que Nikolas Ferreira não entendeu?
André Janones – Muito do que eu sei vem da minha capacidade de ouvir as pessoas. As pessoas se conectam com o que é real. De um lado, você tinha um cara arregimentando um exército, dando letramento digital para as pessoas. Do outro, alguém dançando e falando: “Vamos fazer bloquinho”. Eu acho que ele acreditou na imbecilidade das pessoas, mas essa eleição mostrou que o povo é muito mais inteligente do que eles imaginam.
Coluna – Você ficou com muita raiva quando Kassio Nunes derrubou o canal do ar? Tem algum bastidor importante daquele dia?
André Janones – Zero, com toda a sinceridade. E, ainda que tivesse ficado, não discutiria isso publicamente.
Aquilo que tenho falado não é hipocrisia. O fascismo, como um todo, tem três inimigos principais. O objetivo final é minar a democracia, destruí-la por dentro.
Um é o Poder Judiciário. Querem colocar todo mundo contra a Justiça. A partir do momento em que desacredito a Justiça, vou atacando o ministro e amanhã vem uma decisão contra mim, falo: “É perseguição, porque ataquei ele”.
O segundo é a imprensa. Não querem uma imprensa livre, querem atacar jornalista o tempo todo. Se o que você publica, o que o Metrópoles publica, não tem mais credibilidade, qual passa a ser a única fonte confiável? Eu próprio.
O terceiro é a classe artística, a cultura como um todo, pelo mesmo motivo. Têm o poder de formar um pensamento crítico e, mais perigoso ainda, levam conteúdo político embalado em entretenimento, através de uma música, um filme.
Nosso exército, minha atuação, nunca vai fazer ataques às instituições. Discordei da decisão do ministro, protestei nos autos.
Vou contar um bastidor: minha advogada tinha uma audiência com a juíza substituta e perguntou se queria ir. Fui. Ao final do despacho, fiz uma fala para a juíza: “A intenção não é atacar as instituições. Respeito a decisão do ministro, mas discordo assim, assim, assim”. Uma fala muito de paz.
Ela olhou para mim e disse: “Você quer falar isso para ele?”. Falei: “Gostaria”. Ela falou: “Ele não costuma atender, mas creio que vá te atender”.
Ele me atendeu, foi muito solícito. Não me deu nenhuma decisão na hora, fez como deveria fazer um ministro naquele momento. Para mim, a postura dele foi de seriedade. Não estou analisando a trajetória como um todo, estou falando deste ato, deste dia.
Agiu com imparcialidade, falou: “Vou me manifestar nos autos, entendi seus argumentos”. Quatro horas depois, liberou o canal, antes mesmo do vencimento das 48 horas.
Tenho um monte de ressalvas em relação à atuação dele como um todo, mas jamais vou utilizar minha voz nas redes sociais para cobrar isso. Vou fazer nos autos. Não acho que esse seja o papel de um agente político. Acho uma covardia trazer um ministro da Suprema Corte para um debate político, enquanto o ministro, pelo menos na teoria, não deveria entrar em debates políticos.
Coluna – No meio disso tudo, você foi parar na UTI com uma arritmia. Como estava vivendo aqueles dias? O que sentiu com o exército continuando a funcionar, o Bernardo lá? Como foi aquele tempo?
André Janones – Só para concluir a suspensão do canal: foram três pedidos de suspensão. Em cada um deles, crescemos mais de um milhão de inscritos. Algo que contribuiu muito também foi o Flávio Bolsonaro fazendo esse pedido.
Sobre a UTI, durante o segundo turno estava viajando de carro porque, no aeroporto, as pessoas, com muito carinho, sempre pediam uma foto. Não tinha como dar atenção às pessoas e tocar o canal. Entendia que tinha que ficar o tempo todo ali. Tinha a questão do sinal de internet enquanto estava embarcando, e ficava vidrado o tempo inteiro no canal.
