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Matheus Leitão

Exclusivo: Ailton Krenak revela detalhes de seu filme de ficção; Veja vídeo

No Que Dia, Krenak conta como virou diretor de filme de ficção sobre xamã e padre e critica a destruição dos rios: “O Ipiranga é um esgoto”

09/10/2026 19:03
Breno Esaki/Metrópoles @BrenoEsakiFoto
Entrevista com líder indígena, ambientalista, pensador, poeta e escritor brasileiro, Ailton Krenak Metropoles

Ailton Krenak entrou na memória do Brasil em 1987, quando pintou o rosto de preto na tribuna da Constituinte defendendo os direitos dos povos indígenas. Sua voz atravessou as décadas e chegou a leitores que passaram a se perguntar, com ele, como adiar o fim do mundo.

Seus livros nos fazem olhar para a vida que estamos levando: a obrigação de produzir o tempo inteiro, o desejo de consumir cada vez mais, a distância que criamos entre nós e a natureza. Krenak nos lembra que um rio pode ser nosso avô.

Ao falar da destruição deles, os rios, cita o Ipiranga: “Um país que se permite transformar em esgoto o rio que dá origem à sua identidade é de doer”. Mesmo diante de tanta destruição, ele nos convida a continuar sonhando.

Agora, aos mais de 70 anos, o escritor, filósofo e primeiro indígena a integrar a Academia Brasileira de Letras está vivendo uma nova experiência profissional e de vida: fazer cinema. Uma história que carregava havia mais de uma década ganhou argumento, roteiro e um filme de ficção, gravado no Cerrado, perto de Brasília. Krenak é o diretor.

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No Que Dia, programa da TV Metrópoles apresentado por este colunista, Krenak revela com exclusividade detalhes do filme. A história acompanha um xamã do povo Xavante que sonha com a chegada de uma missão religiosa ao território de sua comunidade. Diante da ameaça, ele deixa a aldeia e passa a viver sozinho no mato, transitando entre o mundo material e o dos sonhos.

Um dia, um padre aparece ao lado de sua esteira. O xamã agarra o tornozelo do visitante e o puxa para dentro do sonho. “O padre vai tentar converter o xamã, e o xamã vai mostrar para ele o mundo”, conta Krenak.

O primeiro roteiro tinha 135 páginas. Diante da resistência de quem dizia que aquilo era um livro, Krenak respondeu: “Não, não é um livro. É um filme”. Cortou o texto pela metade e, quando conversamos, já havia concluído 93% das filmagens.

Krenak pretendia guardar o projeto em segredo até o filme ficar pronto. Acabou contando os bastidores dessa nova experiência, entre reflexões sobre os rios, os povos indígenas e o Brasil. “Acho que estou virando artista”, disse.

Coluna – Você resolveu fazer cinema. Como nasceu essa história?

Ailton Krenak – Tinha uma história pulando dentro do meu pensamento havia anos, uns doze anos, e não queria escrever um livro. Pensava que essa história não dava para contar escrevendo. Tinha que ser exibida como um sonho, uma fantasia, alguma coisa. Falei com a Mariana. Ela perguntou: “Você quer fazer um documentário?”. Respondi: “Claro que não. Quero fazer uma ficção”. Ela arregalou o olho, porque é documentarista. Estávamos fazendo um documentário na terra Yanomami, chamado “Fronteiras fluidas”. Fui acompanhá-la. Era o segurador de microfone, uma das minhas profissões que não costumo contar. No caminho de volta, falei: “Essa história continua fazendo barulho na minha cabeça”. Ela perguntou se eu queria fazer o filme. Disse que queria, mas não sabia filmar, nem transitar daqui para lá. Ela explicou que primeiro tinha um argumento. Eu contaria a história, a gente gravaria, transcreveria e aquilo viraria argumento. Depois, roteiro. Nossa, tinha que virar um monte de coisa antes de virar filme.

