Mario Sabino

Viva o direito ao ócio

O mal-estar com o excesso de tempo dedicado ao trabalho se espalha pelo mundo (de quem tem emprego). Ócio é criativo. Ócio é vida

atualizado

metropoles.com

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Melhores amigas
1 de 1 Melhores amigas - Foto: Getty Images/Reprodução

A França vive uma grande agitação por causa da reforma da Previdência que o presidente Emmanuel Macron quer aprovar. Se a reforma for adiante, os franceses só poderão se aposentar a partir de 64 anos de idade, não mais 62, e após 43 anos de contribuições, se quiserem ter direito ao valor máximo mensal.

A reforma da Previdência, assim como ocorreu no Brasil, visa a evitar que o sistema entre em tilte. Basicamente, a massa de trabalhadores que entra no mercado não é suficiente para sustentar a massa de trabalhadores que se aposenta. O aumento da expectativa de vida e a queda na taxa de natalidade são as causas do déficit crescente. É uma necessidade, portanto, movida pela racionalidade econômica.

Quem, no entanto, está disposto a sacrificar-se no altar da racionalidade econômica? Nos debates acalorados que ocorrem por lá, grita-se que as pessoas têm direito ao ócio, depois de terem dedicado mais da metade da sua vida ao trabalho. Os franceses são famosos por não gostar de pegar no batente, mas não é verdade que passem a maior parte do tempo nos seus cafés. Trabalha-se muito — e bem — no país das 258 variedades de queijo, não raro em troca de salários baixos.

Demorei a entender os franceses, mas, após conviver com eles, finalmente aprendi. Não importa a idade, o ócio é fundamental para uma existência digna desse nome. O ócio é criativo. O ócio é contemplativo. O ócio é vida. Os franceses, palmas para eles, vinham tentando praticar com mais assiduidade a atividade do ócio antes de o filósofo britânico Bertrand Russell escrever o artigo O Elogio ao Ócio, no início da década de 1930.

O artigo é uma delícia. Nele, Bertrand Russell, cujo nome era sinônimo de sábio, diz que a moral espartana do trabalho é um anacronismo ditado por uma classe ociosa e exploradora de quem está abaixo dela na pirâmide social (atenção, o sábio não era comunista, porque credita a essa mesma classe ociosa termos escapado da barbárie). Um anacronismo, explica ele, visto que, graças aos avanços tecnológicos, não haveria necessidade de tanta gente trabalhando durante tantas horas diárias na produção do que quer que seja — o que implica também manter muita gente desempregada. Bertrand Russell preconiza que, nos modernos países industrializados, as pessoas deveriam trabalhar, no máximo, quatro horas por dia. 

Ele afirma que o restante do tempo deveria ser empregado no que chama de “prazer inteligente”. O contrário do que acontece hoje — e que já acontecia quando ele escreveu o artigo, mesmo num tempo em que não existiam televisão e computador. “Os prazeres das populações urbanas se tornaram fundamentalmente passivos: ver filmes, assistir a partidas de futebol, ouvir rádio e assim por diante. Isto ocorre porque as energias ativas da população estão totalmente absorvidas pelo trabalho. Se as pessoas tivessem mais lazer, voltariam a desfrutar prazeres em que participassem ativamente”, escreveu o sábio.

Não sei se o prazer inteligente está na agenda de todos os nossos semelhantes, mas fato é que o mal-estar francês com o excesso de tempo dedicado ao trabalho está se espalhando pelo mundo (de quem tem emprego), principalmente entre os jovens. O home office pós-pandemia foi decisivo para que a discussão ultrapassasse os limites da filosofia e da literatura.

Por exemplo: leio que, de 2021 para 2022,  dobrou o número de cidadãos brasileiros que foram à Justiça para ter o “direito à desconexão”. Ou seja, para não serem obrigados a responder a emails, mensagens e telefonemas corporativos depois do fim do expediente. E surgiram por aqui defensores da semana de quatro dias. Algumas empresas até a implantaram. Parte-se do pressuposto de que a diminuição do número de dias trabalhados aumentaria a produtividade. Será? Se você levar em consideração que, na metade do tempo que passam no escritório, as pessoas fingem trabalhar, a resposta é sim.

Em 2011, a versão brasileira da revista inglesa Granta publicou uma edição sobre o tema Trabalho. Um dos artigos é de minha autoria. Como estou muito longe de ser um Bertrand Russell, eu ainda ironizava a tentativa de se acabar com a clássica semana inglesa nos países ricos, mas deixei a minha constatação hiperbólica:

“Todos os sentidos positivos associados às atividades profissionais ganharam as feições plastificadas da hipocrisia nas sociedades afluentes. Ninguém mais quer trabalhar na Europa, todos amparados nas políticas de bem-estar social. Nos Estados Unidos, onde inexiste o estado babá, a despeito dos esforços do presidente Barack Obama em implantá-lo, a ética protestante que emoldura o trabalho apresenta rachaduras”

Essas rachaduras só aumentaram desde então. E não poderia ser diferente, com ou sem pandemia, visto que o trabalho vem perdendo valor, tanto do ponto de vista salarial, como do ponto de vista moral — o de que ele dignificaria o homem, a ponto de ele prescindir de quase todo o resto. Esse ponto fica bem claro no circuito dos bullshit jobs, expressão criada pelo sociólogo americano David Graeber, um anarquista antiglobalista, para designar os empregos sem propósito em si próprios e psicologicamente destrutivos. Não sou anarquista antiglobalista, mas acho a definição de David Graeber precisa. Não há dignidade nenhuma num bulshitt job.

Entre aqueles que estão começando a vida e acham que ela tem de ser vivida de outro modo, o trabalho não é mais o principal objetivo da existência, como vinha sendo até o início dos anos 2000 e sempre quiseram nos fazer crer. A lógica é simples. Se a primazia do trabalho fosse verdade absoluta, a maioria das pessoas gostaria de trabalhar, mas não é o que geralmente ocorre. Elas fazem é por necessidade ou por receio de sofrer sanções sociais.

Volto a Bertrand Russell. Ele ilustra o seu artigo delicioso com uma anedota igualmente saborosa: “É bastante conhecida a história do viajante que, ao ver doze mendigos deitados ao sol, na cidade de Nápoles (isto foi antes da época de Mussolini), disse que queria dar uma lira ao mais preguiçoso. Onze se levantaram para disputá-la, e então o viajante a deu ao décimo segundo. Foi uma decisão acertada. Mas nos países que não podem desfrutar o sol do Mediterrâneo, o ócio é mais difícil e vai ser preciso muita propaganda para fazê-lo vingar.”

Aproveite o feriado desta terça-feira. Viva o direito ao ócio. Et vive la France.

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