Instagram mostra a prosperidade que o eleitor deseja e governo não entrega
Lula lança o Prospera MEI e disputa com Flávio Bolsonaro a palavra central da eleição. Dívidas e redes ajudam a explicar seu peso no voto

Lula anunciou nesta terça-feira (13/10) o Prospera MEI, voltado a quem trabalha por conta própria. Segundo a divulgação do programa, a proposta prevê R$ 5 mil para o microempreendedor investir no negócio, perdão de 100% das dívidas tributárias, fim da obrigatoriedade de nota fiscal para pessoa física, aumento do teto anual de faturamento de R$ 81 mil para R$ 140 mil e permissão para contratar até dois funcionários.
O pacote vai além do que o governo vinha oferecendo. O Desenrola MEI, lançado em julho, atende microempreendedores com até R$ 20 mil em débitos na dívida ativa da União, com descontos sobre juros, multas e encargos limitados a 70% do valor total da dívida. Mais revelador que os números, porém, é o nome do programa.
Prosperidade não era uma palavra do vocabulário de Lula. Quem percebeu primeiro sua força eleitoral foi Flávio Bolsonaro. Na reta final, o senador prometeu criar um Ministério da Prosperidade e transformar a Caixa num banco da prosperidade. O termo vem da teologia da prosperidade, pregada nas igrejas neopentecostais, que liga fé, esforço pessoal e enriquecimento, e chegou ao palanque pelas mãos de Pablo Marçal. Flávio já tinha subido ao palco de uma mentoria do ex-coach, que no fim de setembro entrou na campanha para cuidar das propostas de empreendedorismo e mobilidade social.
Lula agora disputa a mesma palavra. Antes do anúncio, publicou no Instagram que o brasileiro quer prosperidade e que trabalha para que cada um suba na vida. O alvo é o pequeno empreendedor, eleitor que a direita corteja com insistência.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesA disputa pela palavra acontece porque a eleição está apertada. Nas pesquisas PoderData e BTG/Nexus divulgadas hoje, Flávio tem 48%, contra 46% e 45% de Lula, respectivamente, diferenças dentro das margens de erro. Os dois levantamentos apontam 50% de desaprovação ao governo. É uma contradição: o país melhorou no emprego e na renda, e mesmo assim o presidente enfrenta rejeição alta.
Parte da explicação está na distância entre a vida que se tem e a que se deseja. O brasileiro acorda cedo, cumpre o expediente e paga as contas. À noite, no celular, vê gente viajando, comprando apartamento e trocando de carro. Fica a sensação de que todo mundo prosperou, menos ele.
Por que parte do eleitorado quer mudar justamente quando os índices econômicos melhoraram? Talvez a resposta esteja menos nas estatísticas e mais no modo como as famílias sentem essa melhora.
Arrumar trabalho não é o mesmo que ter um bom emprego, e ganhar mais não significa terminar o mês com sobra. A Folha mostrou nesta terça-feira (13) que o saldo do rotativo do cartão e do cheque especial entre quem ganha mais de dez salários mínimos cresceu 93% e já soma R$ 30,3 bilhões, 23,3% do total.
Entre os mais pobres, o cartão cobre o supermercado e a farmácia. Segundo a Confederação Nacional do Comércio, 81,7% das famílias estavam endividadas em setembro, quase três em cada dez com contas atrasadas, e as dívidas consumiam perto de 30% da renda. O governo anuncia aumento de salário, mas o trabalhador olha o que sobra depois das prestações e não vê ali a prosperidade prometida.
A régua da comparação também mudou. Antes, a gente se media pelo parente e pelo vizinho. Hoje o Instagram é uma vitrine de prosperidade que nunca fecha. Nem sempre há mentira, a viagem aconteceu e o carro existe. Só que ninguém posta a parcela atrasada. Cada um compara a própria rotina com os melhores momentos de milhares de outras pessoas.
Estudos associam esse hábito à sensação de inadequação e ao apego ao consumo. Não provam que a rede cause dívida ou insatisfação política, mas ajudam a entender por que as expectativas crescem mais rápido que a capacidade de realizá-las. O crédito oferece o atalho e os juros cobram caro pela pressa. O salário anda devagar, os desejos se multiplicam e as dívidas tomam uma fatia cada vez maior do orçamento.
Há ainda um problema antigo, que nenhuma rede social inventou. O Brasil segue gerando vagas mal pagas e instáveis. Mais de um terço dos trabalhadores está na informalidade, jovens com diploma ocupam funções abaixo da formação e há casas em que duas pessoas trabalham sem conseguir guardar nada. A taxa de desemprego mostra quem está sem trabalho, não quem consegue comprar uma casa ou acreditar que os filhos viverão melhor.
Duas famílias com os mesmos R$ 6 mil por mês podem viver realidades opostas. Uma mora em imóvel quitado e consegue poupar. A outra paga aluguel, financiamento e cartão. Para a primeira, um aumento vira viagem. Para a segunda, só um aperto menor.
É possível reconhecer que a economia melhorou e seguir insatisfeito com a própria vida. O eleitor pode estar julgando o que os indicadores deixam de fora, como o aluguel caro, o ônibus lotado, a saúde precária, o medo da violência e a dificuldade de juntar patrimônio. Quando a vida parece parada, a promessa de prosperidade ganha força, venha de onde vier.
Nem todo eleitor de Flávio se move por frustração econômica. Identidade política, rejeição ao adversário, segurança e valores também contam, e as pesquisas não medem o peso de cada fator. Ainda assim, a pergunta se impõe. O brasileiro está insatisfeito porque a vida piorou ou porque, mesmo melhorando, continua longe da vida que imaginou?
Se o problema fosse só desemprego, abrir vagas bastaria. Se fosse só inflação, segurar preços resolveria. Mas, se a frustração vem também do trabalho ruim, das dívidas e da falta de perspectiva, prosperar exige empregos que permitam crescer, uma renda que sobreviva às contas e alguma segurança sobre o futuro.
Talvez esteja aí parte do desejo de mudança. Não a certeza de que outro candidato resolverá tudo, mas a percepção de que a melhora anunciada ainda não chegou à vida que o eleitor gostaria de levar. É essa lacuna que Lula e Flávio tentam ocupar com a mesma palavra.
No fim do mês, o brasileiro segue diante de duas telas. Na do banco, o saldo apertado. Na do Instagram, uma prosperidade que parece ao alcance de todos.

