Economista de Flávio não entende Bolsa Família, diz Carla Beni; Vídeo
Professora da FGV critica proposta de Daniela Marques, afirma que transição já existe e alerta para efeitos de uma retirada do benefício

A economista Carla Beni, professora da Fundação Getúlio Vargas, afirmou que a fala de Daniela Marques sobre uma transição para beneficiários do Bolsa Família revela desconhecimento do programa. Ao comentar a proposta apresentada pela economista de Flávio Bolsonaro, ela foi direta: “Há uma falta de entendimento completa a respeito deste assunto, porque o que se apresentou como alternativa já existe”.
Em entrevista ao Agora Metrópoles, conduzida pelo jornalista Rafael Campos e por este colunista, Carla explicou que o programa já tem uma regra de proteção para quem consegue emprego e aumenta a renda. Para ela, anunciar uma transição sem considerar esse mecanismo torna a proposta confusa e alimenta preocupações sobre a retirada do benefício. “O que eu apenas posso tirar do que eu ouvi é uma falta de entendimento do programa”, afirmou. “Então, me parece apenas uma falta de entendimento do que é o programa e como que ele se processa.”
Carla também advertiu que uma eventual retirada do Bolsa Família atingiria o comércio e a arrecadação dos municípios, além das famílias atendidas. Questionada sobre o que representaria o fim do programa, disse que haveria uma “guerra dos prefeitos”. A professora defendeu que o Bolsa Família seja tratado como política de Estado, com correção automática dos valores, para deixar de ser submetido à disputa eleitoral a cada troca de governo.
Em uma fala comovente, Carla lembrou que, antes da pandemia, mães usavam o dinheiro do Bolsa Família para comprar água mineral. “Sabe para quê? Para que seus filhos parassem de ter diarreia. Esse é o país em que vivemos. Já imaginou retirar esse benefício, o que seria para o país?”, perguntou.
Veja os principas trechos da entrevista:
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesRafael Campos – Por que o Bolsa Família ainda é capaz de direcionar as campanhas à Presidência, mesmo depois de 23 anos de sua criação?
Carla Beni – Esse tema é espetacular. A Fundação Getúlio Vargas estuda, trabalha e compila dados dentro da FGV Social. No ano passado, publicou um material que recomendo que todos acessem, chamado Filhos do Bolsa Família. O Brasil teve um ganho maravilhoso, que é o fim da pobreza intergeracional. Conseguimos ultrapassar a pobreza intergeracional. Uma geração são 20 anos. Por isso temos que comemorar esse dado. Precisamos minimamente de uma geração para começar a olhar os resultados de uma política pública.
Sobre por que essa temática ainda mexe com tantas emoções, daria três respostas. A primeira é que uma parte da população não conhece o programa, não sabe os dados. Esse grupo teria que conhecer, saber, se informar. Outra possibilidade é a pessoa conhecer, mas não entender. Aí é um problema de déficit cognitivo. Teria que estudar mais, buscar mais dados. E tem uma terceira opção: a pessoa conhece, entende e, mesmo assim, é contra. Aí vamos para um viés de preconceito ou de má-fé. Você tem essas três possibilidades para fazer uma análise a respeito do Bolsa Família.
Coluna – O Bolsa Família começou como um programa muito criticado pela direita, mas se firmou como algo positivo e reconhecido internacionalmente. Que méritos você vê no programa, da perspectiva de uma economista, e que críticas tem a ele?
Carla Beni – Todo programa social tem um cálculo que fazemos, chamado multiplicador. O Bolsa Família recebeu prêmios internacionais porque tem um custo muito baixo e um retorno muito alto. No comparativo internacional, para cada dólar colocado nesse programa, ele retorna um multiplicador de 2,16. Quando você coloca um dólar, esse dólar volta para a economia e volta mais 1,16. Ele estimula o comércio, o varejo, os depósitos bancários e até o emprego formal.
O refino feito recentemente com a regra de proteção deu resultados extremamente positivos. É importante lembrar que o Bolsa Família não é distribuição de dinheiro. Ele tem todo um conjunto de condicionantes: a criança na escola, o acompanhamento da mãe, a carteira de vacinação. Esse conjunto de ações traz resultados comprovados com dados.
Há uma coleta de dados que desmonta uma série de fantasias: que a pessoa teria mais filhos para receber o Bolsa Família ou que não quer trabalhar para continuar recebendo. Isso tudo já foi desmontado há muito tempo.
