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Matheus Leitão

Exclusivo: Bruna Lombardi escreveu no sertão para não enlouquecer. Vídeo

Autora conta como nasceu Diário do Grande Sertão e fala do novo romance, Mulheres que sentem os espíritos, feito ao longo de quatro décadas

27/09/2026 06:00
Bruna Lombardi com os incríveis livros Diário do Grande Sertão e Mulheres que Sentem os Espíritos
Bruna Lombardi com os incríveis livros Diário do Grande Sertão e Mulheres que Sentem os Espíritos

Bruna Lombardi escreveu para não enlouquecer no sertão. Enquanto atravessava Minas Gerais, Goiás e Bahia para viver Diadorim em Grande Sertão: Veredas, anotava em papéis avulsos o que aquela personagem, a paisagem e o mundo de Guimarães Rosa provocavam dentro dela. Quarenta anos depois, Diário do Grande Sertão volta às livrarias em uma edição ampliada e encontra outro livro, Mulheres que sentem os espíritos, nascido de uma promessa feita naquele tempo: um dia, Bruna escreveria sobre as mulheres fortes de sua família.

A literatura, porém, veio antes da atriz conhecida por todo o Brasil. Ainda muito jovem, Bruna teve seu primeiro livro de poesia prefaciado por Chico Buarque, conviveu com Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade e Mario Quintana e construiu uma obra que atravessa poemas, romances, crônicas, roteiros e diários. Neste ano, essa trajetória recebeu um reconhecimento especial: sua eleição para a Cadeira nº 15 da Academia Paulista de Letras.

Bruna também atravessou a televisão, o cinema e o jornalismo com independência e curiosidade. Em 1992, diante de um empresário chamado Donald Trump, fez uma pergunta que parecia improvável: se ele gostaria de ser presidente dos Estados Unidos. A resposta foi não. A história mostrou a genialidade e o extraordinário faro daquela entrevistadora.

Em entrevista ao programa Que Dia, apresentado por este colunista nos canais do Metrópoles, Bruna fala sobre a experiência transformadora no sertão, a força das mulheres, espiritualidade, literatura, amor e as escolhas que lhe permitiram preservar a liberdade ao longo da carreira.

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Coluna – Você acaba de ser eleita para a Cadeira nº 15 da Academia Paulista de Letras. Durante muito tempo, sua enorme projeção na televisão e no cinema talvez tenha deixado em segundo plano, para parte do público, uma trajetória literária iniciada ainda nos anos 1980. O que representa esse reconhecimento?

Bruna Lombardi – Tudo o que é pop, público e feito em grande escala tem uma tendência a esconder as coisas mais delicadas, mais sutis. E escrever é a arte da sutileza, da delicadeza. Evidentemente, a projeção da atriz sempre será diferente da projeção da escritora.

Talvez a Academia não seja uma coisa muito popular, mas, pessoalmente, tem um significado muito especial. Eu já havia sido convidada duas vezes para integrar a Academia Paulista de Letras e, nas duas ocasiões, fui obrigada a dizer não por uma situação de vida. Estava viajando muito, morando fora e fazendo uma série de atividades. Não tinha tempo para me dedicar, e não gosto de entrar em nada sem me dedicar. Agora me sinto entre amigos, entre pessoas que admiro muito, e estou muito contente de estar lá.

Coluna – Você é atriz, poeta, romancista, roteirista, produtora, diretora e entrevistadora. Como se define profissionalmente hoje? Qual dessas Brunas está mais presente neste momento?

Bruna Lombardi – Sempre fui muito dividida por causa das minhas curiosidades e das coisas que faço. Escrevo desde criança. Essas diversas Brunas sempre foram muito separadas, e o que consegui com o tempo foi juntá-las e ser uma só.

Sou uma pessoa muito curiosa, interessada pelas coisas e pelas pessoas, com vontade de me aventurar em diferentes áreas. Já fui muito dividida pela visão dos outros, mas hoje digo: sou uma só, fazendo uma série de coisas. Sinto-me uma eterna aprendiz, uma pessoa estudando, descobrindo e fazendo aquilo que ama. Essa é a minha verdade.

Coluna – Você escreveu Diário do Grande Sertão durante as gravações da minissérie, há mais de 40 anos, e disse que escrevia para não enlouquecer. Como era possível escrever no meio daquela experiência?

Bruna Lombardi – O que permaneceu dentro de mim foi o sertão. O sertão ficou para sempre. Essa nova edição mostra bem isso, porque termino o livro com um poema que escrevi recentemente e publiquei em Clímax.