Coluna – E como foi transformar essa história em roteiro?

Ailton Krenak – Fizemos uma oficina de roteiro. Você acredita que o roteiro nasceu com 135 páginas? O pessoal falou: “Não dá. Você nunca filmou nada e vem com um roteiro de 135 páginas. Isso é um livro”. Falei: “Não, não é um livro. É um filme”. Disseram: “Então corta”. Cortei pela metade, virou sessenta. Fizemos o plano de filmagem e descobrimos que tínhamos que fazer vinte diárias, com doze horas por dia filmando. Você alcançou a gente nos últimos três dias da corrida. Já filmamos 93% do filme. É uma ficção, e estamos filmando aqui.

Coluna – Qual é a história do filme?

Ailton Krenak – Um homem do povo Xavante, imerso em sua cultura, num mundo que preexiste a essa coisa brasileira, colonial, teve um sonho. Sonhou que os brancos iam chegar, conduzidos por padres, por uma missão religiosa, e que iam devorar o povo dele. Ele é um xamã do sonho. Vive entre esse mundo nosso e o mundo do sonho. Acorda e conta o sonho numa assembleia, no terreiro da aldeia. É uma autoridade do sonho. O povo fica estarrecido com a ameaça de chegar uma religião capaz de destruir seu mundo. Perguntam: “Eles vão acabar com a gente?”. Ele diz: “São terríveis. A questão não é eles. A questão é o Deus deles, porque quem vai combater a gente é o Deus deles”. Ele fala que precisam ir embora. O pessoal responde: “Não vamos. Nunca fugimos daqui. Vamos ficar”. Ele insiste que são muito perigosos. Respondem: “Não tem problema. A gente mata eles”. Gostei desses caras. O xamã pega a esteira, a borduna, os paramentos, uma trilha, e vai embora viver sozinho em outra paisagem do mato. Uma parte do roteiro já me tinham entregado, que era o sonho dele. Agora tinha o resto da história para inventar um lugar onde ele ficaria enquanto ninguém sabia onde estava. Inventei um mundo onde ele fica sonhando, uma passagem para uma realidade expandida. É um personagem que transita entre esses mundos e vigia tudo que acontece aqui.

Coluna – E o encontro desse xamã com o padre?

Ailton Krenak – Um dia ele está deitado na esteira, sonhando, e aparece um sujeito de pé ao lado dele, um padre vestido de padre. Ele estica a mão, pega o tornozelo do cara e puxa para dentro do sonho. Manda sentar e começa uma conversa. O padre vai tentar converter o xamã, e o xamã vai mostrar para ele o mundo. Um tenta argumentar, o outro mostra, demonstra. Ao longo da história, ele vai demonstrar para o padre salesiano, para toda a teologia cristã dele, outro mundo, que é esse mundo natural.

Coluna – De todas as entrevistas que fiz com você, nesta ouvi críticas mais fortes às contradições humanas que nos levam a esse lugar de destruição. Esse filme também vai transmitir esperança?

Ailton Krenak – Acho que estou vivendo uma experiência em que consigo acessar ideias e histórias transcendentais. O homem que sonha é uma história transcendental, de uma poesia e uma beleza tamanhas que nem vou antecipar. Quando as pessoas entrarem em contato com isso, vão saber que um sujeito que nunca fez cinema se meteu a fazer um roteiro, topou reunir uma constelação de pessoas com talento para fazer um filme e teve a sorte de encontrar pessoas afins. Não tive que mandar nada nessa história. Só tive que fazer junto. Como tenho esse gosto por fazer coisas junto com os outros, deu tudo certo. Estamos terminando as gravações. Depois tem todo aquele trabalho pela frente. A ideia é que no ano que vem as pessoas possam ver essa história em estado de pura beleza. Acho que estou virando artista.

Coluna – Então vem beleza por aí?