É um programa importantíssimo, reconhecido internacionalmente, mas tem um ponto que o faz voltar ao debate em todas as eleições. Quando você compara com outros países da Europa, ele é uma política de Estado, não uma política de governo. Como política de Estado, já tem uma correção específica e uma dotação orçamentária. Uma troca de governo não leva à discussão sobre encerrar ou não um programa desses.
No Brasil, ele está associado à política do governo do momento. Quando houve uma troca de governo, o governo Bolsonaro, por exemplo, trocou o nome do Bolsa Família e o cartão para que se identificasse com o governo dele. Precisamos fazer essa mudança. Essa seria a minha crítica, para encerrarmos esse assunto de uma vez por todas, independentemente de quem estiver no governo.
Rafael Campos – Como uma política pública permanente de combate à pobreza pode sofrer reajustes ou cortes sem que isso seja sempre transformado numa disputa política?
Carla Beni – É perfeitamente possível, porque os outros países trabalham dessa forma, mas ela precisa ser uma política de Estado. Se o Bolsa Família tiver uma correção pelo INPC, por exemplo, todo ano será corrigido por esse índice.
O que acontece? Ele fica anos sem correção. Quando você faz a correção, precisa estar dentro da dotação orçamentária, tudo aprovado pelo Congresso. Mas, no ano da correção, isso ganha uma conotação política.
Vou fazer um paralelo com as faixas do Imposto de Renda. Elas também ficam anos sem correção. Quando se faz a correção, pega muito tempo de trás para frente e fica uma conotação política. Se você tivesse uma correção automática por um índice e colocasse isso no orçamento, esse assunto praticamente morreria.
Coluna – Sobre a fala de Daniela Marques: o programa já tem uma porta de saída há muitos anos. Quando aparece uma economista de um candidato falando que será preciso ter uma transição, isso não mostra desinformação sobre o programa? E não traz preocupação para o beneficiário que ainda precisa dele?
Carla Beni – Olha, Matheus, eu não entendi, na verdade, a fala, porque o que se anuncia já existe. A transição é a regra. A regra já existe, ela se comprovou extremamente eficiente, ela é específica deste governo. Essa regra de transição já tem dois anos e está compilada nos próprios dados da FGV, no material. O próprio Rafa acabou de anunciar na matéria do Metrópoles.
Há uma falta de entendimento completa a respeito deste assunto, porque o que se apresentou como alternativa já existe, essa regra de transição. Se vai passar de 18 meses para 24, seria apenas isso. Mas alguns beneficiários antigos já têm uma regra de transição, dependendo da especificidade, de 24 meses.
O que eu apenas posso tirar do que eu ouvi é uma falta de entendimento do programa, o que gerou algo muito confuso. E, se há possibilidade de retirada do benefício, é uma alternativa completamente impensada, porque você tem benefícios que movimentam uma quantidade gigantesca de municípios. Isso seria um grande problema para vários prefeitos. Então, me parece apenas uma falta de entendimento do que é o programa e como que ele se processa.
Rafael Campos – Em cada eleição, vemos um lado acusando o outro de querer acabar com o Bolsa Família. O que o fim do programa, caso acontecesse em 2027, representaria para a economia do Brasil?
Carla Beni – Acho que teríamos uma guerra dos prefeitos. Teríamos que pensar esse movimento de baixo para cima, porque as pessoas vivem nos municípios. Por exemplo, 70% dos aposentados neste país recebem um salário mínimo. Vários municípios se movimentam no dia do pagamento da aposentadoria. Olha o problema de querer mexer ou retirar a correção, o aumento real do aposentado. Outro assunto é tirar o aumento real do salário mínimo.
Você tem esses mesmos municípios se movimentando no dia do pagamento do Bolsa Família. Imagine esse movimento para a arrecadação e o comércio local. Você teria um grande problema com a própria população local, com o comércio. Esse seria o grande movimento inicial.
Depois, obviamente, teria um problema muito pior na sociedade, com uma piora da qualidade de vida que vai diretamente para o SUS. Estamos com uma redução gigantesca do trabalho infantil. Por quê? Porque estamos com emprego elevado, tivemos aumento do Bolsa Família, estamos com emprego formal e aumento real do salário mínimo. Já imaginou retirar isso? Vamos voltar a ter trabalho infantil no país. Só para começar a conversa, acho que isso já estaria de bom tamanho.
Antes do Bolsa Família ter a correção, antes da pandemia, o valor médio pago era de R$ 198 por família. É importante que as pessoas saibam que o primeiro item que as mães adquiriam era água mineral. Sabe para quê? Para que seus filhos parassem de ter diarreia. Esse é o país em que vivemos. Já imaginou retirar esse benefício, o que seria para o país? Deixo essa pergunta para todo mundo.