Disse: “Vou fazer minhas viagens de carro”. Cheguei a rodar cinco mil quilômetros em uma semana. Você come mal, come porcaria, o que acha na estrada, e principalmente não se hidrata, porque senão tem que parar para ir ao banheiro toda hora.
Isso tudo somado à privação de sono. Tenho comigo que o pano de fundo de tudo o que passei foi privação de sono. Dormia oito horas por noite. Dormir seis, até cinco, já tinha acontecido na minha vida. Mas passar três semanas dormindo duas horas por noite foi inédito.
No debate, estava muito cansado. Para mim, era só cansaço. Quando fui dar uma coletiva, falei para os jornalistas: “Estou muito cansado, não sei nem se vou conseguir falar”.
Depois reparei que, enquanto o Sidônio dava entrevista com o presidente Lula, eu estava atrás puxando o ar e não conseguia respirar. Mas, para mim, era cansaço.
Cheguei ao hotel, fiz uma live rápida, sentei na cama e estava conversando com minha médica ao telefone, falando o que sentia. Chegou um momento em que não conseguia mais segurar o celular de tanto que tremia. O celular caiu.
Chamei um assessor rápido no quarto: “Estou passando muito mal”. Pedi para terminar a conversa com a médica. Ela falou: “Traz ele para cá agora”.
Cheguei e fui direto para a UTI. A pressão estava, acho, cinco por três, algo assim, se não estiver enganado. Muito baixa. Me deram oxigênio e levaram direto para a UTI, mas logo recuperei.
O diagnóstico foi de uma arritmia grave, mas sem nenhuma sequela, sem nenhum problema crônico. De lá mesmo, já passei uma missão e voltamos com tudo. Falava: “Tenho que ficar vivo pelo menos até dia 25”. Graças a Deus, deu certo.
Coluna – Depois da vitória, teve alguma conversa longe das câmeras que você possa contar entre o general e o marechal?
André Janones – Teve, mas acho que tudo já contei. Tivemos algumas ligações por telefone, falei com ele no aniversário dele, depois me chamou para o almoço.
O almoço foi mais de descontração. Não foi algo para falar de política, de futuro. Foram conversas pessoais, curiosidades. Perguntou quem cozinha minha comida, com que frequência visito minha família. Era um tom mais pessoal.
Também comuniquei a ele, antes de comunicar à imprensa, que não aceitaria ministério. Falei: “Não veio nenhum convite do senhor, não sei se pensa em me fazer algum convite, mas já adianto que não tenho nenhum interesse em ocupar ministério. Se o senhor determinar, falar que é uma missão, uma ordem, vou atender. Mas não quero mesmo ir para um ministério”.
Finalizei: “O senhor quer que eu entregue o mesmo que entreguei nas eleições? Se o objetivo for esse, não posso ir para ministério. Não posso presidir comissão, ser líder do governo, líder da maioria. Tenho que estar solto. Todos esses cargos exigem uma dose de burocracia, de compromissos institucionais. Não posso ter. Se o senhor quiser que entregue o mesmo que entreguei, não vou ocupar ministério”.
Aí ele fez assim com a mãozinha de quatro dedos. Peguei a mão, ele fez um carinho e falou: “Então está fechado”. Perguntei: “Posso comunicar à imprensa?”. Ele falou: “Pode”. Foi isso.
Coluna – Você recebeu inúmeros convites, tenho acompanhado e publicado na minha coluna. Mas quero voltar ao menino de Ituiutaba. Seu pai morreu quando você tinha dez meses, sua mãe criou os filhos trabalhando como doméstica. Qual lembrança daquele tempo explica melhor o homem que você se tornou?
André Janones – Acho que muito dessa sensibilidade que tenho até hoje. Gosto muito de uma frase: “Tive o privilégio de uma vida sem privilégios”.
Por ter tido esse privilégio, conheço a dor das pessoas não de ouvir falar, não de ler, mas porque já senti a maioria das dores delas. A fome deixou muito trauma.
Meu pai faleceu quando tinha dez meses. Depois tive um pai de criação, que faleceu com câncer no pulmão assim que assumi o mandato como deputado federal.
