Mario Sabino

Pelé e a morte que é a curva da estrada

Acho curioso, como homem de 60 anos, que um doente terminal seja exposto. A sensibilidade contemporânea é mesmo outra. Só um fato não muda

atualizado

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Boris Spremo/Toronto Star via Getty Images
Retrato em close do rei Pelé - Metrópoles
1 de 1 Retrato em close do rei Pelé - Metrópoles - Foto: Boris Spremo/Toronto Star via Getty Images

Pelé pode morrer a qualquer momento. É um doente terminal de câncer.

Solidarizo-me com a família dele. Minha mãe e meu pai morreram de câncer, e para sempre levarei na memória a agonia por que passaram. No caso da minha mãe, ela foi sedada pouco antes do momento derradeiro, com o consentimento necessário de todos os familiares. Teríamos sedado antes, não fosse ela ter permanecido consciente até que os pulmões fossem tomados inteiramente pela pneumonia oportunista. Quanto a meu pai, ela já estava inconsciente fazia muitos dias, mas um de nós não permitiu que o sedassem. Para algumas pessoas, é difícil aceitar que um vivo já está morto, exceto pelo sofrimento.

Nos últimos dias, os filhos de Pelé divulgaram nas redes sociais fotos do pai na cama do hospital, vencido pela doença. A divulgação informativa, de caráter geral, também é catarse familiar. Representa, igualmente, uma homenagem ao ícone de um esporte universalmente popular e, como tal, fonte de orgulho nacional.

Não há nada de ilícito em jogar nas redes sociais imagens de Pelé prestes a morrer. Mas acho curioso, como homem de 60 anos, que um doente terminal possa ser exposto dessa maneira e ninguém, ou quase ninguém, surpreender-se com tal exposição. Pelo contrário, acha-se muito natural, o que me leva a crer que filhos de gente comum, como eram os meus pais, também publicam fotos dos seus moribundos. Sem dúvida, houve uma mudança tectônica: a sensibilidade contemporânea não guarda mais nenhum laço com o recolhimento. 

Lembro-me de que, em 1992, a marca de roupas italiana Benetton causou muita discussão, ao usar numa campanha publicitária a imagem do ativista David Kirby no leito de morte, vitimado pela Aids, assistido pela família. A foto havia sido feita dois anos antes e publicada pela revista Life. David Kirby concordou que o seu último instante fosse registrado, por achar que isso contribuiria para a luta contra com uma doença cercada pelo preconceito. A utilização pela Benetton, no entanto, resultou em celeuma. Trinta anos depois, tendo a crer que ela não existiria.

Se há uma coisa que a sensibilidade contemporânea não mudará, contudo, é o fato tão banal quanto extraordinário: não importa quem morra, e por mais que haja uma profusão de imagens espalhadas por aí, a morte é a curva da estrada, morrer é só não ser visto. Fernando Pessoa.

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