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Eleições 2026Matheus Leitão

Eleições brasileiras: de 1824 a 2026 (Por Davi Lago)

Em artigo enviado à coluna, o doutor em filosofia Davi Lago analisa os avanços e os desafios da democracia brasileira nas eleições de 2026

04/10/2026 13:24
Divulgação/TSE
imagem colorida urna eletronica - metrópoles

A primeira eleição realizada no Brasil ocorreu em 1824 com o objetivo de formar a Assembleia Legislativa. Naquela época o nome oficial do país era “Império do Brazil” (com o “z” mesmo). Votavam apenas homens, maiores de 25 anos, ou de 21, se casados, e que tivessem renda comprovada. O alistamento eleitoral era realizado por juízes e párocos, e as listas de eleitores eram afixadas nas portas das igrejas católicas. Hoje, mais de duzentos anos depois, as eleições gerais na República Federativa do Brasil se transformaram em uma das maiores mobilizações cívicas de todo o mundo. São mais de 158,7 milhões de eleitores aptos a votar conforme o Tribunal Superior Eleitoral. Este contingente só é superado pelo número de votantes de Índia (977,8 milhões de eleitores), Indonesia (204,8 milhões de eleitores) e Estados Unidos da América (173,8 milhões de eleitores). Para as eleições brasileiras deste 4 de outubro de 2026 foram convocados quase dois milhões de mesários. Serão disputadas 1.654 vagas: 1 presidente, 27 governadores (sendo 26 estaduais e 1 distrital), 54 senadores, 513 deputados federais e 1.059 deputados estaduais e distritais (sendo 1.035 deputados estaduais e 24 deputados distritais).

Apesar da grandiosidade numérica alcançada pelas eleições brasileiras, verifica-se desde 2006 uma fatia cada vez maior de abstenções, isto é, eleitores que simplesmente não comparecem para votar nas seções eleitorais. Talvez por não se sentirem encorajados ou representados pelas candidaturas atuais. Ou talvez por um descontentamento mais profundo, uma desilusão maior com a atividade política no Brasil, repleta de escândalos de corrupção, e vazia de projetos para o país.

Independente do resultado dessas eleições, e do número de abstenções que venham a ocorrer, o pleito de 2026 já está marcado por alguns fatores. Mencionarei quatro deles, que ensejam atenção dos cidadãos brasileiros, seja qual for a sua preferência político-partidária:

Primeiro, a centralidade das identidades religiosas. Embora as listas de eleitores não sejam mais organizadas e afixadas em paróquias como em 1824, os temas religiosos continuam no centro das discussões políticas eleitorais em 2026. 

A presença em si de assuntos religiosos não é incompatível com a cidadania. Contudo, é importante frisar que a laicidade estatal foi um desenvolvimento constitucional crucial que viabilizou uma sociedade democrática plural no Brasil. A transformação do panorama religioso brasileiro nas últimas décadas, com a perda de influência do catolicismo, e a crescente mobilização política de evangélicos, entre outras mudanças, gerou um choque significativo no debate público brasileiro que ainda não arrefeceu. As eleições de 2026 mostram que defender a laicidade estatal e compreender as dinâmicas religiosas são ações elementares para consolidar a democracia brasileira no século 21.

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Um segundo fator de atenção nestas eleições é a questão da representatividade política feminina. Embora as mulheres possam votar e serem votadas no Brasil contemporâneo, prevalece a sub-representação feminina. Por exemplo, as mulheres formam cerca de 51,5% da população brasileira e mais de 52% do eleitorado, mas ocupam menos de 20% das cadeiras no Congresso Nacional. A Agência Câmara de Notícias informou que o número de candidaturas femininas para a Câmara dos Deputados caiu 24% em 2026 em relação a 2022, passando de 3.717 para 2.820. Além disso, nestas eleições majoritárias, não há mulheres nas chapas presidenciais de partidos com representação no Congresso Nacional. Apenas 34 mulheres disputam os governos estaduais e o Distrito Federal, em um contexto de 198 concorrentes. A ampliação da representatividade feminina permanece difícil na sociedade brasileira.

Terceiro, o Poder Judiciário permanece ampliando seu protagonismo político-eleitoral. O pleito de 2026 foi marcado por diversas decisões monocráticas em tribunais superiores com impacto direto no jogo eleitoral, versando sobre proibição ou não de notícias, regras de debates na televisão, atuação de outros magistrados no próprio pleito (!). Não por acaso termos como “juristocracia” (Ran Hirschl), “magistocracia” (Conrado Hübner Mendes), “revolução judiciarista” (Christian Lynch), entre outros, foram mobilizados/cunhados para descrever um novo estado de coisas no Brasil, no qual parte do poder decisório de instituições eleitas e representativas (Executivo e Legislativo) foi deslocado para o poder Judiciário. Tudo isso sem mencionar a erosão acelerada de credibilidade do próprio Supremo Tribunal Federal com vários ministros envoltos em suspeitas de corrupção. Discussões sobre reformas no Judiciário podem energizar a política brasileira no curto e no médio prazo.

Quarto, a polarização político-ideológica entre lulistas e bolsonaristas permanece definindo as “macrodisputas” eleitorais no país. O Brasil permanece no mesmo panorama de discussão dos últimos anos, com alto percentual de rejeição dos candidatos que lideram as pesquisas de intenção de voto, conforme os principais institutos de pesquisa. Neste sentido, 2026 foi marcado mais por “anticampanhas” eleitorais, do que por uma discussão vibrante de ideias e projetos para o futuro do Brasil. Pesquisa da Quaest apontou como as principais preocupações dos brasileiros: crime e violência (33%), economia (15%), saúde (14%) e corrupção (14%). Mas muito pouco foi acrescentado ao debate público sobre essas questões.

Nosso país avançou muito da primeira eleição em 1824, mas há muito a ser feito. O Brasil não termina nesta eleição. Desde a experiência ateniense na Antiguidade, a democracia engloba o voto, mas vai além: exige virtude cívica, comprometimento cidadão contínuo.

*Davi Lago é professor e pesquisador. Coordenador de pesquisa no Laboratório de Política, Comportamento e Mídia (LABÔ). Doutor em Filosofia e Teoria do Direito pela USP.