A fome que falo que senti foi só um aperitivo. Nunca soube o que é dormir sem fazer uma refeição. Quando digo fome, foi, por exemplo, ter momentos da vida em que fazia a única refeição do dia às três da tarde, porque ficava confundida como almoço e janta e conseguia me sustentar durante aquele dia.
Essa pontinha do que é a fome já me deixou traumas que, até aqui, é sempre difícil falar sem me emocionar. Fico imaginando quem passou por isso com mais força, quem vive ainda numa situação não de fome absoluta, de desnutrição, mas de ter vontade de comer algo e não conseguir.
Tudo isso foi trazendo a sensibilidade para entender quais são as necessidades mais urgentes das pessoas. Esse senso de urgência me ajudou, talvez, a nunca fazer campanha fofa, porque sempre entendi que as pessoas não estavam ali para curtir um emoji fofo. Queriam alguém que transmitisse a dor, a indignação delas.
Vejo algumas pessoas — e não estou falando de críticos, mas de gente que me apoia, gosta de mim, me segue, votou no presidente Lula, é soldado do exército — que acham engraçada a maneira como me comunico.
Costumo dizer: “Quer fazer um teste para saber se você é do povo ou se perdeu o cheiro do povo, se não lembra mais o que é ser povo? Se acha engraçada a minha maneira de me comunicar, mesmo que se declare fã do Janones, lamento dizer, mas não sabe mais o que é ser povo. Garanto que alguém do povo não acha graça nenhuma, simplesmente porque se comunica assim”.
Quem acha engraçado é porque não lembra mais o que é ser povo. Esse senso de urgência que carrego é de quem não tem tempo para ficar fazendo emoji fofo nas redes. Tem que se preocupar em colocar comida na mesa, pegar transporte público lotado.
Essas marcas de uma infância sofrida, de uma adolescência sofrida, são meu maior patrimônio e me permitem comunicar tão de igual para igual com o povo.
Coluna – A fome te acompanha até hoje, de certa forma?
André Janones – Vou contar uma coisa. Sempre tenho dito que devo tudo o que consegui realizar na vida, em primeiro lugar, a Deus. Sou um homem de muita fé. Em segundo, à psicanálise, que me permitiu me conhecer, vencer meus traumas.
Vou dizer algo que só consegui curar na psicanálise: a dor da fome é tão forte que, até poucos anos atrás, media o que tinha de patrimônio em quantas refeições poderia fazer na vida.
Vou pegar números quaisquer, só para dar exemplo. Vamos imaginar que tenho um patrimônio de R$ 200 mil. Ia lá e calculava: “Quanto gasto por dia para comer bem?”. Um café da manhã, um almoço… Vamos imaginar que dê R$ 200 por dia. Estou só chutando os números, não estou fazendo média nenhuma.
Calculava: R$ 200 por dia dão R$ 6 mil por mês, R$ 72 mil por ano. “Então estou tranquilo por três anos.”
Media minha vida em quantas refeições poderia fazer. Para você ver o peso de quem carrega na alma a dor de ter passado dificuldade, de ter conhecido a fome. Esse é o tamanho do trauma.
Mas hoje vejo como um baita privilégio, porque será o motivo de nunca perder essa emoção que estou sentindo agora, nunca perder a conexão com o povo, nunca me deixar deslumbrar com o poder, com as novas amizades, com os locais que frequento. Tudo isso devo às dificuldades que passei na vida.
Coluna – Você falou um pouco da sua fé. É evangélico e tem como referências Caio Fábio e Ed René Kivitz. De que maneira sustenta sua fé? Tem um vídeo de você chorando copiosamente, dizendo que nunca largará Jesus. O que isso significa para você?
André Janones – Não uso minha fé para manipular as pessoas. Tem gente que acha que não temos um Estado laico, que temos que impor nossa fé. Mas tem outra gente que confunde um Estado laico com um Estado em que as pessoas não podem manifestar a fé.