Ailton Krenak – Claro. Nem pensei que a gente ia falar do filme, porque tentei de toda maneira fazer esse filme escondido. A ideia era só contar quando estivesse pronto. Só que o povo que está trabalhando comigo é do cinema. Tem esse negócio igual ao pessoal da literatura. É incontrolável. Falaram: “Como não vamos contar para ninguém que estamos fazendo um filme?”. Respondi: “Claro que não”. Aí você descobriu, sei lá como, que eu estava por aqui. Nem imagino como descobriu isso. Mas vamos descobrir ainda.

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Coluna – Você costuma dizer que o Rio Doce é o avô dos Krenak. O que a destruição do rio significa para vocês?

Ailton Krenak – A lama da mineração arregaçou com a bacia do Rio Doce. Eu saí de casa inventando todo tipo de metáfora para falar do que é uma terra arrasada: um lugar onde as pessoas recebem água de caminhão-pipa, são abastecidas por cesta básica e, de vez em quando, alguém diz que vai fazer um estudo novo para ver como recuperar a bacia de um rio que nossas famílias chamam de avô.

Esse rio sempre deu sentido e teceu o imaginário de pessoas muito grudadas no chão. Pessoas que não tinham expectativa de sair dali para estudar nem para ficar se integrando com essa coisa que chamam de Brasil.

A briga dos Krenak para se manterem à margem daquele rio não tem nada a ver com o valor da terra. Tem a ver com o vínculo das pessoas com aquele lugar. Aquele rio cria imaginário.

As crianças, mesmo quando já estão longe da língua materna por causa da violência cultural em torno daquele território, aprendem a cantar cantigas na língua dos pais, dos avós, como uma maneira de continuar exibindo uma distinção. Tipo assim: a gente pelo menos sabe falar o nome do rio.

Coluna – Essa relação sobreviveu também às expulsões dos Krenak de seu território?

Ailton Krenak – Os Krenak ficaram confinados e foram submetidos a um tipo de violência para esquecer que eram Krenak e virar ribeirinhos, moradores da beira do rio.

Houve retiradas em massa. Bota todo mundo em cima de caminhão, bota no trem e despacha para qualquer lugar. Esse tipo de violência dissolveu muitas pequenas comunidades humanas que são chamadas de indígenas.

Teve gente que foi para São Paulo, Minas Gerais, para outros lugares do mundo. Essas pessoas não têm mais comunhão com os núcleos familiares que sobreviveram. Vai dispersando. É a maneira mais eficiente que o Brasil arrumou para desaparecer com os indígenas. Desaparece assim, silenciosamente.

É como o efeito que o assoreamento causa no rio. O assoreamento desaparece com o rio lentamente.

Eu sou um contador de histórias e, enquanto estiver vivo, vou contar a história do rio.

Coluna – Você acha possível recuperar o Rio Doce?

Ailton Krenak – Eu convivo com cientistas e pesquisadores que lidam com a questão da água, não só no Brasil, mas no planeta. Aprendi que você só pode produzir uma paisagem parecida com a que o rio instituiu ao longo de sua longa vida, antes dessa tragédia da lama. Dizer que alguém vai restaurar aquilo é brincadeira. Alguém vai dizer: fizeram isso no Tâmisa, fizeram isso na Coreia, em Seul. Mas, quando olho aquilo, sabe o que acho? Parece aqueles jardins de shopping. Se a gente tiver muita grana, pode fazer um jardim de shopping. O que é um jardim de shopping? Uma coisa estéril em que você nunca vai ver uma abelha. É mentira descarada dizer que vai ter tecnologia daqui a dez, vinte, trinta anos que vai purificar a água que corre pela calha do Rio Doce. A água corre em cima de lajes de pedra. Aquele material tóxico está impregnado nas lajes. A cada chuva, se você fizer uma coleta, encontra quase a mesma lista de poluentes naquela matéria que parece água. Costumo dizer: aquilo parece água, mas não é água, porque tem muito mais coisa do que água. Ninguém bebe aquilo, ninguém usa nem para lavar roupa. Não pode.

