Imagine um presidente Nikolas pregando boicote a quem vota diferente
Deputado sugeriu que lojistas petistas se identifiquem com bandeira para facilitar boicote e pode acabar no Conselho de Ética da Câmara

Nikolas Ferreira (PL-MG) levou só cinco dias para transformar a derrota de Flávio Bolsonaro em caça ao comerciante, exatamente ao público a quem tanto prega. Sugeriu que lojistas de esquerda pendurassem uma bandeira do PT na porta para facilitar o boicote. Publicou um vídeo a favor de deixar de comprar de eleitores de Lula, que passou de 2,9 milhões de curtidas. Na quinta-feira (29), respondeu com um “faz o L e engole o choro” a uma comerciante que reclamava da perda de clientes. O empresário Facundo Guerra comparou a proposta a perseguições do período nazista.
Agora imagine um presidente que pensasse como ele. O Plano Safra seria negado ao produtor que votou no adversário. A obra seria cancelada no estado do governador rival, e a emenda cortada da cidade do prefeito petista. A Receita, a Polícia Federal e os bancos públicos receberiam a lista das lojas com bandeira na porta. Seria um país dividido entre clientes e suspeitos, em que cada compra vira declaração de voto e cada CNPJ carrega uma ficha partidária. Talvez tenha sido por esse perigo que a Constituição exige 35 anos para disputar a Presidência. Aos 30, Nikolas ainda tem de amadurecer. Talvez Renan Santos possa ajudar.
O episódio pode ter consequências no Conselho de Ética da Câmara. O Código de Ética e Decoro Parlamentar diz que todo deputado tem o dever de tratar os cidadãos com respeito, como determina o artigo 3º, inciso VII. Descumprir esse dever de propósito é conduta que fere o decoro, segundo o artigo 5º, inciso X. As penas vão da censura à suspensão de prerrogativas ou do próprio mandato por até seis meses.
Três fatores pesam contra o deputado. O primeiro é que tudo está documentado em posts públicos, com números de alcance, e não é preciso adivinhar a intenção. O segundo é que o boicote já tem efeito real. O Ministério da Justiça notificou ao menos quatro empresas que teriam recusado atender apoiadores de Lula, o que pode configurar prática abusiva e publicidade discriminatória. O terceiro é que a conduta vai além da opinião. Pedir que o consumidor escolha onde comprar é uma coisa. Propor que lojas sejam marcadas pela opinião política do dono é estimular a discriminação de cidadãos. Qualquer partido com representação no Congresso pode levar o caso direto ao Conselho. Um cidadão também pode pedir a abertura do processo à Mesa da Câmara, desde que apresente provas.
O contraste com o governo que Nikolas combate é grande. Em 2024, Lula lançou um Plano Safra de R$ 400,5 bilhões em cerimônia com empresários do agronegócio, setor que é uma das principais bases eleitorais de Jair Bolsonaro. Com Tarcísio de Freitas, aliado de Bolsonaro, fechou o túnel Santos-Guarujá, em que a União e o estado vão investir R$ 2,7 bilhões cada. O próprio Nikolas tem direito a R$ 39,9 milhões em emendas individuais em 2026, dinheiro que vem também do imposto pago pelos lojistas que ele quer ver boicotados.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesA defesa do deputado deve recorrer à imunidade parlamentar, que protege opiniões e palavras dos deputados.

