A onda de direita impõe a Lula um desafio que vai além do segundo turno
Direita avança no Senado e nos governos estaduais, exige reação de Lula e ameaça governabilidade mesmo se vencer a eleição
04/10/2026 21:29, atualizado 04/10/2026 21:43

A onda de direita que tomou o Brasil neste domingo (4/10) impôs a Lula um problema que não se encerra na disputa com Flávio Bolsonaro, que saiu na frente no primeiro turno. O avanço no Senado e nos governos estaduais indica que, mesmo se conseguir uma virada no segundo turno, o presidente terá enorme dificuldade para governar.
O PL já tinha, no levantamento divulgado pelo TSE, 16 senadores eleitos neste domingo. Somados aos nove com mandato em curso, são 25 cadeiras asseguradas para 2027. Uma projeção aponta que a bancada poderá chegar a 30. Isso apenas no partido de Flávio Bolsonaro. A força da direita inclui também representantes de outras legendas.
São Paulo é um retrato contundente desse movimento. Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL) conquistaram as duas vagas no Senado, derrotando Marina Silva e Simone Tebet, duas ex-ministras de Lula com projeção nacional. Tarcísio de Freitas (Republicanos) também se reelegeu no primeiro turno.
Davi Alcolumbre foi derrotado no Amapá e, com a maioria do Senado à direita e o PL com a maior bancada, o político não se reelege presidente do Senado. Esta coluna aposta que Rogério Marinho tem grande chance de ser eleito chefe do Legislativo.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesÉ uma pancada acachapante no governo Lula 3 e na campanha do petista que claramente falhou na estratégia.
Nos governos estaduais, a direita confirmou ainda as vitórias de Jorginho Mello (PL), em Santa Catarina, Sergio Moro (PL), no Paraná, e Eduardo Riedel (PP), em Mato Grosso do Sul.
São resultados que ampliam a estrutura política à disposição desse campo para o segundo turno presidencial. Lula terá de fazer campanha de verdade no segundo turno. A avaliação de alguns assessores é a de que o presidente fez um primeiro turno muito ruim, desmotivado e sem grandes eventos capazes de mobilizar seus apoiadores.
Nesse grupo, há quem defenda que ele se licencie da Presidência para se dedicar a uma campanha de verdade, mais na rua, no corpo a corpo com o eleitor. Flávio, por sua vez, fez uma campanha técnica e profissional. Delegou a condução ao marketing e seguiu a estratégia montada por sua equipe.
Lula precisará recuperar a iniciativa política e a disposição para disputar cada voto.
O desafio é também histórico. Desde 1989, nenhum candidato à Presidência terminou o primeiro turno atrás e venceu o segundo. Se há alguém com trajetória e capacidade política para romper esse padrão, é Lula. Mas isso exigirá uma mudança expressiva na campanha.
Mesmo uma vitória, porém, não resolverá o problema revelado pelas urnas. Um Senado dominado pela direita poderá bloquear a agenda do governo e ampliar a pressão sobre o Supremo, que poderá sim ver um impeachment de um ministro da mais alta Corte do país pela primeira vez. Também dará mais força às iniciativas para beneficiar Bolsonaro e os condenados pelo 8 de Janeiro.
Se Lula vencer, enfrentará uma oposição fortalecida e com instrumentos para dificultar seu governo. Se Flávio vencer, encontrará apoio parlamentar para levar adiante uma agenda de confronto com o Supremo e de revisão das consequências da tentativa de golpe.
A eleição deste domingo deixou, portanto, um desafio maior do que virar a disputa presidencial. Lula terá de reagir à forte onda de direita que já redesenhou parte do poder no país.




