Flávio é retrocesso, diz mãe de Paulo Gustavo, que viu Bolsonaro rir
Mãe de Paulo Gustavo lembra a vacina que tardou; Lula ampliou o remédio grátis no SUS e hoje é cobrado pelo mercado por não cortar despesas

“Flávio é retrocesso. Se eu olhar o sobrenome, me dá arrepio.” Déa Lúcia Amaral, a dona Déa, disse isso em vídeo divulgado neste domingo. Ela é mãe do ator Paulo Gustavo, morto pela covid em 2021. Faltam sete dias para o segundo turno, e Flávio Bolsonaro chega na frente: teve 47% dos votos no primeiro turno, contra 45% de Lula. Com uma diferença tão pequena, a campanha virou uma disputa pela memória. De um lado, estão a pandemia e um governo que cortava remédio. Do outro, um governo que gastou mais para consertar o estrago e é cobrado por isso pelo mercado financeiro.
Para dona Déa, o sobrenome traz de volta o filho. “Ele sempre dizia: se eu pegar a covid, eu vou morrer. Essa vacina deveria ter vindo antes. Muito tempo antes. Não deu tempo.” Paulo Gustavo, criador de _Minha Mãe é uma Peça_, personagem inspirada nela, escreveu nas redes “Cadê a vacina, meu Deus?” dias antes de ser internado, em março de 2021. Morreu em 4 de maio, aos 42 anos.
Depois vem a frase mais dura. “E o governo ria. O nosso presidente ria. Isso eu falo com ódio.” Em transmissões ao vivo naquele ano, Jair Bolsonaro imitou uma pessoa com falta de ar, o sintoma que matava milhares de brasileiros por dia. Antes, já tinha chamado a doença de “gripezinha”. Para ela, o dia 25 é sobre isso. “Isso não pode voltar. Vamos com o Lula, pelo amor de Deus.”
A vacina que ficou na caixa de e-mail
O documentário _Anatomia do Caos_, de Dandara Ferreira, diretora de _Meu Nome é Gal_, tenta explicar com provas o que dona Déa sente na pele. O filme estreou nos cinemas em julho e, desde sexta-feira (16), está de graça no YouTube até o dia da eleição. Dandara gravou por dentro a CPI da Covid, relatada pelo senador Renan Calheiros, e refaz o caminho da tragédia, da cloroquina à falta de oxigênio em Manaus.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesO ponto mais doloroso é a vacina. Em agosto de 2020, a Pfizer ofereceu 70 milhões de doses, com entregas a partir de dezembro, e mandou dezenas de e-mails sem resposta. O Butantan ofereceu a CoronaVac várias vezes e também esbarrou em silêncio. O Brasil passou de 700 mil mortos. A CPI pediu o indiciamento de Bolsonaro e de mais 79 pessoas, mas a Procuradoria-Geral da República pediu o arquivamento das apurações contra ele.
Enquanto isso, o remédio da esquina encolhia
Quem tem pressão alta, diabetes ou asma também sentiu. Em 2019, o Ministério da Saúde suspendeu contratos com sete laboratórios públicos, entre eles Butantan e Fiocruz, para fabricar no Brasil 19 remédios do SUS, de insulina a remédios contra o câncer. Em 2020, no auge da covid, o ministro Paulo Guedes chegou a avaliar acabar com o Farmácia Popular. Não acabou, mas o programa encolheu: atendeu 1,2 milhão de pessoas a menos e chegou ao menor número de farmácias desde 2013.
Em 2022, o plano de gastos que Bolsonaro mandou ao Congresso cortava 59% do dinheiro dos remédios gratuitos, de R$ 2 bilhões para R$ 842 milhões. Segundo um especialista do Senado, a verba abriria espaço para o orçamento secreto, o dinheiro que parlamentares distribuíam sem transparência. O próprio ministério calculou que o programa duraria só quatro meses. A notícia estourou em plena campanha, e Bolsonaro recuou.
O que Lula teve que fazer, e quanto custou
O conserto saiu caro. A PEC da Transição liberou R$ 16,6 bilhões para a saúde antes mesmo da posse. Depois, a área voltou a ter direito a uma parte fixa da arrecadação, e o orçamento chegou a R$ 218 bilhões em 2024, R$ 48 bilhões a mais que pela regra antiga. O dinheiro não saiu de cortes em outras áreas. O governo foi autorizado a gastar mais, e isso pesa na dívida pública, que é a principal crítica da oposição.
Na farmácia da esquina, a mudança foi visível. Primeiro, quem recebe Bolsa Família passou a levar todos os remédios do programa sem pagar. Em fevereiro de 2025, a gratuidade virou regra para todos: os 41 itens, de remédio de pressão a fralda geriátrica, ficaram de graça. O orçamento do programa foi de R$ 2,5 bilhões em 2022 para R$ 4,2 bilhões em 2025. O número de atendidos bateu recorde, com 27,3 milhões de pessoas, mais de 6 milhões a mais que no último ano de Bolsonaro. Quase 7 em cada 10 são idosos. O governo também retomou a fabricação nacional de remédios caros, com 31 novas parcerias e previsão de R$ 15 bilhões em investimento.
Na campanha, Flávio promete cortar cerca de R$ 200 bilhões em gastos públicos. O plano que ele entregou à Justiça Eleitoral não diz se o Farmácia Popular estaria na lista.