Coluna – Seu avô morreu?

Ailton Krenak – Não. A gente diz que ele está em coma. É uma maneira de resistir ao seu enterramento, porque no Brasil tem uma longa tradição de transformar rio em esgoto. O Ipiranga é um esgoto. Um país que se permite transformar em esgoto o rio que dá origem à sua identidade é de doer. Ele não vai se interessar pelo Rio Doce. O Ipiranga é um córrego. O Rio Doce é um oceano e está em coma. A gente diz que ele está em coma porque, se os netos, os filhos e os aparentados ficarem produzindo afeto ao longo do corpo dele, ele vai fazer um caminho subterrâneo, pelos lençóis freáticos. Vai ficar numa encarnação escondida e um dia sai em algum lugar. Ele não precisa sair ali na frente da nossa aldeia, porque a água não morre. Quando eu tinha trinta, quarenta anos, brigava com todo mundo dizendo que estavam acabando com a água do mundo. Passou muito tempo e aprendi que ninguém acaba com a água do mundo. A água está o tempo inteiro mudando. Então o rio está em coma. Nós estamos vigiando ele. A gente tem todo o tempo do mundo.

Coluna – Mesmo com toda essa destruição, seus livros nos desafiam e nos chamam a ter esperança. Eu sinto esperança quando leio “Futuro ancestral”. Por quê?

Ailton Krenak – Eu não tenho um propósito. Acho interessante, de vez em quando, escutar as pessoas dizendo: “Você precisa ter um propósito”. Aí fico olhando: o que será que estão chamando de propósito? Nunca me imaginei escritor. Pode ser que um menino brincando no quintal vire e fale: “Quando crescer, quero ser escritor”. Nunca aspirei a esse tipo de coisa. Inclusive, fugi da escola. Sempre que me diziam que a escola era por ali, eu ia para o lado de cá. Evitei de maneira bem determinada esse negócio de escola. Fui fazer andanças, percorrer territórios. Atinei muito cedo com a ideia de que podia convocar outras famílias indígenas para a gente sair daquele encosto da história e ter algum protagonismo, alguma coisa para fazer.

Coluna – O que você via naquele momento que fez nascer essa vontade de mobilizar outros indígenas?

Ailton Krenak – Vi outros movimentos sociais se organizando. Vi os negros se organizando em teatro, movimento social, político, arte, todas essas coisas que incidem na cultura. Olhava e não via nada dos povos indígenas. Só via antropólogos estudando os povos indígenas, especialistas, pessoas geniais como Darcy Ribeiro, de quem até hoje gosto muito, que esperneava e gritava: “Deixa os índios vivos!”. Tinha todo esse romanceiro indigenista. Mas índio, não. Só o romanceiro. Devia ter uns quinze, dezessete anos quando meti o pé na estrada. Andei em trezentas aldeias. Parecia que tinha virado um andarilho. Quando participei daquele debate na Constituinte, já tinha organizado o movimento indígena junto com outras pessoas, com a geração do Mário Juruna e com a geração do chefe Raoni, que felizmente está até agora junto com a gente, na maior coragem.

Coluna – O que Raoni representa para você?

Ailton Krenak – Gosto muito do Raoni. Acho que, nesses últimos cinquenta anos, ele foi sempre essa pessoa inconfundível que fala a voz da floresta e convoca a dignidade ao lugar dos indígenas. Bateu testa com todos os presidentes da República, inclusive com os militares. Sempre ia lá, soberano, conversar com os caras. É como se estivesse pensando: “Eles passarão, eu passarinho”. Se tivesse que pensar numa legenda para Raoni, seria assim. Acho lindo porque ele anima uma geração de meninos e meninas que estão agora com doze, quinze anos de idade.

Coluna – Você imaginava que seus livros chegariam a tantas crianças e a tantos países?