As gravações eram o lugar mais enlouquecedor em que alguém poderia estar. Escrever naquelas condições foi provavelmente o maior desafio que enfrentei como escritora. Eram bilhetinhos, papéis jogados e enfiados nos bolsos, no gibão, onde fosse possível. Perdi muitos deles. Caíram na lama, no meio das guerras, sujaram e rasgaram. Um dia, minha caneta quebrou e perdi tudo o que poderia ter escrito naquela data.

Há um trecho em que quase morri, literalmente. Eram guerras e galopadas com cerca de mil homens, muitos deles moradores da região que nem sequer conheciam a luz elétrica, quanto mais a televisão. Era uma situação única, insólita, que nunca mais vai se repetir porque o Brasil profundo mudou. Conheci aquele coração pulsante do sertão, que é o sertão de Guimarães Rosa.

Coluna – A nova edição recupera materiais que ficaram de fora da primeira publicação?

Bruna Lombardi – Quando lancei a primeira edição, retirei alguns textos. Alguns poderiam funcionar como spoilers; outros falavam de pessoas que estavam ali. Também havia a pressa de lançar o livro enquanto a série estava no ar.

Agora incluí tudo o que havia retirado. Disse: “Agora não há mais nada a perder; vai tudo”. O livro está completo. É o sertão que vi, o sertão que vivi e o Brasil que pensei e senti na pele. Foi uma experiência extraordinária, o maior privilégio e também o maior perigo que vivi.

Coluna – Diário do Grande Sertão é o único registro daquela história feito do ponto de vista de Diadorim, enquanto o romance de Guimarães Rosa é narrado por Riobaldo e foi analisado, durante décadas, principalmente por homens. O que Diadorim revela sobre a condição feminina?

Bruna Lombardi – Essa percepção foi apresentada a mim por Ítalo Moriconi, estudioso de Guimarães Rosa. Ele me disse que meu diário era o único documento sobre Grande Sertão: Veredas sob o ponto de vista de Diadorim, uma das personagens mais icônicas da literatura mundial.

Percebi, sobretudo, a extraordinária delicadeza de Guimarães Rosa. Ele foi para aquele lugar inóspito e cruel e mostrou que ali também existiam ética e delicadeza. Foi um grande feminista, uma pessoa extremamente sensível. Compreendeu que uma mulher, para sobreviver entre os jagunços, precisaria transformar-se em homem, ser valente e feroz como eles e enfrentar tudo para ser respeitada. É uma ideia muito vanguardista.

Essa visão continua atual. Ainda existe uma brutalidade muito presente, e a mulher encontra enorme dificuldade para se impor. Eu senti na pele o que era ser Diadorim e ser mulher naquele ambiente. Éramos de 300 a 500 homens e apenas cinco mulheres, além de cenas que reuniam até 2 mil figurantes.

Também vi homens muito frágeis e sensíveis. Compreendi como é imposta a eles a necessidade de ser forte, de não chorar e de não lidar com os próprios sentimentos. Quando o homem não sabe lidar com isso, muitas vezes parte para a violência. Questões que seriam discutidas muito depois já estavam claras para mim naquela experiência. Não significa que eu estivesse à frente do meu tempo. As coisas já estavam ali; eu simplesmente prestei atenção.

Coluna – Naquele diário, você escreveu que um dia falaria sobre as mulheres fortes de sua família. Quatro décadas depois, essa promessa aparece em Mulheres que sentem os espíritos. Por que foram necessários tantos anos?

Bruna Lombardi – Foram necessários muitos anos e ainda não completei esse ciclo. Tenho mais a dizer sobre essas mulheres. Sou apaixonada por mulheres. Elas sempre foram grandes exemplos para mim, na minha família e entre minhas amigas. Olho para as mulheres com infinita admiração.

Isso não significa que eu não tenha tido ótimos exemplos masculinos. Meu pai, Riccelli e Kim são homens maravilhosos, cuidadosos, que escutam e amam as mulheres. Mas as mulheres têm uma força de luta e uma necessidade de superar barreiras tão gigantescas e absurdas que se transformam em personagens prontas.

Convivi com mulheres que foram faróis para mim, com todas as suas contradições, a loucura, a humanidade e o humor. Não sobrevivemos sem uma parcela de humor.

Mulheres que sentem os espíritos demorou para acontecer dentro de mim. Foi germinando durante muito tempo, mas, quando aconteceu, veio praticamente pronto, como se eu tivesse canalizado uma história que já estava em algum lugar e precisava ser escrita.

Coluna – O romance reúne a ancestralidade grega, o candomblé, a espiritualidade e mulheres em busca de si mesmas. Como nasceu essa história?

