Contra, calado, a favor e a 2.000 km: as 6 fases de Flávio Bolsonaro na 6x1
Candidato atacou a PEC por meses, prometeu voto sim ao trabalhador, acenou a empresários com revisão e vai a Porto Alegre no dia da votação

O Senado deve votar nesta quarta-feira, (14/10), a PEC que acaba com a escala 6×1. Flávio Bolsonaro (PL), que em 13 de outubro anunciou voto favorável, estará às 15h do dia 14 numa comunidade da zona norte de Porto Alegre e às 17h num palanque no Centro Histórico da capital gaúcha, segundo a agenda divulgada pela própria campanha. É o capítulo mais recente de uma travessia de cinco meses em que o candidato passou por quase todas as posições possíveis sobre o tema. Foram seis fases, do ataque ao palanque. O sétimo dia é o da votação, e Flávio o passará a 2.000 km do plenário.
Fase 1: Contra
Em maio, o governo Lula pôs a 6×1 no centro da agenda. A proposta reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas, garante dois dias de folga e preserva salários. Flávio chamou o debate de inoportuno e eleitoreiro e apresentou a alternativa do PL, de remuneração por hora trabalhada. Na prática, essa alternativa admite salário menor junto com jornada menor. Em 19 de maio, na Marcha dos Prefeitos, voltou a criticar a pauta e foi vaiado durante todo o discurso.
Fase 2: Calado
Em 30 de agosto, no Domingo Espetacular, da Record, não disse como votaria. Em 1º de setembro, interrompeu parte da campanha para acompanhar, em Brasília, as articulações contra a proposta. Em 2 de setembro, quando a PEC chegou à CCJ, já estava no Rio Grande do Sul. Ele contava votar a distância, mas a sessão era exclusivamente presencial. Diante da insistência dos repórteres, queixou-se de que queriam “arrancar uma palavra da minha boca”. A palavra não saiu.
Fase 3: Contra, de novo
Em 6 de outubro, ao lado de Tarcísio de Freitas, acusou Lula de oportunismo. Em 7 de outubro, comparou a PEC à promessa de picanha do petista e disse que era mais “uma promessa de picanha que não vai resolver a vida de ninguém”. Defendeu deixar a votação para depois da eleição. No mesmo 7 de outubro, Lula o desafiou a votar a favor.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesFase 4: A favor
Seis dias depois, na manhã de 13 de outubro, Flávio saiu de uma visita ao pai, em prisão domiciliar, com outra posição: “A maioria dos trabalhadores brasileiros querem o fim da 6×1, então vou votar a favor.” A posição veio com destinatário para a conta: “quem vai pagar essa conta vai ser o governo”, disse, porque os empresários estariam sufocados. Não informou quanto custaria a compensação nem de onde sairia o dinheiro. A indústria recebeu a virada mal. Empresários do setor a leram como sinal de “desespero” diante da pressão popular.
Fase 5: A favor, mas
Na noite de 13 de outubro, a coluna Painel, da Folha de S.Paulo, revelou que Flávio havia garantido a aliados e empresários que defenderia, se eleito, a revisão de pontos da proposta. A ideia seria abrir espaço para negociação entre empresas e trabalhadores, no molde da jornada flexível de Rogério Marinho (PL-RN), coordenador de sua campanha. Ou seja, o voto é sim em público e “vamos conversar” em particular.
Fase 6: A 2.000 km
A PEC precisa de 49 votos em cada um dos dois turnos. O governo quer concluir as duas votações em 14 de outubro, e a oposição tenta empurrá-las para depois do segundo turno presidencial, em 25 de outubro. Flávio ajudou a montar a resistência e agora promete apoio. No dia da votação agendada para 16h, Flávio passará, segundo informou sua assessoria de imprensa, a tarde no Sarandi e o fim do dia no Largo Glênio Peres.
A agenda não equivale a falta. Sob Davi Alcolumbre, o Senado ampliou as sessões semipresenciais, em que o senador pode registrar presença e votar a distância. Se a sessão de 14 de outubro seguir esse formato, Flávio poderá votar pelo celular entre um compromisso e outro. Em 2 de setembro, na CCJ, essa possibilidade não existiu. Em 14 de outubro, o voto prometido poderá ter enfim um registro no painel, ou a ausência dele.
A 6×1 que Flávio não conheceu
O candidato agora fala em nome de quem trabalha seis dias para descansar um. Sua experiência com essa rotina é, no máximo, teórica. Flávio está em mandatos eletivos desde os 21 anos, quando chegou à Assembleia do Rio, em 2002, e não tem registro público de emprego com carteira assinada. A única vez em que esteve perto de uma escala de seis por um foi do lado de quem contrata: a partir de 2015, foi sócio de uma franquia de chocolates num shopping da Barra da Tijuca, setor em que a 6×1 é regra. Segundo o Metrópoles, aparecia pouco na loja. A assiduidade no Senado segue o mesmo padrão. O site da Casa não informa quantos dias o senador foi trabalhar no ano.