Ailton Krenak – Tenho meninos de oito, dez, doze anos lendo e fazendo trabalho de escola com “Futuro ancestral”. Você acredita? Não imaginava que isso fosse ganhar essa extensão. Esses livros estão traduzidos na Argentina, no México, no Canadá, nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Itália, na Espanha, na Dinamarca, na Noruega, na Turquia, no Japão, na Coreia do Sul. A Universidade Nacional da Coreia do Sul pegou os três livrinhos e fez um. Eu podia estar aqui, sei lá, vendendo aqueles palitinhos de incenso no ônibus. Mas virei escritor.

Coluna – A imagem de você pintando o rosto na Constituinte ficou na memória do Brasil. O que disse naquele dia que ainda precisa ser dito?

Ailton Krenak – O mesmo texto. Você acredita?

Talvez a única coisa que a gente pudesse mudar é que, naquela época, o jovem citava a extensão territorial do Brasil. Falava desse imenso território e perguntava: como não podem caber essas pequenas famílias indígenas que vivem em casas tapadas de palha e dormem em esteiras no chão? Acho que talvez tenha muito menos quilômetros de Brasil. Naquele tempo, a gente podia falar que o país tinha essa extensão toda. A ideia de país, de nação, está saindo pelas mãos da gente, feito areia da ampulheta. Quando fico olhando isso, o discurso na Constituinte parece ingênuo. Da mesma maneira, o jovem também acreditava na Constituição que a gente estava negociando, fazendo um acordo sobre nós. A Constituição é um acordo sobre nós. Quando metade racha e decide matar a outra, não tem acordo nem nós. Só tem voz, grito, berro. O Darcy Ribeiro falava que o Brasil era uma invenção. Gosto disso porque ajuda a entender que, a cada tempo, o acordo das pessoas pode inventar ou desinventar um lugar para viver. Estou preocupado porque parece que estamos desinventando o lugar de viver e tornando tudo mercadoria. Tem a Baía de Guanabara, aquele lago sagrado na narrativa dos Tukano, que diz que ali foi a origem de um mundo, esse mundo do Rio Negro que nasceu ali. Quer dizer, tem que ter muita imaginação para acreditar que a Baía de Guanabara dá origem a outros mundos. Como a gente está vivendo num mundo raso, sem imaginação, alguém vai falar que estou fabulando.

Coluna – Confabulando…

Ailton Krenak – Confabulando, confabulando. Você é da Academia Brasileira de Letras?

Coluna – Não, você é da Academia Brasileira de Letras.

Ailton Krenak – Ah, então a gente podia fazer um estudo etimológico do termo Guanabara.

Coluna – Vamos fazer.

Ailton Krenak – Você sabe que eu inventei de falar que ia criar uma plataforma de línguas indígenas chamada Língua Mãe, lá na Academia Brasileira de Letras? Desde que falei isso, parece que tem um monte de carrapatos me pegando, porque vai dar um trabalho danado.

Coluna – Como seus confrades da ABL receberam isso?

Ailton Krenak – Receberam como uma notícia luminosa. Só que, depois que tirei a farda, fiquei pensando: e agora que falei aquilo, como vou fazer? Porque tenho muita imaginação. Acho que estou cada vez mais parecido com o Menino Maluquinho, do Ziraldo, com essa coisa de inventar histórias. Diferentemente do Ziraldo, não sei fazer aqueles desenhos incríveis que ele fazia. Além de contar a história, fazia aqueles desenhos absurdos, criava personagens que enchiam o mundo de fantasia. Estou cada vez mais gostando de contar histórias que não têm nada a ver.

Coluna – Por quê?

Ailton Krenak – Porque as histórias que têm a ver estão feias.