Não renego minha fé. Tenho Jesus como meu Senhor, meu Salvador. Entreguei minha vida a Jesus. Agora, daí a usar isso politicamente, nunca vou fazer.
Tem uma frase que meu pastor fala de que gosto muito: “Jesus não precisa de advogado. Não precisa defender, brigar por ele. Jesus precisa de testemunhas”. Basta você ser testemunho.
Tem uma frase que o Caio Fábio usa de que gosto muito: “Deus não existe, Deus é”. Não creio em Jesus, porque, para crer em algo, preciso não saber. Estou pondo uma fé naquilo. Eu sei Jesus, vivencio Jesus, experimento Jesus.
O Caio Fábio é minha maior inspiração, porque foi um dos precursores para que entendesse que, quanto menos religiosidade tivesse, mais próximo de Deus estaria. Quanto mais apartado fiquei dos dogmas religiosos, dos líderes religiosos, mais próximo me senti de Deus.
O Deus que concebo é puro amor. Não tem espaço nele para julgar, condenar, apontar o dedo para ninguém. Sirvo a um Deus que chamou os pecadores para caminhar ao lado dele.
Existem muitas polêmicas no meu nome. Muitas são falsas, muitas são verdadeiras, muitas eles aumentam de tamanho. Mas vejo um lado positivo nisso, porque impede as pessoas de criarem um mito em torno de mim.
Não quero ser um mito, não quero ser um cidadão de bem. Quero ser um homem comum, como todos são.
Jesus disse: “Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra”. Só quero do meu lado pessoas que não são perfeitas, que erram, acertam, mas têm um propósito, um caminho de não errar mais, de seguir o caminho correto.
Respeito todas as fés. Teve um episódio interessante em Belo Horizonte, num evento a que fui. Uma pessoa me parou na rua e falou — isso não é menosprezo, é porque de fato não conheço os termos, os rituais da religião que vou citar —: “Posso colocar sua foto…?”. Não lembro, não sei se falou orixá, o que era do candomblé.
Olhei e falei: “Pode”. Ela perguntou de novo: “Você entendeu? Vou colocar sua foto…”. Falei: “Sim, entendi. Pode”. Ela disse: “Mas você não é evangélico?”. Respondi: “Sou evangélico, mas você não é. Assim como está respeitando minha fé, estou respeitando a sua. Não creio no que você crê, mas não é sobre minha crença, é sobre sua crença, sobre o que vai falar, o que vai pedir sobre mim”.
Isso resume a maneira como concebo minha fé. Fé, para mim, é algo íntimo, particular, que não escondo, mas também não tenho que ficar expondo, instrumentalizando politicamente.
Coluna – Você ajudou a construir essa vitória e quer ir para a Câmara dos Deputados. O que quer fazer com a força política que conquistou? Qual responsabilidade passou a ter diante das pessoas que confiaram em você? Muita gente no Brasil confia em você. O que quer fazer com isso?
André Janones – Quero dar governabilidade ao presidente Lula. Leia-se: o Exército do Lula, essas pessoas que você citou que confiam em mim, e eu representando elas, porque sou ciente de que sozinho não tenho força alguma.
Quero dar governabilidade ao presidente Lula porque sabemos que a extrema-direita elegeu uma maioria esmagadora na Câmara e no Senado. Estão dizendo que não vão deixar o presidente governar.
Vou contar em primeira mão o que falei para ele. Na hora da apuração, quando o presidente ganhou a eleição, a primeira fala… Até divulguei uma foto na rede, nem coloquei legenda. Estou abraçando a cabeça dele, ao pé do ouvido.
O que falo ali? “Nossa missão a partir de agora é dar ao senhor a aprovação de governo que merece. Faremos do governo Lula 4 o governo mais popular que o senhor já teve na vida.”
Meu objetivo é contrapor essa maioria que a extrema-direita tem no Congresso, na Câmara e no Senado, com esse apoio popular, com a população governando junto, para o presidente superar isso e não se deixar ser refém do Centrão, da extrema-direita, de ninguém.
