Exclusivo: ministra de Lula chama fuga de Flávio de “grande covardia”.
Fernanda Machiaveli critica saída de Flávio do país e aponta erros do adversário de Lula no diálogo com agricultores e mulheres rurais

A ministra do Desenvolvimento Agrário, Fernanda Machiaveli, classificou a saída de Flávio Bolsonaro do país após a derrota eleitoral como “uma grande covardia” e atribuiu o avanço de Lula nos municípios rurais a erros do adversário, como ignorar a agricultura familiar e as demandas das mulheres do campo.
Segundo os dados apresentados por ela, nesses municípios rurais Lula conquistou cerca de quatro votos adicionais para cada voto conquistado por Flávio. Já nas cidades de até 50 mil habitantes, vieram 3,29 milhões dos 10,38 milhões de votos que Lula ganhou entre os dois turnos — quase um terço desse crescimento.
Cotada para continuar à frente da pasta, Machiaveli também afirmou que a campanha apostou numa comunicação mais técnica no primeiro turno, quando os eleitores queriam conhecer as propostas para o futuro. A entrevista foi concedida a este colunista no programa Agora Metrópoles, quando ela explicou a mudança de estratégia para a virada no segundo turno.
Confira os principais trechos da entrevista abaixo:
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Coluna – Nos municípios rurais, Lula conquistou cerca de quatro votos adicionais para cada voto conquistado por Flávio Bolsonaro. Houve um erro de leitura ao tratar o campo como predominantemente bolsonarista?
Fernanda Machiaveli – Acho que houve vários erros do outro lado em não compreender as necessidades do povo do campo, da população rural do nosso país. Começando pela fala equivocada em relação às aposentadorias. Para a população rural, a previsibilidade dessa renda é muito importante para a população idosa. Já começou falando sobre desvinculação da aposentadoria da valorização do salário mínimo. Isso prejudicou bastante a percepção do eleitor dos municípios pequenos, que pretende um dia se aposentar como trabalhador rural, como agricultor.
Depois, um equívoco completo de ignorar o papel da agricultura familiar nos municípios de menor porte, especialmente nesses municípios rurais. Além disso, ele não dialogava com as mulheres e com as suas necessidades. As mulheres rurais também tiveram um papel muito importante para fazer essa virada.
Em quarto lugar, não apresentou nenhum tipo de proposta que dialogasse com as demandas de desenvolvimento rural, de bem viver nesses pequenos municípios. Além de não dialogar com a questão da produção, também não trouxe propostas que discutissem o acesso às várias políticas públicas, à efetivação dos direitos nos municípios pequenos, especialmente nos municípios rurais.
A consequência foi essa: a população rural majoritariamente optou, nesse segundo turno, pelo presidente Lula. Houve um aumento do contingente de eleitores que participaram das eleições nesses municípios com característica rural, uma redução de brancos e nulos e uma escolha majoritária daqueles eleitores que tinham escolhido outros candidatos por migrarem agora o voto para o presidente Lula.
Inclusive, Flávio Bolsonaro, no Norte, teve redução dos votos entre o primeiro e o segundo turno nos municípios rurais, o que mostrou que aquela fala foi muito infeliz, desqualificando a cidade de Belém e também ofendendo os habitantes, a população do Norte do Brasil.
Coluna – Vi um vídeo seu no Instagram e percebi que a senhora tem um estilo meio Janones de trabalho nas redes sociais. Nesse vídeo, a senhora mostrou que, dos cerca de 10 milhões de votos que Lula conquistou do primeiro para o segundo turno, 3 milhões vieram de municípios de até 50 mil habitantes, quase um terço desse crescimento. Durante esse trabalho, o que vocês ouviram que ainda falta entregar a essa população? Houve cobranças ou havia desinformação sobre o trabalho do governo nessas cidades?
Fernanda Machiaveli – Primeiro, obrigada por me comparar ao Janones, que é a grande referência em comunicação no nosso país. [Risos]
Alguns pontos são relevantes para colocar aqui. De fato, houve um avanço muito substantivo nesses municípios que têm até 50 mil habitantes. Aí foi um para três. Quando a gente olha os municípios rurais, é um para quatro. O presidente Lula ganhou quatro votos para cada um do Flávio nos municípios rurais e ganhou três votos para cada um nos municípios com menos de 50 mil habitantes, o que mostra que os pequenos municípios optaram pelo presidente Lula.
A segunda coisa importante é que, sim, a gente precisou trabalhar na comunicação dos avanços que tivemos, e foram muitos. Os maiores Planos Safra da história do Brasil. Os Planos Safra para a agricultura familiar alcançaram agora o patamar de R$ 85 bilhões. Não faltou recurso para o Pronaf durante os quatro anos do governo do presidente Lula, ao contrário do governo Bolsonaro, em que, em todas as safras, o recurso foi interrompido na metade.
Nós reconstruímos o programa de seguro rural para a agricultura familiar, o Proagro, que estava tendo vários apontamentos dos órgãos de controle de indícios de fraudes. Fizemos o enfrentamento disso e conseguimos hoje entregar um programa que dá segurança para o produtor rural, com baixas alíquotas, de que ele vai produzir e estar seguro se houver um evento climático.