Queria escutar uma história legal. Tipo alguém falar: “Nossa, você viu? Está florescendo para todo lado. As florestas estão retomando o lugar onde a soja estava necrosando. Tem uma floresta aparecendo naquele ambiente necrosado pelo agronegócio”. Árvores tão inteligentes, tão incríveis, que estão reflorestando o pensamento das pessoas, criando outro mundo. Queria escutar uma história dessas. Mas só escuto história de uma voracidade de exportar grãos, minério, produtos agrícolas, vaca, boi, cavalo. Viramos uma espécie de plataforma de lançamento para o inferno de tudo que podíamos ter de bom. Acaba com o Tapajós, faz os rios ficarem todos retos, como a mente dos engenheiros. Rio tem curva.

Coluna – E como você vê a discussão sobre o marco temporal?

Ailton Krenak – Aqui no Brasil tem um pessoal cínico que controla o Congresso e, de vez em quando, quer discutir o marco temporal. Para mim, o único marco temporal que serve é aquele em que os brancos todos tivessem que ir embora do continente americano. Essa seria uma boa história. Uma história legal para a gente escrever um livro junto e publicar para as crianças.

Coluna – Você quer passar a contar essas histórias em outras linguagens?

Ailton Krenak – Esses três livros — “Ideias para adiar o fim do mundo”, “A vida não é útil” e “Futuro ancestral” — encerram uma espécie de ensaio geral sobre nós, para mim. Agora tenho que falar desse assunto em outras linguagens. Não dá mais para continuar fazendo a coleção Ailton Krenak, da Companhia das Letras. É legal, mas não dá.

Coluna – Quando você fala da exportação de grãos e de minério, lembro de uma passagem do livro sobre a exportação da nossa água.

Ailton Krenak – Quando o grão vai, vai cheio de água. Quando o minério vai, vai cheio de água. O veículo que transporta é água.

Como você faz um tubo para roubar minério, jogar no tubo e mandar para fora? É um insulto a qualquer sentido de ser, estar, habitar um lugar, viver um lugar. Depois querem que os brasileiros tenham dignidade enquanto a água está indo embora, enquanto tudo está indo embora. Não é só a água. Quando a gente fala que a água está indo embora, parece que está falando de um volume, de um aquífero que estão roubando.

Água é memória. Se sumir a água dessa paisagem Brasil em que a gente vive, não vamos ser a gente mais.

Quando tentaram privatizar a água na Bolívia, teve a maior bronca. O povo se levantou, quase derrubou o governo por causa da água. Nos Andes, os povos originários ainda têm um pacto tão verdadeiro com a Mãe Terra que são capazes de morrer, mas não deixam barato essa violência.

Coluna – O Rio Doce já vinha sendo destruído antes da lama?

Ailton Krenak – O Rio Doce estava sendo mutilado com a construção de barragens no corpo do rio. Você enche a bacia de barragens, vai picotando. Imagina se botassem vários daqueles trequinhos de prender para tirar sangue ao longo do seu braço, prendendo a circulação. Você ia colapsar. Às vezes acho que aquela lama que a barragem da Samarco, BHP Billiton e Vale do Rio Doce derramou na bacia foi um “plus”, porque o mercado já estava estrangulando o rio. Ele já estava se debatendo.

Coluna – Como você se sente no Cerrado, esse lugar onde nascem as águas?

Ailton Krenak – Como se estivesse numa espécie de jardim, um jardim primário.

Não é à toa que o maior arrumador de paisagem, Burle Marx, pirou com a Serra do Espinhaço. Essas cristas, essas montanhas. O Cerrado também é um repertório de coisas para ele, sempre-vivas. Tenho refletido bastante sobre essas ideias estabilizadas que temos sobre os lugares: um país, um território. Durante muito tempo, o Cerrado foi negligenciado, inclusive pela ciência. Era um lugar que não dava nada. Os cientistas mais comprometidos foram fundo no estudo da formação desse ecossistema e distinguiram o Cerrado e o Pantanal como aparelhos de produção de água. Chamam esse complexo do Cerrado de caixa-d’água. Quando você olha a geografia do território brasileiro, ele está numa posição muito privilegiada, no centro, num Planalto Central. É uma conspiração da vida na Terra para criar esse jardim maravilhoso, para a gente cultivar esse jardim maravilhoso. Só que um bando de imbecis decidiu tomar de assalto esse jardim e transformar em plataforma de produção de mercadoria. Assim como, na gênese do Brasil, acharam que o pau-brasil era o negócio, agora acham que o negócio é a plantation.