Coluna – Você não acha que o ministério precisa ser mais novo, mesmo falando aquilo que falou para mim sobre quem estava ao lado dele quando estava preso, quando começou o PT? Não acha que precisa de pessoas mais novas no ministério?
André Janones – Acho que tem pessoas que estão com ele há mais tempo e que são novas também. Tem outras alas que podem ser valorizadas.
Não podemos desprezar a experiência dos mais velhos, mas realmente é preciso uma oxigenação. Acho que tem espaço para essas pessoas, sim.
Ali estava falando de uma coisa mais relacionada a mim. Era um cara que sequer era de um partido de esquerda, estava filiado a um partido de centro, tinha chegado ontem. Do nada, porque fez um papel na eleição de 2022, vai chegar lá? Não é assim.
O espaço a gente vai conquistando devagarinho, e aconteceu. Agora tenho meu espaço, sou ouvido. Tudo no seu tempo.
Coluna – Não devo entender nada de política, mas, se fosse o presidente Lula, te colocaria exatamente ao meu lado.
André Janones – Mas vou estar ao lado dele, Matheus. Vou ser ouvido. Acredito que vou ser muito ouvido na comunicação. Só não vou ter a amarra de um cargo ministerial.
Coluna – Se sua mãe pudesse escolher uma cena de tudo o que você viveu até aqui, qual acha que seria? E qual delas escolheria para mostrar ao menino que saía cedo de casa sem saber quando ia comer, que foi cobrador de ônibus, que lutou pelas pessoas para terem atendimento no hospital? Uma cena para definir André Janones, a pessoa mais importante da eleição de 2026, que levou o maior político de esquerda da história da América Latina a um quarto mandato.
André Janones – Acho que um filme que passa na cabeça dela, que passou na minha várias vezes nessa campanha, é que, quando o presidente Lula deixa o mandato em 2010, estou no interior de Minas, um advogado recém-formado, num escritório montado com móveis da cozinha da minha mãe, onde ela era secretária, porque não tinha condições de investir no início.
Digo para ela — e ela lembra disso —, quando o Lula estava deixando o governo: “Na hora em que minha situação financeira melhorar, vou pegar um ônibus, ir até São Bernardo e ficar na porta da casa dele todo dia de manhã até o fim da tarde. Em algum momento, vou cruzar com ele, só para poder pegar na mão e agradecer tudo o que fez”.
Imagine o cara que sonhava um dia pegar na mão do Lula para agradecer o que fez pelo país. De repente, está na Avenida Paulista discursando ao lado do presidente no dia da vitória. Discursando a convite dele, porque nunca fui de brigar por espaço. Nem sabia que ia falar naquele dia.
Ele me convida, e depois acontece uma coisa que me emocionou ainda mais. Termino de falar e saio na mesma hora. Falei até em voz alta: “Vou sair agora para dar espaço para outras pessoas chegarem perto dele”.
Saí, fui para longe, outra parte do trio. Dois minutos depois, as pessoas chegam: “O presidente está te chamando”. Chego lá, era para a execução do Hino da Independência. Ele olha para mim e fala: “Quero você aqui do meu lado durante a execução desse hino”.
Acho que isso reflete algo… É como alguém que sonhava conhecer um jogador de futebol e está ao lado dele tocando bola numa final de Copa do Mundo. Isso retrata bem.
Tem outras histórias que ainda quero contar, bem profundas, sobre os bastidores da campanha, sobre meu passado. Mas vamos deixar para uma próxima oportunidade. Faço o compromisso de voltar contigo.
Coluna – Você vai para as Filipinas e para a Turquia com o presidente ou vai ficar no Brasil?
André Janones – Vou embora. Vou segunda-feira com ele.
Falando desses convites que tenho recebido do exterior, sempre tenho dito… Por exemplo, a questão da Espanha: fui convidado por dois partidos de lá, um deles o partido do primeiro-ministro.