Bruna Lombardi – Lorena, a protagonista, acaba de perder a mãe e precisa entrar no quarto dela. É uma pessoa com grande dificuldade de enfrentar a vida. Diante da possibilidade de lutar ou fugir, ela sempre foge. Dora, ao contrário, é luta. Foi obrigada a enfrentar a vida.

As duas partem para uma espécie de odisseia feminina em busca das irmãs da mãe, que vivem na Grécia. Lorena entra em contato com os mitos gregos, enquanto Dora é ligada ao candomblé, aos orixás e à cultura afro-brasileira. A mitologia e a religiosidade vão se misturando.

Mas, acima de tudo, elas estão procurando uma compreensão maior e buscando a si mesmas. É uma aventura sobre humanidade, solidariedade, irmandade, afeto, amor e amizade. Apesar de todos os confrontos, o que lhes dá força é a união.

O livro começa com uma ideia de Jung: aquilo que não enfrentamos em nós mesmos aparece como destino. Essa ideia define muito a história. Aquilo que não enfrentamos virá de alguma maneira. As personagens precisam descobrir suas vozes, encontrar seus lugares no mundo e atender ao chamado daquilo que vieram fazer.

Coluna – Lorena rejeita durante boa parte da vida a herança espiritual recebida da mãe. Por que tantas mulheres precisam fugir da própria história antes de compreender quem são?

Bruna Lombardi – Temos dificuldade de enfrentar aquilo que nos acontece. Algumas mulheres enfrentam, buscam seus ideais e pagam um preço muito alto por isso. Outras não conseguem. Mas o livro não faz um julgamento sobre quem é forte ou fraca. Cada pessoa tem aquilo que precisa vivenciar e suas próprias tomadas de consciência.

A história aborda temas importantes para mim, como o racismo, a violência dos homens e a luta permanente contra a barbárie. Na Grécia, diante dos museus e das ruínas, percebemos como a barbárie sempre tentou destruir a beleza, a civilização, o conhecimento e os livros. A primeira coisa que a barbárie faz é queimar os livros e atacar a cultura.

Isso aparece dentro da história, não como tese. Djamila Ribeiro, Itamar Vieira Junior e Jeferson Tenório foram algumas das primeiras pessoas a ler o romance. Eu precisava ouvir amigos e pessoas que admiro. O livro passa por esses lugares e promove uma busca de consciência para as personagens e, espero, também para quem o lê.

Coluna – Em Filmes proibidos, escrito há mais de 30 anos, você já tratava da liberdade, do desejo e da luta de uma mulher contra um sistema que a reprimia. O que mudou para as mulheres desde então — e o que continua igual?

Bruna Lombardi – A vida é cíclica. Acredito que vivemos situações em espiral, mas também que existe uma ascensão. Voltamos ao mesmo ponto, porém voltamos sabendo mais.

Filmes proibidos já vinha de uma situação anterior, do livro de poemas O perigo do dragão, que foi capa da revista Veja. Era algo muito raro, porque se falava da voz das mulheres na poesia — duas coisas pouco valorizadas socialmente: a poesia e as mulheres.

Minha poesia já vinha dessa busca libertária. A liberdade sempre foi muito importante. Costumo dizer que a herança deixada pelo meu pai foi a ideia de liberdade. Sempre fui contra qualquer forma de repressão e nunca me permiti ser submetida a ela.

Naquele momento, eu precisava falar da liberdade das mulheres, inclusive da liberdade sexual. O país ainda carregava uma história de repressão aos sentimentos, à sexualidade e à posição das mulheres. Minha poesia era libertária, meu romance era libertário, assim como minha voz, minha atitude e minha vida.

O interessante é que esses livros permanecem atuais. Quando Filmes proibidos foi relançado, Giovana Madalosso perguntou como era possível que um livro escrito tanto tempo antes ainda parecesse contemporâneo. Talvez seja porque ele não se submeteu à mentalidade imposta daquele período.

Os livros me ajudaram muito. Desde menina, fui diretamente para a biblioteca do meu pai e do meu irmão. Li Grande Sertão: Veredas aos 15 anos. Eram livros que me arrebentavam por dentro e me deram uma base cultural, uma força e uma postura de enfrentamento. Minha força veio muito do conhecimento e da busca por sair da brutalidade e caminhar para um lugar iluminado.

Coluna – Em 1992, quando Donald Trump ainda era conhecido sobretudo como empresário, você perguntou se ele gostaria de ser presidente dos Estados Unidos. Ele negou. O que viu naquele homem para identificar tão cedo sua ambição política?