Coluna – A gente está numa eleição. Como você vê essa eleição?

Ailton Krenak – Que eleição? Para eleição de miss? Miss Brasil? Quantas misses Brasil tem na candidatura?

Coluna – Mas como você vê a eleição?

Ailton Krenak – Não vejo.

Coluna – Nem olha de longe?

Ailton Krenak – De longe, longe, longe.

Coluna – Você fez um desenho do Rio Doce que virou uma empena em Belo Horizonte. O que significou levar o rio para a cidade?

Ailton Krenak – Fiz um desenho do corpo do Rio Doce se contorcendo debaixo da lama, e virou uma empena num prédio na Praça Raul Soares, em Belo Horizonte.

O pessoal comentou que eu tinha feito nascer um rio na cidade. Isso me deu a maior alegria. Enquanto tem gente matando rio, estou fazendo nascer um, evocando rios.

A água é uma entidade misteriosa que sai do chão, visita o céu, desce do céu e sobe de novo. É uma coisa tão mágica, inspira tanto a vida.

A gente deveria tratar a água como entidade, não como mercadoria. Faz muito tempo que virou mercadoria.

Numa Conferência Mundial das Águas, em Brasília, vi no banner dos apoiadores a Coca-Cola e a Nestlé. Pensei: esses caras estão querendo engarrafar a gente.

Coluna – Você também critica a maneira como se fala em reúso da água. Por quê?

Ailton Krenak – Quando você era menino, o termo reciclagem parecia um anúncio novo. Depois veio reúso.

Isso é uma marcha lenta e gradual para o esgoto. Depois que a gente se acostuma com reciclo, reúso, reduzido, o que é verdadeiro já foi embora. Aí sobra o corpo do rio em coma. Reúso de quê? Por que temos que fazer reúso de um bem inalienável e inesgotável que é a água? Se fizer uma pergunta dessas numa sala de aula com dois bilhões de crianças, elas vão rir da nossa cara. Vão dizer: “Vocês são cretinos mesmo, hein? Já babaram tudo? Agora o que a gente bebe? Essa água mijada de vocês?”. Aqui a gente tem essa bênção que cai do céu. Os caras querem transformar isso em mercadoria. É totalmente absurdo.

Coluna – Mesmo quando você diz que o Sapiens deu necrose, ainda existe essa esperança?

Ailton Krenak – Quando faço essas críticas a nós mesmos, dizendo que o Sapiens deu necrose, não estou falando para enterrar ele. É para vigiar. Quando o rio foi anunciado como morto, fui o primeiro a dizer que não estava morto, estava em coma. Quem sabe esse estado mental que estamos passando agora é uma espécie de coma. A gente vai ficar na força, esperando sair do coma, sem julgamento. Se acontecer, ótimo, maravilha. Mas também não estou chorando se a gente estalar o dedo e todo mundo desaparecer de uma vez, porque a Terra vai continuar, o rio vai continuar. Como já dizia Lévi-Strauss, os humanos chegaram ao planeta tem alguns minutos. Isso nem conta na história da Terra. Somos uma espécie de micróbio. Os humanos se dão importância demais. Se desaparecerem, não fazem falta em nada.

Coluna – Isso é otimismo?

Ailton Krenak – Parece que sim. Então sou otimista. Sou otimista porque estamos aqui batendo papo. Já choveu, ventou. Tenho tanta realidade para acreditar nela que só posso ser otimista.