Conseguimos voltar a ter compras diretas da agricultura familiar por meio do Programa de Aquisição de Alimentos. O Pnae voltou a comprar da agricultura familiar e hoje compra 45%. As mulheres rurais nos reivindicaram quintais produtivos. A gente fez mais de 160 mil quintais produtivos, apoiando as iniciativas das mulheres para terem maior autonomia econômica.
Essas foram as conquistas: mostrar o que tínhamos feito. Mas, mais do que isso, também foi mobilizar esses agentes territoriais para que esse diálogo acontecesse. O que foi muito bonito nessa disputa no rural foi que fizemos um convite, por meio de uma live, para que os próprios agricultores contassem as histórias deles, como a vida deles tinha mudado, o que tinha mudado.
Foram centenas de vídeos publicados pelos próprios agricultores contando a sua realidade no rural brasileiro e mostrando para a comunidade, para os vizinhos, lembrando que muitas das vitórias, das conquistas pessoais, são fruto do esforço, do trabalho árduo, mas também de um governo que aposta e acredita no agricultor que está nas pequenas e médias propriedades e que aposta nele como motor do desenvolvimento rural.
Coluna – Queria fazer duas perguntas em uma. Vi esse trabalho de comunicação de forma muito profunda no segundo turno, mas, no primeiro, achei que o governo entrou com um pouco de salto alto. Faltou essa mesma comunicação? E como a senhora avalia a fuga de Flávio Bolsonaro após a eleição, depois de fazer uma campanha prometendo também atender às demandas do campo?
Fernanda Machiaveli – Primeiro, sobre a fuga do senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência: considero uma grande covardia. Ele deveria estar aqui liderando a oposição num regime que é claramente uma das democracias mais sólidas do mundo. A prova disso é que o PL tem uma grande representação agora no Congresso Nacional e vai poder fazer oposição. A madrasta dele e os dois irmãos estão eleitos, vão exercer os seus mandatos.
As eleições decorreram de forma bastante plural, em que todos os candidatos tiveram muita oportunidade de se comunicar livremente com as suas bases, usando todos os instrumentos, seja a televisão, sejam as redes sociais. Houve um diálogo com livre expressão. A imprensa no Brasil é totalmente livre para fazer críticas, apontar falhas, fazer pontuações para o governo e para os demais atores da sociedade.
Todas as características de uma democracia sólida nós temos. Ele competiu em condições absolutamente iguais. São dois lados que tiveram condições de se comunicar com a população. E ele perdeu porque a população percebeu que o que ele propunha era o retrocesso: retroceder em relação a direitos, políticas públicas, oportunidades, a uma política econômica, a um conjunto do que ele propunha para o Brasil como um todo, inclusive sobre o agro.
Agora ele vai lá, passa esse grande papelão de chegar a outro país, ser repreendido pelo próprio governo americano, que manda ele trocar os termos da carta golpista que havia publicado. Tem que se retratar, não consegue colocar sequer o brasão certo da República do Brasil e mostra para o conjunto dos seus eleitores um desrespeito e uma falta de compromisso com o que ele mesmo propunha.
Porque quem não deve não teme. Se a questão é que ele está enfrentando um inquérito de lavagem de dinheiro e de evasão de divisas, era só realmente mostrar os dados que o presidente Lula mostrou em relação ao seu sigilo bancário. Ele poderia muito bem estar aqui exercendo o seu papel de organizar a oposição.
Coluna – Retomando a primeira parte da pergunta: houve salto alto na campanha do presidente Lula no primeiro turno? No segundo, houve um trabalho muito profundo, mas, no primeiro, vimos algumas falhas.
Fernanda Machiaveli – No primeiro turno, houve uma aposta numa comunicação mais técnica, que era comparar dados, falar: “Quem compara vota Lula”. Porque, de fato, os resultados eram muito melhores quando a gente olhava as entregas para a população nas políticas públicas.
No entanto, não era só sobre isso. A população quer o que foi feito, mas quer mais. Então, era também mostrar a perspectiva de futuro e conseguir comunicar para as pessoas, engajando elas dentro de um projeto. Foi isso que aconteceu no segundo turno. Foi apresentado um projeto e também uma maneira de se engajar e fazer parte da construção desse projeto.
O Exército do Lula, por um lado, nas redes, a mobilização da juventude nas ruas e nós mobilizando as roças, por meio do Brasil Rural com Lula, conseguimos fazer com que a mensagem do presidente Lula e o projeto que ele representa chegassem às várias pessoas, que as dúvidas fossem retiradas, que se conseguisse ver que o descontentamento em alguns setores não podia tapar a lucidez das pessoas.
Foi assim que conseguimos um voto de confiança da população, que mostrou que o presidente Lula é a pessoa em quem confia para seguir liderando o nosso país. Agora vamos fazer mais e melhor para a agricultura brasileira, do menor até o maior, impulsionando a produção de alimentos saudáveis no nosso país e garantindo que cheguem à mesa de todos os brasileiros e brasileiras, e que isso seja só o começo desse grande processo de desenvolvimento no nosso país.