Bruna Lombardi – Vi sede de poder. Vi uma fome, uma coisa forte, narcisista, com um desejo muito grande de poder, de abrangência de poder. Isso me foi transmitido com muita clareza.

Lorena, em Mulheres que sentem os espíritos, possui uma facilidade para ler as pessoas e escutar aquilo que elas não dizem. Considero isso uma percepção essencial para quem escreve, para quem atua e, na verdade, para qualquer pessoa.

O mundo é muito barulhento. Recebemos uma avalanche de coisas e ficamos intoxicados, embotados. Diante do barulho e do excesso, não escutamos o sutil. E é justamente na delicadeza e na atenção que recebemos as informações mais preciosas: uma boa ideia, a verdadeira intenção do outro, os sinais que a vida oferece, as intuições e as premonições.

Coluna – Na mesma entrevista, Trump tentou inverter os papéis e perguntou se você estava apaixonada. Você respondeu: “O programa é meu. Você só responde, não pergunta”. Como interpreta hoje aquela atitude?

Bruna Lombardi – Ao longo dos dez anos do programa, que era independente, aconteceram várias situações semelhantes. Alguns homens tinham uma forma de elogiar que podia ser imposta pela própria personalidade ou até sincera. Lidar com isso fazia parte.

Mas eu estava com as câmeras ligadas e tinha o meu poder ali. Nunca vivi uma tentativa de assédio. Conversando com amigos, inclusive homens, disseram-me que meu jeito um pouco respondão, de falar na lata, talvez intimidasse. De qualquer maneira, passei ilesa por muita coisa — inclusive por Donald Trump.

Hoje, as mulheres têm o poder da denúncia. Alguns homens ainda fazem isso, mas sabem que podem ser responsabilizados.

Coluna – Você e Carlos Alberto Riccelli estão juntos há quase cinco décadas. O que sustenta uma relação por tanto tempo?

Bruna Lombardi – O amor muda diariamente, porque as pessoas mudam diariamente. A pessoa que fui ontem já não é a mesma de hoje. É como dizia Heráclito: ninguém se banha duas vezes no mesmo rio.

O amor acompanha essa renovação. É como se houvesse uma nova proposta de amor todos os dias. Qualquer casal e qualquer existência enfrentam muitas coisas. Não existe uma vida completamente lisa, sem problemas.

O que existe é uma palavra fabulosa: confiança. Algo realmente sólido, um vínculo inabalável. O amor é a grande solda, a grande conexão que temos. É uma palavra muito usada e desgastada, mas, quando empregada com respeito e reverência, representa a grande resistência.

Acredito que transformar os seres humanos e fazê-los melhores também muda o estado das coisas na sociedade. Não adianta retirar um déspota e colocar outro no lugar se o ser humano não mudar. As grandes transformações são internas, mudanças de paradigma e de valores.

Coluna – Você começou publicando poesia e teve o primeiro livro prefaciado por Chico Buarque. Depois vieram romances, crônicas, roteiros e diários. Em qual dessas formas de escrita se sente mais próxima de quem realmente é?

Bruna Lombardi – Não é o formato que define a literatura ou a criação. É a busca, os assuntos abordados e a maneira como você se dedica ao que faz.

Tenho uma relação de devoção com a literatura, com o mistério e com a vida. Quando falo em devoção, refiro-me a algo sério, rigoroso, com disciplina e entrega, sem me poupar. A forma final — uma série, um romance, uma poesia ou uma crônica — é resultado do assunto e do momento.

O verdadeiro trabalho está na fonte, na criação, na descoberta e na busca. O lúdico é anterior à escrita. Antes de existir a escrita, nossos ancestrais já se reuniam em torno do fogo para contar histórias. A necessidade de ouvir uma história, usar a imaginação e tentar compreender onde estamos e para onde vamos é muito antiga.

A barbárie pode destruir bibliotecas e queimar livros, mas a história continua. É como em Fahrenheit 451: queimam os livros, mas as pessoas os decoram e seguem contando as histórias. Essa semente é o que importa. É como plantar árvores para aqueles que virão depois de nós.

Coluna – Entrevistas feitas por você há mais de 30 anos voltaram a circular nas redes sociais e estão sendo descobertas por jovens que nem eram nascidos quando Gente de Expressão foi exibido. Como recebe esse reencontro?

Bruna Lombardi – Acho muito curioso. As coisas me acontecem sem que eu tenha expectativa. Não imaginava que trabalhos antigos voltariam ou seriam vistos por pessoas muito jovens, nem que uma nova geração estaria lendo meus livros.

Talvez isso aconteça porque o trabalho foi feito com verdade. Quando tudo o que você faz é genuíno, existe uma coerência entre o que você pensa, sente, diz e faz. Acredito que isso seja percebido.

