Mario Sabino

Sobre Eduardo Bolsonaro, a esquerda e os professores doutrinadores

Nessa outra briga entre Eduardo Bolsonaro e a esquerda, o essencial é deixado de lado: a escola brasileira produz portentos de ignorância

atualizado

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1 de 1 frame-eduardo-bolsonaro-armas-brasilia - Foto: Reprodução/vídeo

Existem os professores doutrinadores e existem os traficantes de drogas. Não há nada de comum entre eles, a não ser uma metáfora fácil e ofensiva aos professores doutrinadores. Mas Eduardo Bolsonaro foi além da comparação metafórica nesse domingo, em discurso no ato promovido pelo grupo Pró Armas, em Brasília.

Disse Eduardo Bolsonaro: 

“Não tem diferença de um professor doutrinador para um traficante que tenta sequestrar e levar os nossos filhos para o mundo do crime. Talvez até o professor doutrinador seja ainda pior, porque ele vai causar discórdia dentro da sua casa, enxergando a opressão em todo o tipo de relação. Fala que o pai oprime a mãe, a mãe oprime o filho e aquela instituição chamada família tem que ser destruída.”

Como não poderia deixar de ser, a fala viralizou na internet e causou reação entre os políticos amigos dos professores mais e menos doutrinadores. O indefectível ministro da Justiça, Flávio Dino, mandou a PF analisar os discursos do ato do grupo Pró Armas. “Objetivo é identificar indícios de eventuais crimes, notadamente incitações ou apologias a atos criminosos”, escreveu o ministro nas redes sociais.

A deputada federal Sâmia Bonfim, do PSol, entrou com uma ação na Procuradoria Geral da República, para que se investigue se houve incitação ao ódio. No ofício, ela afirma: 

“A fala, pautada em discurso extremista de ódio durante um ato armamentista em Brasília, pode ser imputada como crime previsto no Código Penal, além de contrariar o ordenamento constitucional no que diz respeito à liberdade de cátedra. O discurso potencializa a criminalização contra a atividade do docente e estimula atos de violência física e verbal contra os professores dentro das escolas, contribuindo com o aumento da violência contra as escolas. É muito grave.”

Há também queixa-crime encaminhada ao STF e representação na Comissão de Ética da Câmara contra Eduardo Bolsonaro. Já tem gente falando em cassação, palavra que entrou para o uso corrente como em 1968, aquele ano que realmente não terminou. O cardápio está completo, acho.

Obviamente, professores doutrinadores não são comparáveis a traficantes de drogas. A metáfora, como disse, é ofensiva. E muito menos são piores do que traficantes de drogas, como afirmou Eduardo Bolsonaro, extrapolando o campo da metáfora na sua burrice infinita. Professores doutrinadores não praticam crime nenhum e a sua ideologia não é uma droga que vicia. Eles repassam apenas uma massa de ideias falidas que alimenta a renovação dos quadros do PSOL e do PT. A melhor forma de neutralizar a doutrinação é ensinar o seu filho a mentir na escola, a dizer o que querem que eles digam, para passar de ano. Já escrevi um artigo com essa recomendação.

Eduardo Bolsonaro provoca a esquerda, a esquerda reage dando graças à Nossa Senhora do Politburo que há culpados úteis para não deixar morrer a historieta de democracia continuamente ameaçada — e o único aspecto que interessa não é nem de longe abordado (na verdade, é espertamente omitido): o de que a escola brasileira continua produzindo portentos de ignorância em matemática, ciências, história e português e qualquer outra matéria que estiver no currículo. Doutrina, mas ensina, vai.

Passamos sempre longe do problema, e não vem que não tem que a culpa é só de Jair Bolsonaro, porque se a educação fosse melhor no Brasil, o Brasil seria melhor do que é, talvez o suficiente para não termos uma maioria tão grande de gente ruim na política. Escola boa não interessa a ninguém, seja de direita ou de esquerda, com as honrosas exceções de praxe (cada vez mais raras). O grande negócio é manter isso aí, viu. A ignorância é que atravanca o progresso, ainda bem para eles.

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