Vou contar mais um bastidor, já que você tinha pedido no almoço também. No almoço com o presidente, falamos da ida à Espanha. Falei para ele: “Só vou se o senhor autorizar. Então o senhor entra em contato com o ministro, vê o que é. Para onde o senhor determinar, é para lá que vou”.
Outro bastidor: tinha ido para a Argentina para dar uma entrevista a um canal de televisão. Por que estou priorizando atender a imprensa estrangeira agora? Porque acho que, aqui no Brasil, está aí o que pude contribuir, o que ensinei de técnicas. Estou querendo levar isso para fora, porque quero contribuir para chegar a mais pessoas.
Aceitei dar uma entrevista na principal TV da Argentina e fui para isso. No domingo à noite, durante um jantar, alguém sugeriu: “A Cristina quer falar com você. O que acha de visitá-la em vez de ligar?”.
Perguntei: “O presidente Lula sabe?”. Disseram que não. Falei: “Então peça para a Cristina pedir a ele”. Ela tentou falar algumas vezes, não conseguiu. No outro dia, liguei para ele e falei: “Presidente, não vou visitar nenhum país sem que seja um pedido do senhor”.
Daqui para a frente vai ser assim, conforme o pedido, a autorização do presidente. Claro, se for convidado como deputado, uma missão da Câmara dos Deputados, é outra história. Tenho minha independência como deputado. Sou dono do meu mandato, o povo me elegeu.
Só que, quando vem um convite para falar sobre o exército, o exército é de quem? Não é do Janones, é do Lula. Existe uma hierarquia. Não me sentiria à vontade de falar sem a anuência dele, até porque estou, com muito orgulho — é uma dádiva para mim —, debaixo da liderança dele. Assim vou permanecer.
Coluna – Minha família foi vítima da ditadura. Meus pais foram presos, barbaramente torturados. Minha mãe estava grávida do meu irmão mais velho. Essa extrema-direita é viúva da ditadura. É possível vencer a extrema-direita no mundo, deputado André Janones?
André Janones – Estou absolutamente convicto disso. Por isso estou com uma tara em dar entrevista para o exterior, porque quero mostrar que é possível.
Ontem falei com a televisão da Alemanha, com o principal jornal de Portugal. Hoje tenho entrevista para um veículo da Suíça, dois da Espanha. Tem um, se não me engano, do Japão também.
Por que essa ânsia de mostrar que é possível? É possível replicar tudo o que fizemos no Brasil? Não. Primeiro, temos um Lula, e não temos um Lula em todo país do mundo. Segundo, tem minha figura, meu tom de voz, a maneira popular como me comunico.
Mas pelo menos 30% a 40% do que fizemos aqui é replicável. É receita de bolo que vale para qualquer lugar do mundo, porque são técnicas algorítmicas.
É isso que quero levar para o mundo. Talvez não sejam 30%, que sejam 5%. Talvez esses 5% possam ajudar a definir uma eleição.
Quero levar a mensagem: sim, podemos derrotar a extrema-direita. Não vou usar a expressão “fácil”, talvez seja um pouco ousado. Ia dizer “mais fácil”, mas vou dizer “menos difícil”. É menos difícil do que imaginam.
Acredito, de fato, que em cinco anos, no máximo, o mundo estará livre da extrema-direita de forma definitiva. Vamos vê-los simplesmente como um capítulo triste da história, como hoje vemos o nazismo. Acho que está muito perto de acontecer.
Coluna – E aí você projeta um cenário de hegemonia da esquerda, Janones?
André Janones – De maneira alguma. Nenhum democrata defende hegemonia. Prevejo um cenário em que teremos divisões ideológicas, como sempre tivemos: esquerda, direita, centro-esquerda, centro-direita, centro.
Estaremos debatendo ideias. Só que não vou estar aqui com medo de dar uma entrevista para o Matheus e pedir para alguém checar antes se é bolsonarista, porque, se for, vai tentar assassinar minha reputação.
Estaremos num mundo de confronto de ideias, simplesmente. É nisso que acredito e é isso que espero que aconteça muito em breve.