Um diretor de cinema me dizia: “Pensou, passou”. Sempre haverá alguém que capte aquilo que você pensou ou escreveu. O mais bonito é que o livro passa a pertencer ao leitor, seja ele jovem ou não. Cada pessoa interpreta, encontra o sumo daquilo e se ilumina de uma maneira particular. O livro é muito mais de quem o lê do que de quem o escreve.

Coluna – Você viveu o período em que a televisão aberta ocupava o centro da vida cultural brasileira e depois escreveu, produziu e protagonizou A Vida Secreta dos Casais para a HBO. Como acompanhou a passagem daquele país reunido diante da televisão para o universo fragmentado das plataformas?

Bruna Lombardi – Vivi uma época em que a televisão chegava a 98%, quase 100% de audiência. Você não conseguia andar na rua. Era tanta atenção que, justamente no auge, resolvi parar.

Muitas pessoas perguntavam como eu poderia abandonar a carreira naquele momento. Não foi exatamente uma recusa. Foi uma forma de preservação. O excesso de qualquer coisa não é bom.

Em Mulheres que sentem os espíritos, falo sobre Nêmesis, uma deusa da mitologia grega que vigia e pune o excesso. Sempre que o excesso se manifesta, provoca algum desequilíbrio e produz consequências. Instintivamente, sempre procurei administrar os excessos que a vida me proporcionou.

Sabia que, se me perdesse naquele excesso de fama, poderia perder algo muito precioso: minha capacidade de criar, escrever, atuar e fazer coisas sensíveis. Precisava sair daquele lugar e voltar ao meu núcleo. Minha vida é uma busca permanente.

Na época, a Globo não queria me liberar. Boni permitiu uma situação talvez única: eu tinha um contrato como atriz da Globo e, ao mesmo tempo, um contrato da minha produtora independente para apresentar Gente de Expressão em outra emissora. Mais tarde, Marluce Dias chegou a me oferecer um contrato longo, mas eu não quis.

Nunca se tratou de ter dinheiro sobrando. Eu tinha o suficiente para fazer aquela escolha e depois me entregaria ao que viesse. Também precisava preservar meu núcleo familiar. Tinha um filho e queria que ele tivesse uma vida normal, sem ser apenas “o filho de pessoas famosas”.

Coluna – Ao longo da conversa, você falou diversas vezes sobre a influência de seu pai. A força que demonstrou durante a carreira veio dele?

Bruna Lombardi – Não me considero uma fortaleza. Hoje talvez me sinta mais forte, mas fui descobrindo essa força aos poucos. Como todos, tenho fraquezas e pontos frágeis.

Recebi influências muito claras de meu pai e de minha mãe. Meu pai representava a lógica, a razão e a força do pensamento racional. Minha mãe era pura emoção. Entre esses dois polos, percebi que precisava encontrar um caminho do meio, que não fosse apenas emoção nem somente razão.

A razão não oferece todas as respostas. É por meio desses canais mistos que conseguimos compreender. Manter os canais abertos também significa aceitar fragilidades. A sensibilidade pode nos machucar, porque é justamente onde somos mais sensíveis que nos ferimos com maior facilidade. Mas, se fecharmos esse canal, perdemos a vida. Prefiro me machucar no caminho, aprender e permanecer aberta às descobertas.

Talvez a coragem esteja nisso: na força de deixar a sensibilidade aberta. Sou esse misto de razão e emoção e procuro preservar o equilíbrio.

Coluna – Você sente falta de atuar? Voltaria hoje a fazer uma novela ou pretende concentrar esta etapa da carreira na literatura e nos projetos autorais?

Bruna Lombardi – Atuar é minha profissão e uma coisa que adoro. Mas nunca orientei minha vida pelo dinheiro ou pelo sucesso. Essas duas coisas não definem minhas escolhas. Dinheiro, sucesso e vaidade surgiram muito cedo e com muita facilidade na minha vida, mas não me definiram. Ouso dizer que não me corromperam.

Sempre fiz escolhas baseadas no amor e na paixão. Sou uma pessoa movida pela paixão: pelo que faço, pelas pessoas, pelas ideias, pelas ações e pelos acontecimentos. Tenho essa chama, esse entusiasmo, que é o fogo dos deuses e que nunca devemos apagar.

Não vou fazer alguma coisa se não me apaixonar por ela. Não depende do veículo, de ser televisão, cinema ou literatura. Precisa ser algo diante do qual eu diga: “Isso é apaixonante, é imperdível, eu tenho que fazer”.